Crise e Universidade

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Chega-se ao final de 2015 com a perspectiva de que a crise política e econômica do Brasil lamentavelmente perdurará. O ambiente nada animador se estendeu ao longo do ano à educação superior, com greves de duração de meses em algumas universidades de todo o território nacional.

 

Mesmo assim, não houve por parte do governo federal indicação substantiva de dialogar de maneira diferenciada com os servidores da área – professores e técnicos - em função da especificidade das atividades desenvolvidas, ou seja, de modo simultâneo ensino, pesquisa e extensão.

 

Baques de diferentes dimensões na história contemporânea são recorrentes. Uma delas chegou a durar quase um quarto de século, a de 1873. A de outubro de 1929 ainda ecoa por causa do desmedido impacto nas sociedades em quase todo o mundo – desemprego maciço, alto número de sem-teto, incontáveis falências, diminuição da produção industrial e agrícola etc. Isto tudo ocasionaria a queda abrupta do produto interno bruto global.

 

Naquela fase, as novas favelas nos Estados Unidos, onde se aglutinavam até veteranos da I Guerra Mundial, eram chamadas de Hoovervilles, em alusão à inépcia administrativa do presidente Herbert Hoover.

 

Nos primórdios da crise, ele acreditava que os efeitos adversos do baque durariam poucos meses e não caberia, portanto, ao governo a filantropia imediata, restrita a igrejas e organizações humanitárias como a Cruz Vermelha ou o Exército da Salvação. Um banco poderia ser ajudado com empréstimos federais, um bancário, não.

 

Esquecia-se ele da sua experiência de êxito como o responsável geral pelo auxílio humanitário à Bélgica durante a I Guerra Mundial proporcionado pelos Estados Unidos, quando da ocupação daquele pequeno reino pela Alemanha. Jamais vislumbrou que a situação originada a partir de 1929 em seu próprio país era tão grave quanto a dos anos de conflito na Europa.

 

O impacto foi tão forte e rápido no planeta que houve mudança de governos como no caso do  Brasil, onde ocorreu um golpe de Estado em outubro de 1930, ou até de regimes como na Espanha e Alemanha.

 

Reações a ela também têm sido distintas. Em 1932, ao ser eleito, o democrata Franklin Roosevelt rodeou-se de intelectuais, alguns dos quais professores universitários de carreira, para assessorá-lo no enfrentamento das adversidades com formulações novas, apesar de não ter sido um político progressista até assumir a Casa Branca.

 

O conjunto de medidas executado pelo antecessor Hoover havia-se amparado no ideário tradicional, em que a ‘mão invisível’ do mercado teria mais importância que a do governo.

 

Mesmo com a ausência de bons resultados advindos da aplicação de medidas ortodoxas, o dirigente republicano não ousou em ir adiante, em busca de caminhos diferentes para combater a inaudita gravidade da situação naquele período.

 

O grupo escolhido por Roosevelt tornou-se conhecido como Brain Trust e muito contribuiu com suas análises alternativas para amenizar os intensos efeitos da crise. Depois disso, tornar-se-ia comum aos titulares da Casa Branca indicar especialistas de diversos segmentos para analisar questões singulares – Juscelino Kubitschek, em certa medida, se inspiraria na experiência norte-americana de compor grupos especiais para viabilizar a implementação de Brasília.

 

Ainda que em escala menor àquela dos Estados Unidos dos anos 30, o Brasil passa por um momento muito turbulento. As prescrições adotadas até o presente ponto não reduziram o problema por que atravessa o país. Por que não valer-se de professores das universidades federais, bastante qualificados, para a busca de soluções em uma época de agitações econômicas?

 

15 de outubro foi o dia do professor, momento singular para que a elite política e econômica do país possa mais uma vez refletir sobre a especial importância deste profissional no desenvolvimento do Brasil.

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

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