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Discurso de Francisco: unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça Imprimir E-mail
Escrito por Frei Marcos Sassatelli   
Segunda, 09 de Novembro de 2015
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Neste quinto artigo sobre o 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, destaco o quarto ponto marcante do discurso do Papa Francisco: “unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça” (que é a segunda grande tarefa proposta por Francisco aos movimentos populares).

 

O Papa Francisco começa dizendo que “os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados”.

 

E ainda: “nenhum poder efetivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque ‘a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do ser humano, mas também no respeito pelos direitos dos povos, sobretudo o direito à independência’” (cita o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja” do Pontifício Conselho ‘Justiça e Paz’, 157).

 

Francisco lembra: “os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições, procurando conquistar uma independência plena”.

 

E constata: “nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a ‘Pátria Grande’”.

 

O Papa faz, pois, um pedido aos movimentos populares: “peço-vos, irmãos e irmãs, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça”.

 

Francisco reconhece que “apesar destes avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e limitam a soberania dos países da ‘Pátria Grande’ e doutras latitudes do planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados ‘de livre comércio’ e a imposição de medidas de ‘austeridade’ que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres”.

 

O Papa lembra ainda: “Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no Documento de Aparecida (66), quando afirmam que ‘as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações’”.

 

Como um verdadeiro profeta, Francisco denuncia: “noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo - graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada - vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores”.

 

E continua: “da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social, que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural, é outra das formas que adota o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em ‘peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante’” (cita a Exortação Apostólica pós-sinodal “Ecclesia in África” de São João Paulo II, 52).

 

O Papa conclui dizendo: “temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos em nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode atuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros”.

 

Sempre com muito realismo, Francisco afirma: “o colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... Precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter”.

 

Quanta clareza e quanta sabedoria nas palavras de Papa! Meditemos! Diante dessa realidade desumana e antievangélica, Francisco convida-nos a tomar uma posição clara, sem meios termos e sem ambiguidades: “Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz”.

 

Por último, o Papa diz: “aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: ‘quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas ações da Igreja’. Com pesar, vos digo: cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja ‘se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão pelos pecados passados e presentes dos seus filhos’” (cita a Bula “Incarnationis mysterium” de São João Paulo II, 11).

 

E afirma: “digo-vos que quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América. Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a Boa Nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz; que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio”.

 

Francisco declara que “a Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”.

 

Irmãos e irmãs, reparem a radicalidade evangélica dessas palavras: “a nossa fé é revolucionária”, “a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”! Como cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs, o Papa nos provoca, nos faz refletir e nos impele a tomar atitudes firmes.

 

Com muita dor no coração, Francisco reconhece que “hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar”. Mais uma vez, irmãos e irmãs, reparem as palavras: “terceira guerra mundial em parcelas”. Não dá para sermos indiferentes diante dessa realidade!

 

O Papa termina essa parte de seu discurso expressando sua solidariedade de irmão aos povos indígenas: “aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A procura desta interculturalidade, que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados, enriquece-nos e fortalece-nos a todos”.

 

Quanta sensibilidade, quanta ternura e quanta sintonia com os desafios do mundo de hoje nas palavras e nas atitudes do nosso irmão Francisco! E nós cristãos e cristãs - em nossas Pastorais Sociais e Ambientais - temos essa mesma sensibilidade, essa mesma ternura e essa mesma sintonia? Pensemos!

 

 

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Frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP), é professor aposentado de Filosofia da UFG.

 

E-mail: mpsassatelli(0)uol.com.br

 

 

 

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