Apagou-se

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O Museu da Língua Portuguesa tentava resplandecer cercado por um Brasil que ninguém quer ver.
Zumbis caminham com os olhos esbugalhados. Verdadeiros farrapos humanos de lá para cá por aquelas tristes ruas.


Não vieram do espaço. Não existiram sempre. Não brotaram do asfalto. São filhos da exclusão e do desamparo.


Do desterro. Uma falha do sistema. O rejeito do capitalismo precarizado desta megalópole que em algumas esquinas se parece com a Suíça e noutras com o Haiti.

Gente que não segurou a onda. Não aguentou a barra. Se exige demais por aqui. Alguns querem trancá-los num manicômio. Esconder debaixo do tapete. Interditá-los, diriam. Outros tentam incluir. Resgatar. Salvar. Dar uma Nova Luz.


O Museu seria um marco da Nova Luz. A verdade é que não rolou a Nova Luz. Não pegou...

 

Mesmo com os espetáculos na Praça Júlio Prestes, quem poderia "salvar" a Luz chega de armadura, num carro blindado e sai correndo de lá, para jantar no Itaim. Fogem rapidamente.

Desistiram da Nova Luz. Demoliram meia dúzia de prédios. Até a Rodoviária antiga.

Mas para os especuladores imobiliários o esquemão não rolou. Muito triste o incêndio no Museu. O povão gostava muito de lá.


Há quem diga que o povo brasileiro não gosta de cultura. Mentira. Ele não alcança a cultura.
Quando há diversão e arte para qualquer parte. Quando há acesso. Quando a arte e o conhecimento se fazem comunicar com a vida cotidiana da nossa gente, o povo procura, visita, consome e experimenta.

Ao outro lado da rua, tem a Pinacoteca. Vive lotada. O povo visita. Fica na fila, mesmo embaixo de chuva.

A Nova Luz poderia mesmo ser um complexo cultural. Longe dos bairros onde o higienismo social quer ver os forasteiros bem longe. Onde o PSIU impera e a velhocracia paulistana se manifesta contra qualquer espécie de vida, lazer, desfrute, felicidade e amor.

São Paulo é uma megalópole. Precisa de poetas, bêbados, boêmios, músicos, baile funk, protesto, bicicleta e gente beijando de língua no meio da rua. Os incomodados que se fodam com seu ressentimento.

Mas só dá dinheiro fazer condomínio. A Nova Luz arde em chamas para a alegria de muitos. O incêndio "salvou" a Luz de não se tornar uma nova Praça Roosevelt.

Há quem prefira mais zumbis perambulando do que gente confabulando, pensando, ocupando, criticando, convergindo.

"Fique aí, pouco importa, eu quero saber o que você estava pensando. Eu avalio o preço me baseando no nível mental que você anda por aí usando", já dizia o Raul, em Metrô Linha 473.

A Nova Luz não passou de um mal entendido. Arde em chamas e vai continuar sendo a Boca do Lixo.


Para a alegria de muitos.

 

Rafael Castilho é sociólogo.

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