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Pixadores: “o Brasil não aceita pobre revolucionário” Imprimir E-mail
Escrito por Raphael Sanz e Caroline Yamasaki, da Redação   
Qui, 10 de Dezembro de 2015
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Rua Augusta, entre alamedas Itu e Jaú. CineSesc, 39a Mostra Internacional de Cinema. Documentário com todas as entradas esgotadas, sessão extra. Pixadores é um documentário de produção plurinacional – Finlândia, Dinamarca e Suécia, com a direção de um iraniano.

 

Pixadores é um documentário legítimo e soube fugir da romantização que se tornou o senso comum das últimas produções documentais. Também é inovador, por oferecer uma câmera que muitas vezes parece estar alocada no pino do jet ou nos olhos do alpinista. O enredo de 93 minutos acompanha a rotina de quatro homens da periferia que praticam surfe nos trens da CPTM, alpinismo no centro e decoram muros pela cidade de São Paulo.

 

“O Brasil não aceita pobre revolucionário”, foi umas das frases possíveis de serem lidas no topo de um arranha-céu desde o Vale do Anhangabaú. Djan Ivson representa a classe e explica que “a recusa da sociedade está na essência do pixo”. Em outras palavras, o pixo imprime nos muros da metrópole a presença de grande parte de jovens invisibilizados pelo sistema e que persistem no seu acesso e existência.

 

“Quem não é visto não é lembrado, fazemos isso para nossa passagem não ser em branco”, diz Djan durante o filme, para explicar o porquê de os pixadores arriscarem suas vidas escalando dezenas de andares no meio da madrugada, sofrendo perigos da lei da gravidade, tanto quanto das leis do homem. Perigos estes que já não se mostram, para eles, ameaças tão graves diante de tantos apuros superados ao longo da vida. Além de Djan, também são retratados William, Biscoito e Ricardo.

 

Em certo ponto, Djan narra que a pixação é um instrumento de revolução, uma forma de afrontar o sistema. Talvez tenha razão, talvez seja exagero, mas a pixação levou esses quatro caras invisíveis e odiados pela sociedade a exporem na Bienal de Berlim de 2012. Em 2008, eles estavam entre os pixadores que fizeram uma ação durante a Bienal de São Paulo (A Bienal do Vazio) e causaram alvoroço. A ousadia aliada à visibilidade chamou a atenção dos curadores da Bienal de Berlim, que por sua vez os convidaram para participar da mostra.

 

O documentário acompanha a vida dos rapazes no momento em que recebem o convite para a Bienal. Conseguem agilizar a ida e entre um almoço com a família e uma cerveja em comemoração a uma participação publicitária – a qual também foram convidados – recebem mais uma intimação: dessa vez não é por crime ambiental (categoria de crime da qual frequentemente são acusados), mas pelas suas façanhas no exterior.

 

A Helsinki-Filmi veio para o Brasil em busca de praticantes de surfe de trem, pois tinham uma ficção cujo enredo se baseava nessa temática. Assim chegaram aos pixadores, que não tinham interesse em participar de uma ficção. “Acho que foi um desafio tanto para a Helsinki que fez o filme, quanto para nós. Eles nunca tinham feito um documentário e vieram aqui inicialmente para fazer uma ficção baseada na vida dos surfistas de trem, daí conheceram a gente e se apaixonaram pela nossa história. Não teve negociação com a gente para fazer uma ficção. Eu falei que não, que se quisessem iriam filmar as nossas vidas”, contou Djan Ivson, já na rua após a exibição do documentário.

 

“Então acabou que a gente cedeu um pouco também, tivemos que colaborar com eles e fazer uns voice-overs e algumas coisas nesse sentido. O filme é um documentário, mas com a linguagem de cinema. Eu acho que esse filme foi uma grande inovação no cinema mundial, porque é um documentário filmado como cinema e quem está assistindo se confunde, pensa que nós somos bons atores atuando, mas não”, afirma.

 

Realmente é possível fazer tal confusão em alguns momentos. “Ali é a nossa vida de verdade. O que dá aquele glamour é a narração depois que fomos a um estúdio e demos depoimentos, só com a voz, e daí eles fazem toda aquela transação. Tem as cenas mais cinematográficas, como aquela da gente correndo sem camisa em cima dos prédios. A gente sabia que era necessário esse tipo coisa para a questão plástica do filme, para ser um filme bonito. Então, a gente também contribuiu nesse sentido”, conclui Djan Ivson.

