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‘Apesar da crise econômica, fechamento de escolas é oportunismo de Alckmin’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Terça, 03 de Novembro de 2015
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Não bastasse a crise econômica que desemprega e (re)pauperiza o grosso da sociedade brasileira, vemos a noção “menos escolas, mais prisões” se tornar uma política pública oficial do Estado brasileiro, ora simbolizada nos governos do PSDB em São Paulo. Segundo a professora Cibele Lima, entrevistada do Correio da Cidadania, estamos diante de apenas mais um capítulo de uma saga que já vem há mais de 20 anos precarizando a rede de ensino público estadual. Com a diferença de que agora os estudantes dizem não em alto e bom som.

 

“Pegou-se o refluxo do movimento dos professores, tradicionalmente organizado, logo após mais de 90 dias de uma desgastante greve que não obteve nenhuma vitória. É um momento de fragilidade, portanto, com final de semestre, ENEM, um cansaço geral... Mas o movimento dos estudantes pegou todos de surpresa, desde os movimentos da educação como também o próprio governo. Esse é o ponto mais importante”, afirmou.

 

Nesse sentido, Cibele explica como se desenvolveu o movimento de auto-organização dos estudantes, as particularidades e espontaneidade de sua revolta e as falaciosas explicações de um governo que jamais teve compromisso com a qualidade do ensino público – e muito menos se abriu a escutar o que tinham a dizer os próprios atores afetados por tais políticas. Por fim, ainda avisa que parte das alegações oficiais já se comprovam mentirosas e causam dano na vida de estudantes, pais, mães e professores.

 

“Acredito que se trata de um fósforo na pólvora de toda a indignação do estudante de periferia, em relação a uma série de problemas estruturais de sua vida. Não só a escola é problemática, que ele já sabe ser ruim, mas há outras coisas, como cultura, direito à cidade... Teremos professores demitidos; outros que dão aula no Fundamental e Médio terão de realocar sua jornada por várias escolas diferentes; irmãos mais novos, cujas mães não têm quem os levar, também não são levados em conta...”, enumerou Cibele. Em suma: um descalabro neoliberal pra ficar na memória.

 

A entrevista completa, gravada nos estúdios da webrádio Central3, pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, como surgiu o projeto de “reorganização” escolar, que visa separar as unidades de ensino de acordo com a etapa de formação dos estudantes?

 

Cibele Lima: Ao longo de vários anos de governos tucanos em São Paulo, ocorreram várias e profundas mudanças na educação estadual. Em 1995, o governo fez uma primeira reorganização, que era deslocar o Ensino Fundamental 1 (primeiro grau) para umas escolas e o Fundamental 2 (ensino médio) para outras. Mudaram a categorização de professores, criaram, por exemplo, a “categoria O”, que faz o contratado ter de passar por uma “duzentena” depois de um ano letivo e ter menos direitos que outros professores, entre outros pontos.

 

Os concursos ficaram cada vez mais raros, de modo que o déficit de professores é grande. Nos últimos 15 anos, também se viu um processo muito grande de “escolas de passagem”, quando dezenas de escolas na região central foram fechadas. No começo do ano, mais de 3000 salas foram fechadas, períodos noturnos e o EJA (Educação para Jovens e Adultos) também vêm há anos sendo cortados...

 

Já a reorganização agora proposta, vem no bojo político do ajuste econômico, com bilhões de reais cortados da educação neste início do ano pelo governo federal, o que repercute nos estados. Assim, o governo paulista aproveita e propõe mudanças que vão promover maior superlotação nas escolas, enquanto outras ficarão ociosas. Segundo o governo, servirão pra desenvolver outras atividades, como escolas técnicas, creches etc.

 

Dessa forma, temos salas superlotadas, déficit de professores, regiões não atendidas, o que faz os alunos estudarem longe, e cada vez menos vagas para a noite. Uma situação bastante delicada, aproveitada pelo governo no sentido de vir, de forma muito autoritária, com o projeto de “reorganização”: deu-se prazo de 15 dias para as escolas discutirem e mandarem uma “contraproposta”, dentro de um contexto que na prática é “sim ou sim”. Vai ter reorganização e só resta às pessoas decidirem pra que lado querem ir.

