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Obama: fala muito, faz pouco Imprimir E-mail
Escrito por Atílio Boron   
Quarta, 21 de Outubro de 2015
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Uma das perguntas que é possível formular sob o ponto de vista de Cuba é: por que o criminoso bloqueio aplicado contra a ilha há mais de meio século – de longe um recorde mundial absoluto por sua radicalidade, enfurecimento e duração – ainda se mantém sem mudanças, mesmo com as belas palavras e os amáveis gestos de Barack Obama, John Kerry e outros altos funcionários do regime norte-americano?

 

Digo “regime” porque em ciência política assim se qualifica a qualquer governo que viola os usos e costumes da comunidade internacional, sua legalidade e as resoluções das Nações Unidas. Casos notáveis de “regimes” são os governos dos Estados Unidos, da Grã Bretanha e de Israel, para os quais todo o anterior carece de importância, se burlam das disposições e recomendações das Nações Unidas e atuam fazendo da prepotência e da impunidade o cartão de visita da gestão governamental.

 

No caso que nos ocupa há dez meses, quando do histórico anúncio conjunto do presidente norte-americano e seu par cubano, nada mudou. Como dizem alguns amigos da ilha, de forma em que a ironia e o bom humor se mostram tão afiados como o melhor dos punhais, a canção da moda cantada hoje em Washington quando se fala de Cuba diz em um de seus versos “killing me softly”, ou seja, “matando-me docemente”.

 

O objetivo do império é o mesmo de antes: precipitar a derrubada da revolução e promover, mediante iniciativas inocentes apenas na aparência, a conquista da tão desejada “mudança de regime”. Agora com doçura, antes, com os predecessores de Obama, apelando para a sabotagem, invasão e os atentados.

 

Mas o objetivo estratégico não mudou. Para os distraídos, recordo que quando em Washington se fala de “mudança de regime”, se trata de fomentar uma guerra civil, perpetrar inomináveis atrocidades e, se possível, apoderar-se destes indesejados países e suas riquezas. Os exemplos mais recentes são Líbia, Iraque e Afeganistão, e o que hoje está se tentando fazer na Síria. Por suposto, as cubanas e os cubanos sabem muito bem disto, porque se há um povo que conhece os Estados Unidos e sua classe dominante, esse povo é o cubano.

 

Por isso não estão surpreendidos com a continuidade do bloqueio e as enormes dificuldades que lhes ocasiona no cotidiano. Obama eliminou Cuba da lista de países apoiadores do terrorismo, lugar ao qual havia sido confinada por um dos presidentes mais ignorantes e brutais da história dos Estados Unidos, o semianalfabeto Ronald Reagan.

 

Mas ainda não se podem operar cartões de crédito, direta ou indiretamente, que tenham relação com algum banco ou empresa norte-americana; o acesso à internet segue sendo uma dor de cabeça para as empresas, funcionários, acadêmicos e para o povo cubano em geral, vitimas de uma das formas mais sutis de asfixia de uma sociedade no mundo atual.

 

A recente visita da secretária de Comércio dos Estados Unidos não permite apreciar nenhuma mudança concreta no curto prazo. Como temos dito em numerosas oportunidades, redundariam em benefício da vida dos cubanos, cuja condição um documento do governo norte-americano (Estratégia de Segurança Nacional 2015) assegura querer melhorar.

 

Nesse texto se estabelece a necessidade de que os cubanos “decidam livremente” sobre seu futuro. É ao menos paradoxal que, ao poder decidir em liberdade, Washington considere como a melhor ajuda estabelecer toda sorte de obstáculos para acessar a internet, dificultar as relações econômicas entre os dois países, manter restrições a viagens ou limites aos objetos que os residentes nos Estados Unidos possam adquirir na ilha e toda uma interminável lista de limitações que, mais que encaminhadas a fomentar o florescimento da liberdade em Cuba, como assegura o citado documento, foram concebidas para castigar uma população, provocar seu mal estar e criar um clima de opinião sedicioso e destruidor.

 

Obama deveria recordar, ademais, que o bloqueio é uma flagrante violação dos direitos humanos e da legalidade internacional, e faria uma importante contribuição para a humanidade caso começasse a desmontar esta infernal maquinaria de dor e de morte.

 

 

Leia também:


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Atílio Boron é sociólogo argentino.

Traduzido por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Terça, 27 de Outubro de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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