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Escrito por Frei Betto   
Terça, 26 de Janeiro de 2016
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A Conferência do Clima, realizada em Paris em fins de 2015, tumultuada pelos atentados terroristas das semanas anteriores, não abordou suficientemente muitos temas. Houve um encontro prévio na Bolívia, e lá estava o secretário geral da ONU. Ali se propôs promulgar uma Declaração Universal de Defesa da Natureza. A Declaração Universal de Direitos Humanos, de 1948, comparada com a da Revolução Francesa, representou um grande avanço, mas, vista de hoje, após mais de 60 anos, precisa ser aprimorada.

 

A declaração diz, por exemplo, que todos os seres humanos nascem com dignidade. Porém, não exige que se assegurem as condições de viverem com dignidade. E não determina, como a Declaração de Independência dos EUA, que todos têm direito à felicidade.

 

No Butão, pequeno país no sul da Ásia, o rei substituiu o Produto Interno Bruto pela Felicidade Interna Bruta. Agora o critério de aferição das condições do país não é mais o consumismo ocidental, é o da felicidade daquele povo camponês.

 

A Declaração Universal não fala dos direitos planetários. E já começou a corrida. Todo dia aparece, no noticiário, a cobiça cósmica. Primeiro, pela lua. Logo descobriram que ela não dá lucro. Agora é Marte, Saturno, Plutão. Gasta-se um absurdo com a colonização planetária, dinheiro que daria para resolver o problema econômico de inúmeras nações.

 

A ONG britânica Oxfam denunciou, em Davos, que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale às posses de metade da população mundial. Ou seja, em janeiro de 2014, 3,5 bilhões de pessoas mais pobres, de um lado da balança, e outras 85 mais ricas, do outro lado, com a mesma renda!

 

O francês Thomas Piketty, autor de O capital no século 21 e que não tem nada de esquerdista, afirma: a pirâmide da desigualdade crescerá aceleradamente enquanto o capital predominar sobre os direitos humanos.

 

O próprio sistema tem este nome: capitalista. Eis o drama das instituições de formação da cidadania, como sindicatos, Igreja, família e escola. Elas querem formar cidadãos. O sistema quer formar consumistas.

 

Esse o conflito que todo educador vive na própria família. É uma luta desigual. Ele tem valores, princípios, ética, mas o filho está exposto a uma multimídia avassaladora, confirmando o princípio do velho Marx: a maneira de pensar de uma sociedade tende a ser a maneira de pensar da classe que domina aquela sociedade. Isso é irrefutável. Quem domina tem em mãos os meios de comunicação.

 

O sistema de rádio e televisão brasileiro (não a imprensa escrita) tem dono: a União. Em outras palavras, todos nós contribuintes brasileiros. E o governo, em nosso nome, estabelece uma concessão - concede o direito de uso a um determinado grupo empresarial. Pela Constituição, essas concessões deveriam ser avalizadas e refeitas periodicamente, mas isso nunca acontece.

 

Quando trabalhei no Planalto, em 2003/2004 (narro essa história no livro Calendário do Poder, editora Rocco), eu perguntava ao presidente e aos ministros: o governo não é dono do sistema radiotelevisivo do Brasil? Sim, é dono. Por que, então, paga às emissoras de TV para fazer propaganda do Ministério da Saúde, do Ministério da Educação, do Banco do Brasil? Sem resposta.

 

Em época de eleições escutamos: “Inicia-se agora o horário eleitoral gratuito”. Mentira, não é gratuito. Tem isenção no Imposto de Renda. Há um cálculo de quanto o canal está perdendo naquele horário “cedido” aos partidos e candidatos, e isso é abatido no Imposto de Renda.

 

Em novembro, frente aos atentados em Paris, dizíamos “somos todos franceses”. É justo. Agora, quem, dias antes, diante do avião russo derrubado no Egito, ecoava “somos todos russos”? Que russos morram no Sinai, vítimas de atos terroristas, não tem a menor importância para nós, ocidentais.

 

Por isso tentamos disfarçar a globocolonização sob o manto virtual da globalização.

 

 

Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.

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