Polarização e crítica em ‘Que horas ela volta?’ de Anna Muylaert

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O novo filme de Anna Muylaert, Que horas ela volta?, valeu muitos elogios à atuação de Regina Casé e levantou certa discussão sobre a permanência do preconceito social contra as empregadas domésticas na sociedade brasileira. O filme seria uma severa crítica ao nosso status quo de injustiça social, apontando a incapacidade da sociedade brasileira de tratar abertamente a questão de classe criticada pelo filme.

 

Aliás, essa é a tônica das declarações da própria diretora, que considera ter exposto, no filme, “um jogo sem culpados, mas que é da nossa sociedade”, um jogo em que há afeto e violência em alto grau (Muylaert escreveu o roteiro e dirigiu). Pode aqui estar se referindo à vulgarização da ideia de cordialidade brasileira, inventada por Sergio Buarque de Hollanda em seu Raízes do Brasil (1936), e ultimamente transformada em superficial chavão em diversos círculos intelectuais – ou quase.

 

Mas chavão, já dizia Itamar Assumpção, abre porta grande e esse chavão parece mesmo ter aberto uma porta que fechou todas as outras: abundam interpretações do filme que teimam nessa visão. Por exemplo, Cristiane Brasileiro afirma que o filme “é um drama social que expõe tensões de classe potencialmente explosivas, mas que vinham sendo mascaradas pelo nosso velho jogo da cordialidade” (http://migre.me/rMVEI); ou, então, Rosane Pavam aproveita o chavão antes de comentar o próprio filme, já enquadrando-o: “este é o Brasil, mas não é novo. Apenas aquele país da cordialidade com o qual cansamos de lidar” (http://migre.me/rMVLa). Outros exemplos poderiam ser citados, qualquer rápida busca na Internet pode confirmar. Deixo essa tarefa ao leitor e proponho uma pergunta: será que o filme é mesmo tão crítico quanto dizem que ele é?

 

O filme pode até ser visto com emoção por quem tenha passado por situação parecida, ou revelar a má-fé de quem vive hipocritamente um cotidiano como aquele. Mas consegue sustentar a crítica com seus próprios meios narrativos?

 

O filme é evidentemente dualista. E o principal dualismo, o eixo em torno do qual tudo o mais gira, opõe, de um lado, a empregada Val (Regina Casé), despachada, inculta, trabalhadora e, de outro, a patroa Bárbara (Karine Teles), rica, fútil, dondoca. Dois polos opostos, estereótipos reforçados para a construção de outro dualismo: os ricos, com uma vida confortável, certamente, mas vazia e deprimente, em oposição aos pobres, sem conforto, sem dinheiro, mas de alma nobre.

 

A tentativa de quebrar o dualismo é também uma maneira de reforçá-lo: a patroa é incapaz de uma relação afetiva sincera com o filho, Fabinho (Michel Joelsas), pois está sempre fora, trabalhando. A afetividade do garoto vai para a empregada, que também se afastou da própria filha, Jéssica (Camila Márdila, em grande atuação), para trabalhar – dois trabalhos diferentes, duas mães em situações parecidas.

 

Há quem veja nisso ecos de Gilberto Freyre, de Machado de Assis... Mas esse comum às duas personagens evidencia contradições que as opõem? Existe mediação narrativa? Há um dualismo evitado que vale a pena mencionar: o filme evita a polarização entre a patroa branca e a empregada negra, como bem notado por Stephanie Ribeiro (http://migre.me/rMVZO).

 

Regina Casé não só não é negra como também é perfeita para o exagero no estilo de interpretação caricatural, de nordestina genérica da Globo, que a tornou famosa. O quanto merece elogios pela atuação, cada espectador que o diga.

 

Mas forçar a barra no estereótipo não é justamente torná-lo visível para quem não o quer ver? Talvez. Desde o início, a montagem do filme revela a que veio: televisiva, na qual tudo passa pela palavra, procedimento desnecessário no cinema que empobrece o filme, mas valoriza o produto; poucas externas, muitas internas, enquadramento mais fechado, pouco distanciamento – uma intenção de proximidade, de fazer ver “o que acontece dentro da nossa própria casa”. Mas funciona? Está a realização à altura do que pretende?

 

A reiteração, o reforço dos estereótipos, acaba funcionando como uma simplificação, com o intuito de explicitar um não-lugar, um não-dito. Por exemplo, a frustrada relação entre Bárbara e Fabinho – o que ali as palavras dizem que as imagens não conseguem exprimir? Nada. E, no entanto, Bárbara fala, e fala demais, aliás, como também todas as outras personagens principais, inclusive a mais calada delas, José Carlos (Lourenço Mutarelli) – se bem, justiça seja feita, nesse caso para remarcar o patético de sua situação. Há uma exceção a esse excesso de palavras: a sequência que revela a frustração de José Carlos na competição com Fabinho.

 

Ao ver os adolescentes na piscina fumando maconha e se divertindo, o pai toma consciência de sua própria decrepitude – frustra-se, agrava sua depressão, a ponto de pedir desculpas à empregada, numa sequência ulterior. Infelizmente, o filme não explora o quanto poderia esses temas, nem para a personagem do pai, muito menos para a trama, dando a impressão de que se não há fala, também não há imagem.