 

Além disso, pegou-se o refluxo do movimento dos professores, tradicionalmente organizado, logo após mais de 90 dias de uma desgastante greve que não obteve nenhuma vitória. É um momento de fragilidade, portanto, com final de semestre, ENEM, um cansaço geral... Mas o movimento dos estudantes pegou todos de surpresa, desde os movimentos da educação como também o próprio governo. Esse é o ponto mais importante.

 

Correio da Cidadania: O que pensa dos argumentos do governo em favor da medida?

 

Cibele Lima: São acima de tudo falaciosos, porque nunca teve comprometimento de fato com a melhoria da educação no estado, de modo que não imaginamos uma mudança pra melhor naquilo que vem sendo precarizado ao longo dos anos.

 

E é muito contraditório que diga objetivar a abertura de creches, que são responsabilidade do município. Assim, entra em cena a ‘municipalização’, outra ideia forte que, ao que tudo indica, o governo tentará por em prática após a reorganização. É a ideia de que todo o Ensino Fundamental passe para as prefeituras, enquanto o estado fica com o Ensino Médio. Uma ideia antiga.

 

Os argumentos do governo não convencem porque em momento algum o secretário de Educação se dispôs a conversar e entender o que o movimento está colocando. Além das questões objetivas do estudante remanejado, ele terá de se adequar em outro espaço, outra comunidade, outros professores. E nós que trabalhamos com educação sabemos da importância do vínculo e reconhecimento do estudante em relação ao espaço no processo de aprendizado e socialização. É muito problemático, do ponto de vista do desenvolvimento humano, o aluno passar por três escolas diferentes ao longo de sua vida escolar.

 

Correio da Cidadania: Quais seriam as consequências na vida dos estudantes se tal projeto for concretizado?

 

Cibele Lima: Existem questões que não são objetivas ou numéricas e não são levadas em consideração, mas são importantes. O que o governo tem feito é também colocar os diretores regionais pra falar. Mas o secretário não vem a público. Vimos apenas uma manifestação na qual disse que os estudantes deveriam ter se manifestado contra a greve, isto é, ele tentou colocar categoria contra categoria dentro da comunidade escolar, sendo que todas elas serão afetadas pela reorganização.

 

Teremos professores demitidos; outros que dão aula no Fundamental e Médio terão de realocar sua jornada por várias escolas diferentes, com problema de deslocamento e acúmulo de carga horária; irmãos mais novos, cujas mães não têm quem os levar, também não são levados em conta...

 

Eles também dizem que a mudança será para no máximo 1,5km de sua casa. Pra quem mora na periferia e estuda à noite, já é uma boa distância. E já teve estudante avisado de que será deslocado para 3km ou 4km. Por fim, o governo faz campanha para estudantes do noturno passarem para a manhã, simplesmente sem nenhum motivo, sendo que muitos jovens não começaram a trabalhar cedo e estudar à noite por opção. Eles estão sendo privados de concluir seus estudos. E vale lembrar que o período noturno também é outra conquista da classe trabalhadora.

 

Correio da Cidadania: Como se organizou a reação dos estudantes, em especial secundaristas?

 

Cibele Lima: Assim que as escolas foram avisadas, logo repassaram a notícia. Muitas escolas convocaram reuniões de mães e pais, conversaram com os alunos e os próprios professores foram repassando informações. Em alguns lugares, eles ajudaram na organização dos alunos, que na verdade tiveram uma revolta espontânea após o anúncio.

 

Em algumas escolas os professores ajudaram e em outras eles se organizam sozinhos. Já as direções, são orientadas a taparem a organização dos estudantes. Numa escola do Grajaú, por exemplo, a diretora proibiu os alunos de fazerem uma reunião em suas dependências.

