Os bastidores da lama política em Minas Gerais

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Um mês antes da Licença de Operação da Barragem de Santarém se desvalidar, uma festa de gala, no edifício Alta Vila, uma das mais caras casas de eventos de Belo Horizonte, premiou boa parte da elite mineira. Naquela noite, em 23 de abril de 2013, comemorava-se o casamento entre o empresário José Guilherme Ramos e Fernanda Coura, filha do presidente do sindicato das mineradoras, José Fernando Coura.

 

A correnteza de rejeitos tóxicos, lama e minério que destruiu a comunidade de Bento Rodrigues, em Minas, matou dezenas de pessoas, desabrigou centenas e irá mudar a vida ambiental da mais importante bacia hidrográfica da região Sudeste, não surgiu naquela noite: sua concepção ao mundo é melhor entendida quando as figuras que brindavam e bebiam no Alta Vila são identificadas.

 

Mas, antes da análise da comemoração, um avanço no tempo é necessário. Em fevereiro de 2015, tomam posse os 77 parlamentares da nova legislatura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Entre novatos e macacos velhos da política, os corredores da Casa mineira recebem, também, o então lobista José Guilherme Ramos. Com rara habilidade política, Ramos visita, gabinete a gabinete, cada deputado que fora agraciado com doações de campanha das mineradoras. Sua passagem não é apenas para congratular a vitória de aliados. Ali, naquele momento, ele pesquisava, sondava e negociava cada nome que integraria a Comissão de Minas e Energia da Assembleia mineira.

 

O colegiado, desde que o mundo é mundo, sempre foi o refúgio e o ombro amigo das empresas mineradoras que passam por Minas Gerais. Cada nome estrategicamente colocado lá pelo setor atua pelos interesses deste mercado. O esforço não é à toa, é nessa comissão que se analisam todos os projetos, requerimentos e pedidos que envolvem a área da mineração.

 

Nesta legislatura, que teve forte influência de José Guilherme Ramos, quase todos os deputados escolhidos para compor a comissão foram financiados por empresas do setor. Os parlamentares Bosco (PT do B), João Vítor Xavier (PSDB) e Gustavo Corrêa (DEM), por exemplo, receberam, juntos, R$ 440 mil de mineradoras. Já o presidente do colegiado, o deputado Gil Pereira (PP), ganhou, sozinho, R$ 180 mil.

 

Dias depois da visita a negócios na ALMG, José Guilherme Ramos foi nomeado, pelo governador Fernando Pimentel (PT), como novo subsecretário de Política Mineral do Estado. Voltemos a 2013.

 

Entre os quase 1.000 convidados no casamento de José Guilherme Ramos, destacam-se a presença do então ministro da Indústria, Fernando Pimentel, do ex-governador Alberto Pinto Coelho (PP), do então presidente da ALMG, Dinis Pinheiro (PP), do então secretário de Meio Ambiente, Adriano Magalhães, do presidente da Vale, dona da Samarco junto à BHP Billiton, Murilo Ferreira, dos deputados Gil Pereira (PP), Durval Ângelo (PT), Bosco, Gustavo Valadares (DEM), Gustavo Corrêa (PSDB), Marcos Montes (DEM), Virgílio Guimarães (PT), Adelmo Leão (PT), Luiz Fernando Faria (PP) – que foi presidente da Comissão de Minas e Energia da Câmara Federal -, Jairo Lessa (PSD), Ivair Nogueira (PMDB), Dilzon Melo (PTB) e Tiago Ulisses (PMDB). Gabriel Guimarães (PT), que, na última segunda (9 de novembro), abriu requerimento na Câmara para que a tragédia fosse investigada por uma Comissão Especial, também apareceu no evento.

 

O então secretário de governo de Antonio Anastasia, Danilo de Castro, também comparece, assim como o presidente da Fiemg, Olavo Machado, o atual secretário de Meio Ambiente, Sávio Souza Cruz (PMDB), os jornalistas Paulo César Oliveira, Carlos Lindenberg, do jornal Hoje em Dia, Carlos Viana, da Rádio Itatiaia e o diretor geral da Band Minas, José Dualibi. O diretor da empresa Rima Industrial Ricardo Vicintin, e seu cunhado, o então deputado Bernardo Santana (PR), hoje secretário de Estado de Defesa Social, também marcam presença. Diretores e lobistas ligados à Samarco também prestigiam a festa de Ramos.

 

Coincidentemente, todos os políticos presentes receberam, nas duas últimas eleições, contribuições do setor de mineração. Coincidentemente, todos atuam e sempre atuaram por benefícios às mineradoras. Só o governador Fernando Pimentel teve a campanha irrigada com quase R$ 2 milhões doados pela Vale, proprietária da Samarco. O secretário de Meio Ambiente, Sávio Souza Cruz, também recebeu R$ 200 mil de mineradoras durante sua campanha. Desde então, a atuação de ambos tem privilegiado o mercado e ignorado avaliações feitas por especialistas e ambientalistas.

 

Três semanas antes da tragédia em Mariana, o governador enviou à Assembleia, em regime de urgência, um projeto de lei que acelera os processos de licenciamento ambiental, beneficiando as empresas de mineração. Além disso, a secretaria de Estado de Meio Ambiente passaria a ter a prerrogativa de assumir o encaminhamento sobre licenciamento ambiental, inclusive estabelecendo prazos para projetos considerados prioritários ao governo. Ou seja, uma carta na manga para os aliados do setor.

 

Com esse lamaçal político é mais fácil entender o porquê de a imprensa e o poder público estarem tomando as dores da Samarco (Vale e BHP Billinton), e não daqueles que supostamente deveriam defender, isto é, a população mineira e brasileira.

 

Leia também:

Tragédia da mineradora em MG: a promiscuidade entre poderes político e econômico no Brasil


O autor do texto é um jornalista que trabalha em uma das tradicionalmente censuradas redações da mídia brasileira e não quis se identificar.

Publicado orginalmente no Diário Liberdade.

 

 

Comentários   

0 #1 Cadê a ética na política mineira?Juca Ramos 25-11-2015 01:26
Artigo muito oportuno e informativo. Além do mais, nos mostra como o cartão de crédito da confiança de que o PT gozava junto ao público está basicamente expirado. Abandonar o interesse publico em favor de interesses corporativos é indigno de um partido que se auto denomina dos trabalhadores. O artigo tbm nos deixa claro que o antigo modelo de representação política sem acompanhamento cívico, isto é, por parte do cidadão, está superado. Ao invés, precisamos de partidos com expressiva base popular e ativa participação cívica, senão terminamos manipulados e/ou mal-servidos.
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