Estados Unidos: sem avanço no Oriente Médio

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2015 não proporcionaria início alvissareiro para o governo de Barack Obama porque os republicanos desfrutavam de vantagem numérica na câmara e no senado. Uma das questões em que a divergência entre as duas agremiações era mais significativa referia-se à imigração.

 

A visão dos democratas vinculava-se ao ingresso no país à pessoa com laços familiares, ao passo que a dos republicanos conectava-se com o indivíduo. Este é um ponto fundamental para todos os aspirantes à presidência da república em 2016, haja vista a entrada legal por ano em torno de um milhão de imigrantes.

 

Enquanto isso, a Casa Branca deparou-se com um fato inesperado em sua política externa, originado de um filme considerado polêmico já antes do lançamento comercial. A Entrevista tratava da visita de dois norte-americanos – um jornalista e um produtor – à Coréia do Norte, com a finalidade de gravar um programa com o ditador local – uma citação direta a Kim Jong-Un, o jovem intitulado líder supremo da conturbada nação. Na realidade, a CIA havia-os encarregado da missão de assassinar o governante.

 

De tom bastante satírico, mas pouco sofisticado no teor, a película seria sem muitas dificuldades esquecida pelo público em um verão ou dois. Todavia, em função de ataques cibernéticos ao estúdio responsável pelo filme antes do fim de 2014, ele despertou de modo inusitado a curiosidade em todo o mundo. De acordo com o governo norte-americano, através do FBI, sua contraparte norte-coreana teria sido o responsável pelas investidas digitais, o que acirrou a tensão entre os dois países.

 

Indo além, o tópico de maior preocupação de Washington é ainda o embate contra o terror, notadamente o de extração integrista do Oriente Médio. Uma das principais promessas de campanha de Obama foi o de encerrar o funcionamento do presídio da base naval de Guantánamo, local em que se encarceraram de forma contínua centenas de pessoas capturadas não somente nas duas guerras naquele rincão.

 

Lá, trancafiavam-se os encarados como os mais perigosos, sem lhes assegurar a aplicação do conteúdo das convenções de Viena. Muitos passaram anos sem acusação oficial. Ao final de 2014, ao redor de 650 cativos haviam sido liberados, porém restavam ao menos 120. Em algumas das bárbaras execuções do denominado Estado Islâmico, os prisioneiros vestiam uniforme laranja, possível alusão aos presos da ilha caribenha.

 

A interrupção de Guantánamo como cárcere singular ligava-se à saída dos efetivos estadunidenses do Afeganistão e do Iraque. Devido ao incremento da movimentação dos integrantes do Estado Islâmico na região, os Estados Unidos estabeleceram uma alteração no cronograma de retirada de suas tropas.

 

Em solo afegão, por exemplo, permaneciam cerca de dez mil, orientados para treinar os contingentes locais – forças armadas e polícia. Seu retorno à casa deveria ocorrer até o primeiro semestre do ano, mas seria modificado a contragosto para 2016.

 

Promissor para Washington seria o entendimento com Teerã acerca do propósito de um programa nuclear com o registro de milhares de unidades de centrifugação. Aos olhos dos Estados Unidos, a meta do Irã seria a fabricação de artefatos militares, a partir da capacidade de enriquecer o urânio até determinado patamar.

 

Afastada esta visão, facultar-se-ia ao governo iraniano a suspensão das sanções econômicas. Por outro lado, possibilitar-se-ia à administração estadunidense entabular negociações em torno de dois assuntos relevantes: a participação velada do regime xiita no Iraque e principalmente na Síria, agastada com uma guerra civil cujo prolongamento já não depende de Damasco, mas de Washington, Teerã e nos dias atuais de Moscou também.

 

Finaliza-se 2015 sem que a Casa Branca tenha avançado no tópico da perambulação externa iraniana, uma vez que há o interesse dos demais governantes médio-orientais em participar dos eventuais debates.

 

O último assunto liga-se à detenção de cidadãos estadunidenses em território persa, alguns dos quais por longo tempo. A cautela dos dirigentes democratas justificava-se a fim de que não houvesse negociações cruzadas até por influência da opinião pública: concessão nuclear em troca da soltura dos cativos.

 

Em suma, os ganhos obtidos pela política externa de Barack Obama não viriam da área onde o país tem robusto apego, em decorrência da fartura de fontes de energia, mas da América Latina, por causa da progressiva derrocada de regimes populistas.

 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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