 

Apesar disso, acredito que se trata de um fósforo na pólvora de toda a indignação do estudante de periferia, em relação a uma série de problemas estruturais de sua vida. Não só a escola é problemática, que ele já sabe ser ruim, mas há outras coisas, como cultura, direito à cidade... Existe um barril de pólvora de indignação contra o sistema e o Estado e essa foi a senha para explodir. Foi o estopim e pegou todo mundo de surpresa.

 

Além de secundaristas, há menores também. Vimos crianças de 12, 13, 14 anos nos protestos, e eles têm uma forma diferente da que estamos acostumados a ver, toda uma empolgação. Eles andam muito, têm agitação e músicas próprias, e também se protegem muito. Vemos grupos de alunos da mesma escola com 10, 15 adolescentes que andam de mãos dadas e ninguém se solta, além de tentarem sempre atuar sob um grande consenso.

 

É muito educativo para nós também. Aprendemos muito com a forma espontânea e ao mesmo tempo muito convicta com que eles protestam.

 

Correio da Cidadania: O que você pode nos contar das passeatas em protesto contra as medidas, organizadas por vocês, que passaram por locais como Avenida Paulista e Palácio dos Bandeirantes?

 

Cibele Lima: Um grupo de estudantes convocou a manifestação da Paulista, mas não imaginávamos que reuniria 2 mil estudantes. Eles que elaboraram o trajeto a ser feito. Depois, a Secretaria de Educação propôs que os estudantes subissem pra conversar com alguém, que não seria o secretário. Mas eles mostraram bastante maturidade e se negaram a subir. Queriam que o secretário descesse, pois achavam que o governo tentaria enrolar os estudantes.

 

Eles fizeram uma assembleia pra organizar as manifestações e vemos um crescente de tensionamento: estudantes cada vez mais indignados na rua, e com muita organização. Não tivemos nenhuma repressão no mesmo nível das manifestações contra o aumento das passagens. Isso porque a polícia, ao mesmo tempo em que se mostra pronta pra agir, não esperava tantos estudantes andando pelo centro de são Paulo. Ela tensiona pra reprimir, mas são menores e seria muito ruim para o governo ver cair na imprensa que se reprime estudantes de 14 anos.

 

Assim, vimos passeatas relativamente tranquilas, apesar de princípios de repressão. A polícia já apreendeu menores, sem muito motivo, por passarem gritando “fora PM” etc. mas um grupo de estudantes foi pra cima gritando “ou solta todos ou prende todos”. E conseguiram soltar os estudantes retidos.

 

Correio da Cidadania: Quais são os próximos passos e estratégias do movimento dos estudantes pela manutenção das escolas?

 

Cibele Lima: Vamos ter muitos atos, espalhados em vários locais, várias escolas. Tivemos atos locais nas diretorias de ensino no final de outubro e uma audiência pública na Assembleia Legislativa organizada pelo deputado Giannazzi. E vamos acompanhando dentro do possível o que vier a acontecer.

 

Correio da Cidadania: Vocês atrelam essa chamada reorganização escolar à crise econômica do país e todo esse ano marcado por cortes nos orçamentos sociais?

 

Cibele Lima: Já sentimos na prática todos os cortes de investimento no setor público. Vemos greves no país inteiro... Eu trabalho na rede municipal de ensino e vemos a falta de verba concreta no dia a dia. As universidades federais fizeram greve no país todos e a situação vai repercutindo em todas as instâncias da educação.

 

O ajuste é um conjunto de fatores. Mas existe um oportunismo no Alckmin. São Paulo é o estado mais rico do país e da América do Sul, e tal projeto se implementa aos poucos. E ele aproveita pra colocar a reorganização escolar no bojo do ajuste. Aí fala que não tem verba e fecha escola. Mas não é só por conta do atual momento que o governo do PSDB faz isso agora.

 

Áudio da entrevista

 

 

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Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania e colaborador da webrádio Central3.

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Última atualização em Terça, 24 de Novembro de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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