Esquerda e direita

 

 

A polaridade entre esquerda e direita já não acontece mais como nos tempos da Guerra Fria, quando as correntes eram alinhadas automaticamente aos blocos soviético ou estadunidense, tão pouco como nos primórdios da Revolução Cubana, quando a esquerda era associada aos ideais de justiça e igualdade e a direita, na América Latina, a regimes autoritários que usavam métodos cruéis e desumanos para aniquilar seus adversários.

 

O contexto político internacional, hoje, é outro: as fronteiras nos países africanos, no Oriente Médio e na Europa foram redefinidas, aumenta no mundo, a cada dia, a presença do fundamentalismo islâmico com suas implicações, a economia chinesa cresceu significativamente, formaram-se novos blocos econômicos, o alcance das organizações transnacionais aumentou.

 

Não só os atores em cena assumiram novos papéis como, também, mudou o cenário: cada vez mais se tenta fazer reconhecer a diversidade cultural, a democracia, a liberdade no que diz respeito a todos os aspectos da vida, passando pelo respeito à orientação sexual de cada um, às crenças religiosas, pela expressão do pensamento e pela organização política e social. Não se pode perder de vista a dimensão desses valores, paulatinamente afirmados e reafirmados, particularmente em um momento em que estão cada vez mais presentes no mundo a xenofobia e o obscurantismo.

 

É neste contexto que devem ser entendidos, hoje, os conceitos direita e esquerda, e considerando o valor das liberdades alcançadas até agora. O "guarda chuva" de cada um dos conceitos abriga grande diversidade de posturas em relação à vida e à sociedade - posturas que vão desde as que defendem a coexistência de todas as diferentes manifestações de homens e mulheres na sociedade até as autoritárias, que querem aniquilar tudo que difere de seu pensamento.

 

O que difere os conceitos de direita e esquerda é o papel que cada um dá ao Estado, e a destinação que ele dá aos seus recursos – que são públicos. A direita é aquela que defende as liberdades econômicas como valor máximo do qual derivam todas as outras liberdades; ela defende o Estado mínimo. Os liberais, por exemplo, dizem que a livre concorrência é boa para todos: sem a interferência do Estado, a tendência é que o mercado encontre um equilíbrio natural, com a máxima produtividade, preço justo e melhor qualidade, como se uma "mão invisível" acomodasse a economia e os problemas da sociedade.

 

A esquerda não acredita nisto: quer regulação das atividades econômicas, para garantir a todos o respeito aos direitos humanos, quer sistemas de saúde, educação e transporte urbano públicos, mantidos pelo Estado, e acha que a liberdade econômica deve ser restringida em nome de outros objetivos como a redução da pobreza.

 

E quando se fala em Estado, aqui, não se está tratando de um Estado "inchado": o Estado Moderno é aquele onde existe uma burocracia profissional completa, que é quem possibilita continuidade do seu bom funcionamento e de políticas públicas de interesse da população.

 

O conceito clássico de direita e esquerda originou-se na Europa, mas os sentidos de direita e esquerda são diferentes na Europa e na América Latina, porque são produto de uma história diferente. Por exemplo: a esquerda, na Europa, dá grande valor à liberdade política, pela sua proximidade da experiência da União Soviética; na América Latina, é autoritária, no sentido de que não acredita no valor da pluralidade política.

 

Direita e esquerda têm contribuições a dar à vida em sociedade. Os conceitos de que as condições concretas de existência säo determinantes do futuro de um ser humano, postulado da esquerda, e de que o indivíduo é o responsável pelo que acontece a ele, baluarte da direita, podem ser balizados um pelo outro, com benefício para todos.

 

A realidade apresenta exemplos que "provam" as duas teses. Absolutizar a primeira pode levar ao "conforto" de dissolver no coletivo a responsabilidade por tudo o que acontece; fazer o mesmo com a segunda transforma todos em "super-homens" acima de quaisquer obstáculos.

 

Perceber o que pensa diferente como adversário só leva ao acirramento da animosidade de uns contra outros. Numa democracia há pluralidade política assim como, nela, o governo sabe que é bom que exista oposição: sua crítica permite a ele ver problemas que de outra forma não veria e, assim, ficar melhor.

 

Mais importante que colocar governos e agremiações em "gavetas" - direita e esquerda - é compreender sua conduta ou proposta em relação ao papel do Estado - e ver se está de acordo com a sua concepção de Estado.

 

Andrea Paes Alberico, Elisa Helena Rocha de Carvalho, Guga Dorea, José Juliano de Carvalho Filho, Silvio Mieli e Thomaz Ferreira Jensen são membros do Grupo de São Paulo - um grupo de pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional de boletim editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

Comentários   

0 #1 A Direita é boazinha?Juca Ramos 10-01-2016 17:20
Outra "aulinha", desta vez deste grupo de SP, pra tentar, com seu jeitinho aparentemente paternal, convencer o leitor de que a Direita seria a forma correta, natural, e a Esquerda seria uma anomalia, contrária aofuncionamento normal da sociedade.
O texto até dá uma colherzinha de chá dizendo que nos tempos da Revolução cubana a esquerda era idealista, como se a Revolução russa já não houvesse provado que idealistas revolucionários de hoje são os ditadores de amanhã. E mais abaixo fecha a fatura dizendo que a esquerda só é boa na Europa, onde aprendeu com a ameaça comunista soviética. Já aqui nos trópicos a esquerda "é autoritária" porque "não acredita no valor da pluralidade política". De onde é que saiu isso? Cadê os leninistas governando o Brasil, recentemente a Argentina e Uruguai, à frente da Bolívia, Equador e Venezuela? Nem mesmo o falecido Hugo Chávez com seu carisma e apego ao poder impediu, à la Fidel Castro, o pluralismo político.
Já a direita, que o artigo chama anodinamente de liberais, só quer - diz o texto - que a mão invisível do mercado "acomodasse a economia e os interesses da sociedade" Mesmo!? E o neoliberalismo globalizante e concentrador da riqueza, em detrimento de quem realmente a produz, que são os trabalhadores?
Na verdade não existe mais essa Direita boazinha e democrática que o artigo quer dar a entender. O neoliberalismo dominante está preocupado apenas com seus ganhos e vantagens, usando dos vastos meios ao seu dispor pra impedir que as maiorias tenham controle sobre seu governo e que possam usufruir condignamente das riquezas nacionais que os donos do capital vêm concentrando cada vez mais. Senão me respondam: É direito surrupiar US $520 bilhões para paraísos fiscais? É justo sonegar mais de R$ 500 bilhões no ano de 2015? É democrático passar leis que exponham as riquezas e recursos nacionais à ganância estrangeira? Como se explica passar uma lei que permita às empresas "comprar" os candidatos a cargos eletivos, tirando-lhes a lealdade aos interesses do povo?
FHC et caterva, com seu liberalismo oligarquizante, é quem pode nos dizer se a Direita se resigna a deixar o sucesso de suas práticas concentradoras de riqueza e poder às incertezas da mão invisível do mercado ou se - com o perdão da imagem mais forte - o buraco não é bem mais embaixo?
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