O levante começou e tem a cara de nosso tempo

 

Certa manhã, um passarinho chamado Bertold Brecht cantou um canto fundo que clamava por mudança e lamentava o tempo em que havia "tanta injustiça e tão pouca revolta".

 

Nós, que lutamos até cansar a fé, que dedicamos nosso pouco tempo livre a construir o sonho do futuro, esperamos desde o fundo passado o momento em que a revolta exploda e possa gerar a chama de um fogo mudancista: um fogo que consuma todo o sofrimento e toda a exploração e ao mesmo tempo leve aos céus as labaredas do novo, da esperança e da revolução.

 

A fervura que cozinha os oprimidos debaixo das chibatas está em temperatura quase incontrolável; ao contrário do que dizem as bocas da dominação, o povo brasileiro sempre lutou e ainda agora tem lutado, e muito!

Do Mato Grosso do Sul ecoa o grito de guerra que instala a unidade do tempo partido: a luta dos Guaranis Kaiowá é a fissura no relógio que repõe no presente o passado a libertar. Numa leitura Benjaminiana de Brasil, só pode varrer a história a contrapelo quem não tem medo da radicalidade encarnada no vermelho do sangue que eles derramam sobre a terra, sem arredar o pé diante dos usineiros encobertos pelos governos todos (e vejam só!), inclusive os do PT.

Nos estados do norte do país, irmãos e irmãs, haitianos e haitianas, superam todos os percalços de um caminho mais do que espinhoso e chegam ao Brasil em busca da sobrevivência: estamos diante dos escravos dos anos 2000.

 

Empurrados de sua terra pela desgraça e pela fome, aventuraram-se – novamente sem escolha – pelos mares, nos navios negreiros que os trouxeram para a vida dura da clandestinidade na construção civil, nos subempregos de todo tipo, ao lado de nossos irmãos bolivianos nos porões sem luz, a costurar para grandes grifes de burgueses brancos, que choram hipocritamente as chagas ainda abertas da escravidão.

Do Capão Redondo à Cidade Tiradentes, de ponta a ponta da panela de pressão paulista, a juventude preta e pobre das periferias, os herdeiros órfãos da greve de 1979, experimentam o que foi o Bronx e o Harlem num contexto invertido: no Brasil, a classe trabalhadora é majoritariamente negra e quase absolutamente não branca. Sobrevivendo no inferno (parafraseando os Racionais), eles guardaram a esperança a salvo e reviraram a ideologia do avesso.

 

Quando a sociedade do consumo enlatou a nossa raiva, eles fizeram tremer as estruturas, dando rolezinhos negros nos shopping centers e escancarando o racismo de que são vítimas. Quando os governos consolidaram um dos maiores falsos consensos do Brasil - "todos pela educação" - eles fizeram vir abaixo a maquiagem e ocuparam as escolas, escancarando que o genocídio democrático da juventude pobre assume variadas formas.

No Rio de Janeiro, o cartão postal mais importante pra vender o Brasil produto, os garis arrepiaram a memória dos museus quando se enfileiraram, ainda que sem saber, ao lado dos marujos de canhões apontados para a Guanabara. Com sua greve, em pleno carnaval, escancararam o lixo e o fedor da cidade maravilhosa que esmaga negros e negras, gerando tristeza, Amarildos, indignação, Cláudias e DGs.

Não é do jeito que você queria, eu sei... Mas acredite, essa é a ascensão que você tanto esperava.

 

Ele é trabalhador, mas não é sindicalizado. É operário e, ao mesmíssimo tempo, é negro, é indígena e é mulher.

 

Embora não se organize nos DCEs, a ascensão estuda e muitas vezes se organiza, mas na cultura, no rap, no funk, no raga, nos Saraus.

 

É uma ascensão da classe trabalhadora sim!

Uma ascensão tão feroz quanto é a violência capitalista contra nós, ascensão sem esquadro, maleável, como algo que escapa, que não se encaixa, difícil de enquadrar e de destruir.

É a classe trabalhadora quase fervilhando por baixo, nos bairros, nas fábricas, nas escolas. Contra os partidos da direita, mas também contra o PT.

Dá medo? Eu sei, e acho que todas as vezes que as placas tectônicas se movem, a sensação do incontrolável assusta. Mas se deixarmos que os receios guiem os nossos pés, perderemos essa chance de estar com os pés e as mãos livres para construir o futuro ao lado dos trabalhadores e trabalhadoras do nosso país.

Feliz Ano Novo.

 

Helena Silvestre é militante do Luta Popular.

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