Rússia no Oriente Médio: a incógnita de 2016

 

Em 2016, haverá a eleição presidencial nos Estados Unidos, momento em que o mundo deve voltar a atenção para aquele país, ainda que com graus diferentes de interesse entre os governantes, em função da admiração ou da repulsa de cada um.

 

Até o momento, sobressai entre os postulantes republicanos Donald Trump.

O milionário acostumou-se a proferir comentários controvertidos no decorrer da campanha com o propósito de cativar a parcela mais conservadora da opinião pública. Um dos últimos referiu-se à possibilidade de proibição do ingresso de muçulmanos em solo estadunidense.

 

É possível que sua presença nas prévias seja o medidor de limites para seu partido – ao enviar aos eleitores mensagens polêmicas, Trump influencia o tom da disputa ao tempo em que prospecta as posições, mesmo recônditas, da sociedade.

 

Desta forma, ele assegura aos demais rivais o marco político sobre o qual eles não poderiam transpor, a fim de não assustar e, por conseguinte, afastar os cidadãos, haja vista a desobrigação do voto. Guardadas as devidas comparações com as provas de meia e de longa distância no atletismo mundial, ele é o ‘coelho’ da peleja de sua agremiação.

 

Há poucos dias, o presidente da Rússia, Vladmir Putin, elogiou-o de maneira pública, ao afirmar em uma conferência à imprensa ser o norte-americano homem de talento e brilhante, embora extravagante.

 

Em que pese o teor positivo da fala, o afago russo não deixou de ser sarcástico aos ouvidos democratas, dado que o aprofundamento do envolvimento militar de Moscou com Damasco nas últimas semanas desagradou bastante Washington.

 

Indo além da mera perspectiva circunstancial, poder-se-ia argumentar que a Rússia Unida, frente política do atual dirigente, teria mais afinidade ideológica em tese com o Partido Republicano, ao valer-se mais do patriotismo ou até da beirada da xenofobia e da militarização maior, por causa da guerra ao terrorismo iniciada antes do 11 de setembro de 2001 em decorrência dos conflitos na Chechênia, que seus respectivos opositores.

 

A postura moscovita difere da adotada anos atrás quando o governo renunciou a históricas bases bélicas em Cuba e Vietnã. A motivação poderia ter decorrido da fragilidade econômica, derivada bastante do período de Boris Yeltsin, cultor inebriado do capitalismo neoliberal, momento em que o país limitava-se a exportar recursos naturais, desmilitarizar-se e solicitar empréstimos a instituições ocidentais. Malgrado o convite para compor o chamado G-7 em 1998, o resultado mais visível da transformação naquela época foi o baque econômico.

 

Em 2016, os Estados Unidos não poderão ignorar a Rússia no Oriente Médio como havia ocorrido na II Guerra do Golfo, em 2003. Por outro lado, há dúvidas se Moscou teria fôlego financeiro para uma permanência mais longa em solo sírio. Enquanto isso, mais jatos e misseis encaminham-se à base naval de Tartus, como uma resposta indireta à Turquia, em face da recente derrubada da aeronave russa, também alvo de sanções econômicas.

 

A baixa constante no preço do petróleo afeta a capacidade de movimentação do país fora de suas extensas fronteiras. Há especulações se a entrada na guerra civil da Síria não seria um modo de bonapartismo, ou seja, de desvio da atenção da população dos problemas internos com a exaltação da política externa.

 

Logo, ela seria a continuidade da atuação castrense na Ucrânia, ao ter por objeto a recuperação da Criméia, e da Geórgia, ao opor-se ao tratamento do governo local a grupos de ascendência russa por mais autonomia administrativa.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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