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2016: espoliação brutal é saída do capital para impasse histórico Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader, da Redação   
Sábado, 09 de Janeiro de 2016
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Com cara de velho, começa o novo ano, com notícias pra lá de similares a janeiro de 2015: ministro ultraliberal na Fazenda e tarifaços pelo país. Pra não falar do processo de impeachment e desdobramentos da Operação Lava Jato, que prometem manter a letargia do país frente à crise geral de seu modelo de desenvolvimento. Ainda assim, novas janelas sempre se abrem quando as contradições se agudizam, como demonstra a juventude. Para tratar do que nos espera em 2016, o Correio da Cidadania entrevistou Ruy Braga.

 

“Apesar das ações de mudança na política econômica, com a nomeação de Nelson Barbosa para o Ministério da Fazenda, é mais provável a continuidade da orientação geral do segundo governo de Dilma: a de garantir a transição de um regime de acumulação apoiado fundamentalmente na superexploração do trabalho assalariado para aquilo que podemos chamar de regime de acumulação apoiado centralmente em estratégias de espoliação social. Em suma, significa retrocesso nos direitos trabalhistas e sociais”, apontou o sociólogo do trabalho como “solução da crise”.

 

Quanto à instabilidade político-institucional, prejudicial ao grosso da população independentemente de quem seja o governante de turno, Ruy Braga prevê uma boa possibilidade de respiro ao governo, diante de toda a falta de credibilidade do protagonista do processo de impeachment.

 

“Mesmo eu que sempre sustentei uma postura de oposição de esquerda a Dilma e anulei meu voto no segundo turno das últimas eleições presidenciais devo admitir que não há a menor comparação entre as duas figuras. Um governo PSDB-PMDB seria um desastre enorme para os trabalhadores, ainda pior do que o governo de Dilma. E, como não seria um governo capaz de trazer de volta o clima de pacificação social da era Lula, não serviria tampouco para muitos setores burgueses que dependem dos mercados internos. Ou seja, com Cunha não há solução. Por isso, parece-me que o processo de impeachment, basicamente, está fadado ao fracasso. O fato de tal processo fracassar fortalece o polo vencedor, que é o do governo federal”, pontuou.

 

No entanto, Ruy Braga é enfático em afirmar que o modelo que consagrou as gestões petistas acabou e não poderá ser reproduzido, o que põe em xeque o próprio lulismo e sua estratégia de conciliação virtuosa de interesses opostos.

 

“Nesses momentos de contração cíclica, a política e suas decisões tendem a alargar os espaços para a espoliação social: dos direitos sociais, dos salários, do tempo de trabalho das pessoas, dos recursos naturais, espoliação de tudo aquilo que é público e que estava até então à margem, ou relativamente fora, do modelo de exploração anterior. Minha previsão é que iremos assistir a um aprofundamento da mercantilização do trabalho, do dinheiro e do meio ambiente em uma escala ainda maior do que nos últimos 14 anos. Não há dúvida de que precisamos de uma alternativa radicalmente diferente do que está aí”, disse o sociólogo, explicando o novo modelo de desenvolvimento, ou acumulação, posto em marcha já em 2015.

 

E já que, em sua visão, não se pode esperar mais nada das “encasteladas” direções dos movimentos, sindicatos e lideranças de sustentação do consenso recente, resta apostar naquilo que surge descolado de velhos grupos e aparatos. “Eu deposito todas as minhas fichas e esperança nos setores jovens, nos filhos da classe trabalhadora que hoje estão nas escolas, no ensino no médio, naqueles estudantes que inundaram o mercado de trabalho no último período, nos jovens que estão à procura do primeiro emprego e nos setores mais atingidos pelo subemprego. E tais segmentos coincidem com os setores jovens, negros e femininos da classe trabalhadora brasileira. Uma saída politicamente progressista para a crise brasileira passa necessariamente pela mobilização desse jovem precariado urbano”, apontou.

 

A entrevista completa com Ruy Braga pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Após um ano que parece não ter existido na vida útil do país, 2016 começa sob o mesmo clima de pessimismo de 2015, inclusive no que se refere à depressão econômica. O que você espera deste ano que recém-começa?

