Dupla advertência

 

 

 

Os acontecimentos desses últimos dias nos trazem sérias advertências, cujo alcance não podemos ignorar.

 

O rompimento da barragem em Mariana e os novos atentados em Paris nos fazem intuir que existem coisas profundamente erradas, cuja dinâmica é preciso prevenir em tempo, se não queremos colher suas amargas consequências.

 

É bom recordar que a primeira grande privatização realizada no Brasil sob o signo do neoliberalismo foi a da companhia estatal Vale do Rio Doce. Não faltaram advertências, feitas com insistência. A CNBB sustentou uma dura batalha, tentando evitar essa privatização, ou ao menos cercá-la de garantias claras e eficazes, que assegurassem o cuidado com o meio ambiente e a destinação pública da exploração do subsolo brasileiro.

 

De nada adiantaram essas advertências. A Vale foi vendida por três bilhões e meio de dólares, e um ano depois a Vale já valia cem bilhões. Como se explica esta brutal diferença de cotação?

 

Mas, sobretudo, as advertências manifestavam legítimas preocupações ecológicas e sociais. O subsolo brasileiro deve continuar sendo, sempre, inalienável e sua exploração precisa levar em conta a preservação da natureza e a destinação social dos seus recursos.

 

Sobretudo, a quem quer se habilitar para explorar nossos recursos naturais, se deve exigir o rigoroso cumprimento dos parâmetros, estabelecidos pelo poder público, para não acontecer o que sempre se constata nestas situações, em que se privatizam os lucros e se socializam os prejuízos.

 

O episódio de Mariana deve servir de alerta para conferirmos em tempo se as outras privatizações estão cercadas das adequadas garantias que assegurem a preservação do nosso subsolo e sua adequada destinação social.

 

Por outro lado, o triste episódio dos atentados em Paris nos oferece um vasto campo de reflexão, com sua enorme complexidade, que não permite fazer julgamentos apressados, mas logo aponte para constatações evidentes, que não podemos ignorar.

 

Desde logo, precisamos colocar com toda a clareza que a vida é o dom supremo e sob nenhum pretexto ela pode ser instrumentalizada para intentos de ordem política ou de qualquer outra.

 

Mas é forçoso, também, reconhecer que a situação atual se mostra herdeira de uma enorme carga de violências, praticadas em diversos lugares e em vista da exploração de recursos naturais, às custas das populações locais, que se viram envolvidas, sem querer, em situações de guerra, e agora pagam o alto custo em vida humanas, seja sacrificadas em sua própria pátria, ou buscando refúgio em outros países.

 

Mas não é só isto. A situação atual coloca em evidência um fato novo, que precisa agora ser bem administrado. No mundo atual, não é mais viável a existência de ilhas de prosperidade ao lado de continentes de pobreza. Não se tolera mais que pequenas minorias vivam na abundância, enquanto contingentes enormes de populações tentam sobreviver com as migalhas que caem da mesa dos ricos.

 

Não há mais lugar para desigualdades gritantes, que escancaram injustiças, que as populações pobres já não aceitam mais.

 

Só é viável hoje uma paz que seja para todos, uma justiça que garanta os direitos fundamentais das pessoas, e uma economia que esteja ordenada em vista do bem comum. Aí mora o atual drama da humanidade: estamos todos tão próximos da violência, e tão longe da justiça, da paz e da fraternidade.

 

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D. Demetrio é bispo de Jales-SP.

 

 

 

 

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