Rússia: expansão da política externa

 

 

 

 

 

Fincada de maneira recente no conflito da Síria, a Rússia, a despeito da eventual retaliação de novos adversários, aventura-se em território outrora objeto de desejo de posse dos Estados Unidos: o Afeganistão. Malgrado mais de uma década de tentativa, a Casa Branca não logrou êxito na empreitada de conquista.

 

Paralelo ao processo de derrota norte-americano, os russos proclamaram a vitória em 2009, após dez anos de luta, contra os secessionistas da Chechênia. Na visão moscovita, os separatistas aspiravam à constituição de um país teocrático.

 

Nem mesmo dois grandes ataques à população civil desanimaram o governo russo – 2002 a um teatro e 2004 a uma escola. O processo de independência foi interrompido, mas a presença do fundamentalismo persiste naquela área.

 

Nos próximos dias, Moscou enviará a Cabul armas de pequeno porte com o objetivo de emprego no combate de milícias radicais, independentemente do estandarte ostentado.

 

A medida relembra em escala muito menor a efetuada pela extinta União Soviética no final da década de 70, ao preocupar-se o governo daquela época com a influência do crescente extremismo religioso em suas fronteiras e, em função disso, incursionar de modo maciço em território afegão, com o fito de estruturar um regime comunista e de interromper toda possibilidade de instabilidade naquele rincão.

 

Uma década de insucesso militar lá na oposição aos integristas, entre os quais figurava o famigerado Osama Bin Laden, contribuíram para o encerramento da experiência de esquerda em terras russas e afegãs também. Seria o Vietnã da Estrela Vermelha, estimulado com bastante entusiasmo pela Casa Branca sob comando do Partido Republicano.

 

Hoje em dia, a necessidade de contraposição ao avanço do autodenominado Estado Islâmico naquela região promove a aliança temporária entre os setores de espionagem da Rússia e do Afeganistão, após anos de constantes refregas entre ambos durante a fase última da Guerra Fria. O Tadjiquistão observa o relacionamento com atenção, dado que a atuação fundamentalista pode ter impacto em sua sociedade.

 

Registre-se que as duas organizações – Talibã e Estado Islâmico - figuram como entidades terroristas aos olhos do Kremlin. Por razões distintas, a nenhum dos dois atores interessa a consolidação de uma nova vertente extremista, bem mais atenta à utilização de formas contemporâneas de comunicação como as redes digitais, o que amplifica o poderio de atemorizar populações e, por outro lado, de atrair militantes de nacionalidades de diferentes continentes.

 

O atual malogro norte-americano em solo afegão impôs ao empobrecido país a busca por novas parcerias castrenses, ainda que em grau modesto. O alvo de Cabul é a contenção da guerrilha tanto dos talibãs bem como do Estado Islâmico.

 

A venda de armamentos não é inédita para o Kremlin, mas desta feita ela é direta, sem a intermediação indiana ou estadunidense, e com a expectativa de aumento em quantidade e qualidade, haja vista a expectativa das forças armadas afegãs no tocante à aquisição de helicópteros, por exemplo.

 

Integrar-se, mesmo a contragosto de parte das potências do Ocidente, à contenção do extremismo é prioridade da política externa da Rússia, uma vez que os efeitos do crescimento do movimento podem atingir diretamente o país.

 

Estima-se que o russo seja o terceiro idioma entre os militantes do Estado Islâmico, superado apenas pelo árabe e inglês, o que demonstra a capacidade de magnetismo provocado pelo radicalismo da ideologia.

 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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