 

Ruy Braga: Apesar das ações de mudança na política econômica, com a nomeação de Nelson Barbosa para o Ministério da Fazenda, é mais provável a continuidade da orientação geral do segundo governo de Dilma: a de garantir a transição de um regime de acumulação apoiado fundamentalmente na superexploração do trabalho assalariado para aquilo que podemos chamar de regime de acumulação apoiado centralmente em estratégias de espoliação social. Em suma, significa retrocesso nos direitos trabalhistas e sociais. Fala-se em nova rodada de reforma da Previdência, mudança na idade de aposentadoria, diminuição de determinados direitos constitucionais, em especial aqueles vinculados à obrigatoriedade de investimentos públicos em áreas sociais, aprofundamento da orientação rentista, estruturada sobretudo no mundo das finanças e suas chantagens etc.

 

Do ponto de vista da estrutura social, não vejo até o momento delinear-se uma alternativa progressista no interior do governo que privilegie os interesses dos trabalhadores. O mais provável é o aprofundamento dessa estratégia de espoliação social a fim de garantir os lucros dos capitalistas.

 

Por outro lado, a crise política entra num momento de stand by, mas com evidente distensão, levando-se em conta que a grande chantagem que marcou o ano 2015, isto é, a ameaça do impeachment, deixou de existir com o início do processo na Câmara. Aos meus olhos, isso coloca o governo numa posição um pouco melhor, pois ele irá se reorganizar em torno de uma causa politicamente legítima, isto é, a reação a uma tentativa de golpe parlamentar “paraguaio” implementada por um presidente da Câmara que é, notoriamente, um político corrupto.

 

Significa que haverá, na minha opinião, uma reorganização das forças governistas em torno do poder da presidência da República em defesa de seu mandato. Isso tende a atrair setores que estavam se desgarrando do governo ou em flagrante crise com o governo. Muitos militantes socialistas serão novamente atraídos para o polo da legalidade. Assim, a posição governista sairá fortalecida do processo de impeachment.

 

Portanto, diria que 2016 será um ano diferente de 2015. O governo federal deverá retomar alguma capacidade de iniciativa na cena política. Ou seja, será um governo mais ativo do que foi ano passado. No entanto, do ponto de vista econômico, a tendência é que se consolide um regime de acumulação via espoliação, totalmente deletério do ponto de vista dos trabalhadores.

 

Correio da Cidadania: Quanto ao processo de impeachment de Dilma, vimos que continua o vai e vem, isto é, altas tensões em revezamento com aparentes apaziguamentos. Além disso, a possível queda de Eduardo Cunha foi empurrada para fevereiro, o que talvez sugira uma dinâmica parecida de alianças e rupturas entre os grupos políticos dominantes. O que espera de todo esse tabuleiro de peças em movimento? Acredita num grande acordo nacional em prol da estabilidade, nos moldes propostos pelo cientista político André Singer, conforme artigo publicado recentemente?

 

Ruy Braga: Diria o mesmo que Florestan Fernandes: o pacto conservador brasileiro é implacável. Numa conjuntura política marcada especialmente pela polaridade Dilma-Cunha, temos uma comparação grotesca. Eduardo Cunha não se configura como alternativa de absolutamente nada. A tendência é vermos a presidência sair fortalecida.

 

Mesmo eu que sempre sustentei uma postura de oposição de esquerda a Dilma e anulei meu voto no segundo turno das últimas eleições presidenciais devo admitir que não há a menor comparação entre as duas figuras. Um governo PSDB-PMDB seria um desastre enorme para os trabalhadores, ainda pior do que o governo de Dilma. E, como não seria um governo capaz de trazer de volta o clima de pacificação social da era Lula, não serviria tampouco para muitos setores burgueses que dependem dos mercados internos. Ou seja, com Cunha não há solução. Por isso, parece-me que o processo de impeachment, basicamente, está fadado ao fracasso. O fato de tal processo fracassar, fortalece o polo vencedor, que é o do governo federal.

 

Nesse sentido, 2016, provavelmente, será um ano marcado pela retomada de uma certa capacidade de ação política do governo. Esse é meu principal prognóstico. Será um ano marcado pela tentativa do governo de retomar alguma margem de ação política. E provavelmente Cunha cairá nos próximos meses, pela situação absolutamente grotesca de se ter um comprovado corrupto à frente da Câmara federal.

 

Correio da Cidadania: O ministro Joaquim Levy, após o desgastante ajuste fiscal, acaba de deixar o governo, sendo substituído por Nelson Barbosa. Porém, pelo que você disse no início, não se pode esperar uma orientação macroeconômica relevantemente distinta para 2016.