 

Após uma ambientação ao mundo e às ideias dos pixadores, veio a história central. Eles embarcaram para Berlim. Os representantes brasileiros da Bienal Internacional da capital alemã chegaram a uma velha igreja abandonada, que era o espaço designado para a pixação acontecer. Espaço onde são colocados tapumes ao redor da parede tombada, que ficavam reservados para os artistas fazerem suas intervenções.

 

Acontece que o espaço já era designado para isso e a pixação não é nada sem a “recusa da sociedade”. Ela é vazia sem a transgressão e por isso não renuncia aos seus princípios. Pixar em um espaço “destinado para pixação” é pixar o vazio. Além disso, esses tapumes eram abertos a intervenções em geral e já estavam tomados por assinaturas diversas, as quais os pixadores não tinham a intenção de “atropelar”.

 

Aí havia um dilema moral. Por um lado eles não pixariam o espaço seguro e destinado para isso e, por outro, a recusa significava uma afronta para a organização da Bienal que os convidou para pixar. O clima ficou tenso, mas eles deram um jeito.

 

Não sabemos por quanto tempo a produção acompanhou a vida dos pixadores, mas ao registrar o convite para a Bienal, a ida, a expectativa e as consequências do vandalismo (“pixação não é produto”), as fez parecerem ações roteirizadas. A apropriação da indústria cultural sobre as manifestações públicas de fato acontece, o que o filme deixa de fora são as consequências.

 

Os pixadores foram intimados judicialmente a arcar com as despesas de restauração do espaço vandalizado em Berlim e a devolver o incentivo viabilizado pelo Ministério da Cultura para o programa de intercâmbio cultural, com juros e variação cambial. Isso tudo por meio de ação movida pela mesma Bienal que os convidou a pixar dentro da igreja.

 

É possível que o caráter surreal dessa ação reproduza preconceitos e desigualdades? A arrogância e fúria dos organizadores realmente não aceita “pobre revolucionário”, assim como vemos no Brasil? Valeria a pena impor uma dívida perpétua a quatro homens por um mal entendido, ou quem sabe, por pura falta de pesquisa e entendimento?

 

O final da história que não é contado no filme

 

Do lado de fora da sala de cinema, Djan Ivson contou ao Correio da Cidadania o que aconteceu depois de pronto o filme. “Deu um rolo diplomático danado. Foi o seguinte: nós fomos por meio do Ministério da Cultura, que nos deu todo o suporte para irmos lá como os únicos representantes do Brasil na Bienal de Berlim, um evento de relevância internacional. Depois de toda a confusão, o departamento de patrimônio histórico da Alemanha foi lá, restaurou a Igreja e apresentou a conta para o Instituto KW, que foi quem organizou a Bienal. O Instituto KW tentou passar a bola para o MinC, nos acusando de vandalismo. O MinC, por sua vez, nos cobrou e contou o que estava acontecendo. Fizemos a nossa defesa e nela anexamos todas as conversas, onde os curadores exigiam essa demonstração prática e assim deixamos provado que nós fomos lá e nos encaixamos no esquema curatorial. Ou seja, fizemos o que estava proposto”, explicou.

 

Em outras palavras, se você pedir a demonstração prática de uma manifestação que inclui transgressão, você está exigindo também esse segundo item. Não adianta reclamar. E não mesmo, já são de conhecimento público os valores da pixação, retratados em vários textos, vídeos, muros e documentários.

 

E concluiu: “a gente ganhou esse B.O. (disputa judicial) e a conta voltou para eles, fazendo com que o Instituto KW pagasse. Imagina se tivéssemos que pagar, seriam 17 mil euros para o restauro da igreja e ainda teríamos que devolver o dinheiro do edital (das passagens) com juros e tudo o mais. Estaríamos ‘encrencados’ (o termo usado foi outro). Iam ser mais de 50 mil reais. Iríamos ficar devendo para o governo, com o nome sujo, pra sempre”.

 

 

Ficha técnica:


Data de lançamento: 21/11/2014

Direção: Amir Scandari

Duração: 1h33

Música composta por Michel Wenzer

Produzido por Helsinki-Filmi

Trailer do Filme: https://www.youtube.com/watch?v=8m-dDNkq0jg


Raphael Sanz é jornalista.

Caroline Yamasaki é produtora cultural e pesquisa pixação.

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Última atualização em Quarta, 23 de Dezembro de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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