 

Ruy Braga: Não, porque basicamente não foi construído projeto alternativo. O que temos hoje é o esgotamento cabal do modelo de desenvolvimento apoiado em um certo ritmo de  acumulação dos motores tradicionais da economia brasileira, como a produção de commodities, os investimentos da construção pesada, a expansão do agronegócio, os investimentos na área de energia e petróleo, e principalmente, o consumo popular, com acesso de uma massa crescente da população ao crédito, o que provocou um aumento exponencial no endividamento das famílias, agora em índices recordes no país.

 

Essa fórmula não vai se repetir nos próximos 10 anos. Não há, adiante, no cenário internacional, uma perspectiva de retomada na China, na Índia, mesmo em países da Europa. Ao contrário, a desaceleração chinesa é ainda pior do que se imaginava ano passado. A retomada norte-americana é importante, mas ainda muito modesta. Além disso, o desempenho econômico dos Estados Unidos está muito ligado ao crescimento chinês... Isso tudo faz com que, muito provavelmente, o mercado mundial no próximo período cresça a taxas muito moderadas, diferentemente dos últimos 14 anos.

 

Naturalmente, a economia brasileira, que se especializou em exportar commodities, fica numa situação delicada. Por outro lado, a estrutura social brasileira está marcada por uma enorme sobre-capacidade produtiva. Os principais setores da economia têm muito estoque e muita capacidade ociosa. Os empresários olham para suas empresas e perguntam: “por que vou investir se dentro da minha própria fábrica tenho uma enorme capacidade ociosa que não é efetivamente absorvida pela demanda?” Trata-se de uma questão clássica para o marxismo: o problema da contração cíclica.

 

As famílias estão endividadas, precisam se preocupar em primeiro lugar com a realidade mais incerta do mercado de trabalho e o aumento do desemprego e do subemprego, que significa fundamentalmente a compressão de sua renda. As famílias quando estão muito endividadas adotam outras estratégias. Não estão consumindo, estão pagando suas dívidas como podem. Ou seja, elas estão vivendo da mão pra boca. Os únicos setores que de fato não foram, até o momento, ao menos atingidos pela queda de consumo são os bens de subsistência mais elementares. Isso tudo faz com que o modelo lulista – o regime de acumulação do último período – tenha se esgotado. E não há nada no lugar, nada esboçado, não há uma alternativa crível ao colapso do atual modelo.

 

É importante entender que o capitalismo funciona assim: quando se tem momentos da economia marcados por expansão, tem-se alguma margem de manobra em termos de concessões, em especial, concessões trabalhistas, direitos sociais... Normalmente, tais períodos de expansão são apoiados – não exclusivamente, mas principalmente – sobre os setores assalariados da classe trabalhadora, isto é, sobre a exploração do trabalho assalariado. No caso de uma estrutura social semiperiférica e tardia como a brasileira, sobre a exploração do trabalho assalariado barato, eu acrescentaria.

 

Momentos de contração cíclica, como o que vivemos hoje, impõem uma série de desafios que tendem a fazer com que as empresas dependam cada dia mais daquilo que eu, nas trilhas de Rosa Luxemburgo, chamaria de “acumulação política de capital”. Ou seja, dependem da violência política dos governos. Inclusive dependem de que ele desloque suas estratégias de acumulação para aquilo que é, exatamente, a espoliação das concessões feitas no momento anterior, isto é, durante a expansão do ciclo econômico. Se no período anterior houve aumento da massa salarial, agora teremos um ataque à massa salarial. Se no período anterior observou-se algum avanço, mesmo moderado, em termos de direitos, na sequência eles serão atacados etc.

 

Nesses momentos de contração cíclica, a política e suas decisões tendem a alargar os espaços para a espoliação social: dos direitos sociais, dos salários, do tempo de trabalho das pessoas, dos recursos naturais, espoliação de tudo aquilo que é público e que estava até então à margem, ou relativamente fora, do modelo de exploração anterior.

 

Minha previsão é que iremos assistir a um aprofundamento da mercantilização do trabalho, do dinheiro e do meio ambiente em uma escala ainda maior do que nos últimos 14 anos. Em suma, teremos pela frente, ainda que sob diferentes roupagens, uma intensificação dos ataques aos interesses dos trabalhadores. Do ponto de vista dos direitos, do assalariamento ou do emprego. A tendência é que se aprofunde a degradação das condições de trabalho, com a diminuição do emprego, aumento do subemprego, diminuição dos salários...

 

Não podemos esquecer que o último período foi marcado, apesar de todas as dificuldades, por um aumento real da massa salarial. Ela cresceu, o que significa que há mais renda nas famílias trabalhadoras. Isso já está sendo atacado. O aumento do desemprego é o jeito mais típico de disciplinar a classe trabalhadora e aprofundar as condições de exploração. Não há dúvida.

 

E não há plano B. Não existe uma guinada generalizada na direção de outra alternativa econômica, com investimento massificado em setores capital-intensivos etc. No máximo, vamos exportar mais carros por conta do novo patamar do dólar. Mas, como algo alternativo, não há nada inovador no horizonte. A única coisa que está no horizonte é atacar os pequenos e moderados ganhos da classe trabalhadora no período anterior para se tentar um processo mais acentuado de acumulação.

 

A esquerda socialista precisa entender que no capitalismo desenvolvimento significa acumulação, isto é, aprofundamento da exploração. De novo: desenvolvimento = acumulação. E acumulação implica bases sociais, implica práticas econômicas e implica formas de intervenção na vida política. Pra garantir a acumulação crescente, será preciso atacar os trabalhadores. Não há alternativa, não há mediação possível na atual situação. Se os setores governistas esperam por uma reedição da arbitragem lulista entre as classes, vão ter que esperar sentados.

 

Correio da Cidadania: Em entrevista ao Correio concedida em março de 2015, você dizia que o esfacelamento do modelo econômico poderia paralelamente levar o chamado “lulismo” junto. Como enxerga esse processo histórico recente diante do novo ano?

 

Ruy Braga: Na minha opinião, acabou o lulismo porque acabou o consenso. O lulismo foi basicamente uma estratégia de política de pacificação social, apoiada em dois tipos de consentimento, distintos, porém, complementares: um mais passivo, das massas, que aderem ao governo seduzidas pela relativa desconcentração de renda entre os segmentos do mundo do trabalho, aumento da formalização no mercado de trabalho, o crédito popular e políticas públicas importantes que tiraram milhões de trabalhadores da miséria. Houve uma pequena margem de concessão aos trabalhadores, e agora ela está sendo atacada. Por outro lado, houve um consentimento ativo das direções dos movimentos sociais do país formados desde a redemocratização, época que marcou o surgimento de dois grandes movimentos, o sindical, hegemonizado pela CUT, e o MST. As lideranças dos anos 1980 e 1990 foram seduzidas pelos milhares de cargos no aparelho de Estado e pela possibilidade de enriquecimento proporcionadas pelas posições nos conselhos gestores dos fundos de pensão.

 

Em suma, ambos, e de resto a maior parte dos movimentos, foram seduzidos pelo governo federal, o que significa uma pacificação do polo de resistência a certas políticas, inclusive algumas antipopulares, ao longo dos últimos 12 anos. O atual momento significa que o lulismo como estratégia de pacificação social acabou, porque não há consenso capaz de garantir a reprodução das bases sociais dessa estratégia de pacificação. Do ponto de vista das massas populares, há um progressivo afastamento da orientação geral do governo. Do ponto de vista das lideranças dos movimentos, existe um aprofundamento dessa crise, pois as direções sentem-se desconfortáveis com os ataques do governo aos trabalhadores.

 

Há uma crise de representação apoiada no aumento das tensões entre as direções dos movimentos e o governo. Isso foi visível no último período, com críticas da CUT ao Ministério da Fazenda e às políticas adotadas pelo Levy. Isso é normal e confirma as características do poder sindical, que em algum nível precisa oferecer contrapartidas às suas bases, já que trabalha sem a estabilidade da forma de dominação apoiada na propriedade, algo tipicamente capitalista. Assim, o poder sindical é mais permeável à pressão dos de baixo.

 

Portanto, como não há consenso, não há lulismo, por assim dizer. O lulismo, como modo de regulação do conflito Capital x Trabalho, esfacelou-se. E no seu lugar não apareceu uma alternativa politicamente estável. Há uma grande confusão, não se sabe efetivamente qual será o novo modo de regulação e se de fato existirá um modo de regulação capaz de estabilizar o conflito Capital x Trabalho no país. Penso que não. Creio que esse modo de regulação vai se nutrir do esfacelamento do modo anterior.

 

Quer dizer, a meu ver, por um lado, as classes populares continuarão bastante afastadas do governo e, por outro, as bases governistas, principalmente o movimento sindical, continuarão gravitando em torno do governo e estabelecendo algum tipo de pressão. Uma parte dessas bases, sem dúvida, será atraída por qualquer migalha que o governo oferecer, qualquer pequena concessão. E uma parte, principalmente os setores do movimento social e sindical mais próximos de suas bases, se sentirá progressivamente mais pressionada pelo ativismo esporádico dos subalternos.

 

Parece-me que hoje em dia não é possível mais falar em regulação no país, porque não se tem as bases sociais capazes de garantir a estabilidade do modelo de desenvolvimento e que, no fundamental, passa por concessões às massas. Temos uma enorme confusão e um horizonte que, muito provavelmente, continuará marcado por ataques aos direitos dos trabalhadores, que por sua vez tentarão defender seus direitos.

 

A polarização e o retorno da luta de classes ao país produzem a instabilidade. A priori, não se sabe para onde vai dar o barco. E parece ser essa a grande marca do momento presente: a incerteza, o aumento dos conflitos, a reprodução difícil e problemática da legitimidade das direções dos movimentos sociais diante de suas bases.

 

Correio da Cidadania: O que achou das movimentações à esquerda do espectro político neste 2015 e o que se poderia, ou deveria, esperar de grupos, movimentos e partidos que ainda pretendem pautar outro projeto de país?

 

Ruy Braga: O ano de 2015, do ponto de vista de tais mobilizações, foi marcado por dois polos. Por um lado, aumento da escala e intensidade da mobilização dos setores médios tradicionais, o que fez os setores populares viverem relativa defensiva ao longo de todo o ano. E tal defensiva esteve marcada por uma desorientação das direções tradicionais dos movimentos populares do Brasil, por conta da inflexão reacionária e conservadora do governo Dilma, tendo à frente o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy. E agora, no último quarto de 2015, nós vivemos uma relativa reorganização das forças de esquerda em torno da defesa da legalidade, por conta do processo de impeachment estabelecido pelo presidente da Câmara, o que garantiu certo fôlego ao governo.

 

Assim, ao mesmo tempo, tem-se nas ruas a defesa do governo, dada a ausência de alternativas críveis capazes de solucionar a crise, e por outro lado os setores populares, movimentos sociais e sindicais na defensiva, se posicionando criticamente contra as medidas de austeridade do governo federal e contra o impeachment. No final do ano, vimos uma reaglutinação dos setores governistas em defesa da legalidade, que evidentemente atraiu parte importante do movimento crítico, inclusive da oposição de esquerda, frente à situação grotesca de se ter um processo de impeachment estabelecido nesses moldes.

 

Pensando nos movimentos sociais, foi algo mais pendular. Até setembro, relativa defensiva com intensificação da crítica ao governo, e no final do ano aumento da mobilização que desaguou na manifestação do dia 16 de dezembro, com relativo sucesso, estruturada em torno da legalidade.

 

No entanto, destaco que as condições socioeconômicas mais profundas, isto é, desestruturação dos pilares do último período e o aumento do desemprego, têm minado a força que a classe trabalhadora vinha acumulando até 2013. O sistema de acompanhamento de greves do DIEESE acabou de divulgar os dados de 2013, que são impressionantes: houve mais de 2 mil greves, com flagrante retomada da atividade grevista em todo o país, principalmente nos setores privados e empresariais, também com participação dos funcionários públicos e forte presença de setores-chaves da economia brasileira, como metalúrgicos e petroleiros. Isso fez com que se acumulasse forças em termos de massa salarial e poder político.

 

Mas a partir de 2014, com a deterioração do mercado de trabalho e aumento importante do desemprego em 2015, a tendência é a erosão de parte dessa força acumulada e enfraquecimento de tal capacidade de mobilização. Portanto, me parece que essa guinada mais à esquerda dos movimentos, em especial sindical, está relativamente dissociada do processo de erosão da força social da classe trabalhadora quando se pensa nas condições gerais do poder popular.

 

O cenário é bastante contraditório. Penso que teremos um período marcado por certa defensiva das classes trabalhadoras por conta do aumento do desemprego, mas uma retomada da capacidade de organização dos setores governistas em torno da presidência da República. Por outro lado, entendo que, tendo em vista a deterioração econômica, os setores mais explorados e mais dominados deverão ter um certo papel protagonista na luta política futura, superior ao momento anterior. Em suma, acho que os setores da classe trabalhadora sindicalmente organizados recuarão, comparativamente falando, e os movimentos sociais como o MTST avançarão relativamente.

 

Correio da Cidadania: É possível pautar outro modelo ao lado de setores governistas ou só o rompimento total com o lulismo e o petismo pode criar credibilidade suficiente na população para esta finalidade?

 

Ruy Braga: Não há dúvida de que precisamos de uma alternativa radicalmente diferente do que está aí. Isso porque o lulismo como modo de regulação acabou e como regime de acumulação colapsou, pois não há espaço no horizonte para se aumentarem as concessões aos trabalhadores, e sim o contrário, um ataque cada vez mais profundo aos trabalhadores. As forças governistas são incapazes de imaginar uma alternativa porque estão encasteladas no Estado e farão de tudo para garantir essa posição privilegiada, inclusive contra os interesses dos trabalhadores.

 

Parece que os setores de oposição à esquerda do governo, a despeito de terem assistido um relativo fortalecimento no último período, ainda são demasiadamente frágeis pra apresentar uma proposta crível. No entanto, é a única alternativa possível no médio prazo: apostar nos setores de esquerda intransigentes ao governo federal e na conformação de um polo alternativo à dualidade entre PT x PSDB que se estabeleceu nos últimos 25 anos. É a minha aposta.

 

Não há alternativa possível dentro do governismo. Terá de ser construída fora do governismo, naquilo que eu chamaria de terceiro campo, capaz de organizar a luta de classes no país de maneira progressista para os trabalhadores. Acredito que o próximo período será marcado por agudas lutas de classes: política, econômica, cultural e ideologicamente.

 

Portanto, não há mais espaço para as mediações construídas pelo lulismo, com seus campos intermediários e hibridismos políticos. Não há mais tal espaço. O que existe, na verdade, é a necessidade de uma atitude mais radical. Nesse sentido, os setores da chamada “extrema esquerda” têm um amplo campo pra trabalhar. Resta saber se serão capazes de organizar a indignação que cresce no interior das classes trabalhadoras e subalternas no país.

 

Correio da Cidadania: Lava Jato, crise na Petrobrás, tragédia da Samarco, desemprego em alta, crises hídricas e energéticas cada vez mais à espreita, ataques à educação pública, um cotidiano barbaramente militarizado... Para onde parece rumar o Brasil?

 

Ruy Braga: Eu deposito todas as minhas fichas e esperança nos setores jovens, nos filhos da classe trabalhadora que hoje estão nas escolas, no ensino no médio, naqueles estudantes que inundaram o mercado de trabalho no último período, nos jovens que estão à procura do primeiro emprego e nos setores mais atingidos pelo subemprego. Aquilo que tem a ver, basicamente, com setores da classe trabalhadora que vivem entre esses dois polos: de um lado, o aprofundamento da exploração econômica e de outro a possibilidade real de exclusão social. E tais segmentos coincidem com os setores jovens, negros e femininos da classe trabalhadora brasileira, que têm mostrado uma enorme capacidade de automobilização. Vimos isso nitidamente em junho de 2013, estamos vendo hoje com o aumento da mobilização dos estudantes do ensino médio público e a onda de ocupação de escolas em São Paulo, em Goiás etc.

 

O grande desafio para uma saída progressista da crise brasileira passa necessariamente pela construção de pontes entre esses setores jovens e automobilizados, que têm muita vitalidade combativa, e também foram melhor formados, pois têm mais escolaridade que a geração anterior. E, ao mesmo tempo, se veem imersos em condições muito ruins de contratação, renda, trabalho, experimentando na pele as contradições do modelo de desenvolvimento brasileiro, cuja capacidade expansiva se esgotou. Uma saída politicamente progressista para a crise brasileira passa necessariamente pela mobilização desse jovem precariado urbano.

 

O desafio é esse: articular os setores combativos que encarnam a agenda da defesa dos direitos sociais, da saúde, da educação, do transporte público de qualidade, da renda, do mercado de trabalho formal, dos direitos previdenciários. Essa geração é quem encarna tais condições, ao lado de setores mais desorganizados da classe trabalhadora. O grande desafio é como politizar a luta toda, que evidentemente é política, como toda luta social, mas também no sentido de se construírem projetos alternativos ao que, fundamentalmente, vimos até hoje. Ou seja, um projeto alternativo ao lulismo.

 

Nesse sentido, a despeito de 2015 ter sido péssimo em termos econômicos, de desemprego, de crise hídrica, com essa enorme tragédia da mineradora (que mostra o significado da acumulação por espoliação do meio ambiente), e que terminou simbolicamente com o incêndio no Museu da Língua Portuguesa, enfim, um ano completamente terrível para as classes populares brasileiras, também assistimos a emergência política de uma geração que vai dar o que falar. E aposto minhas fichas exatamente nessa nova geração.

 

Valéria Nader é economista e editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

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Última atualização em Quarta, 16 de Março de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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