 

O elemento perturbador, no filme, é a filha da empregada. Mas esse elemento perturbador não termina por reafirmar a ordem? A tensão sexual causada pela filha da empregada é o catalisador dos problemas: é a inveja ou o ciúme da patroa o motivo da “perseguição” sofrida por Jéssica e Val. O mais importante não é o conflito de classes, mas uma projeção da insatisfação sexual da patroa. Em que medida as coisas se misturam? A patroa usa da própria posição para se impor e assegurar seu lugar primordial relativamente ao macho. Em momento algum ela questiona o marido – a família burguesa, claro, em primeiro lugar – preferindo deixar clara à filha da empregada sua antipatia. O elemento perturbador, assim, torna mais forte o lugar de classe da família tradicional burguesa (e, agora, a oficial família brasileira, pela lei). Isso não seria uma crítica? Vejamos algumas ironias.

 

A filha da empregada quer estudar arquitetura na USP. É advertida da dificuldade, mas acaba passando no vestibular com larga vantagem. O filho da dondoca, ao contrário, fracassa por dois pontos. No fim, ganha uma viagem à Austrália. Quanta ironia! Agora, os filhos da “nova classe média” estudam na USP, tradicional lugar de formação dazelites de São Paulo, olhem como as coisas mudaram! E os filhinhos dazelites, vão estudar onde? Fora do Brasil, como sempre. Não pelas mesmas razões: aqui não é mais possível, este país vai se tornar uma gayzona venezuelista ditadural feminazificada! Mas o filme foi lançado em hora de alta do dólar – seria a viagem de Fabinho mantida com o dólar a esse preço?

 

No fim, Val se liberta da patroa, pede demissão, num ato repentino de autonomia: “é coisa minha, é meu, é coisa minha”, repete, antes de explicitar novamente pela palavra: “quero passar mais tempo com minha filha. Pede demissão e vai cuidar da própria vida – do neto, já que da própria filha não cuidou. No fim, a ascensão da “classe C” vem junto com o reconhecimento do papel materno – a única e primeira vez em que Val é chamada de mãe pela própria filha é no fim, mais uma palavra a explicitar o que estava guardado.

 

É inevitável a sensação de final feliz: agora, cada qual em seu lugar natural, sem interferir na vida alheia, seguindo seus destinos. Que satisfação a de Val, poder seguir seu destino! Mas, agora, sem emprego? Gastando com aluguel, até com passagem aérea para o netinho? Depois de tanto conflito e falta de diálogo entre mãe e filha, viverem doravante ali, e felizes ainda, numa legalmente estabelecida não-família? Seja como for, agora Val tem o seu lugar.

 

Nesse sentido, deve-se levar muito a sério a declaração da fundadora e presidenta de honra do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Estado de São Paulo, Margareth Carbinato, que não gostou do filme: cada um tem que saber o seu lugar (http://migre.me/rMX49). E Val, no fim, acaba conquistando seu lugar por meio de uma surpreendente tomada de consciência de si: decidiu ser finalmente a mãe (a avó) que a vida não lhe deixou ser. Sua satisfação é evidente.

 

Não estamos aqui diante de uma síntese falsamente reconciliadora? Val se reconcilia sobretudo consigo mesma – mas a separação social permanece. A classe C conseguiu, com o próprio esforço, conquistar seu lugar na favela, ter a casinha (de aluguel, mas é a vida...) para guardar a televisão, o bom ventilador, o espremedor de laranja, garantiu à filha o quartinho onde poderá estudar em paz sem incomodar a ninguém lá no Morumbi (quer dizer, até começarem as aulas na USP, por sinal, cada vez mais em crise, quanto mais inevitável se torna sua abertura à classe C, D, E).

 

Diferentemente do jogo de xícaras, no qual as brancas não fazem par com os pires brancos, mas com os pretos, no fim do filme os diferentes não se juntam: Val vai para a favela, Bárbara fica no Morumbi; Jéssica vai para a USP, Fabinho para a Austrália; José Carlos afunda-se sozinho no travesseiro e na depressão; a família legal burguesa separa-se, a não-família pobre une-se, ascende a uma dimensão antes inacessível, mas não partilha do mesmo lugar social. Eis a falácia do empoderamento pelo consumo – estamos diante de uma crítica ou de uma pseudocrítica?

 

Depois de quase duas horas de mais uma novela tecnicamente bem produzida, é inevitável aquela sensação de nostalgia por Dias Gomes. Sem falar em Nelson Rodrigues. Ou Pasolini. Mas aí vão dizer que já é exagero...

 

Cordiais Saudações!

 

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia na PUCSP e não prefere dualismos.


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Comentários   

0 #2 RE: Polarização e crítica em ‘Que horas ela volta?’ de Anna MuylaertC.Terra 15-10-2015 21:24
As tomadas fechadas mostram por frestas o que as tipologias das casas de "classe média para cima"(herdadas da casa grande) apresentaram até hoje: a segregação espacial de quem serve e de quem é servido. Isto está mudando com "espaços gourmet" que são para a classe média esquecer que não há mais cozinheiras. (Os quartos de empregada já há muito foram transforma-dos em escritório/sala de computador) Ao mostrar a planta, a frente e o fundo, o em cima e o embaixo, as externas que não deixam ver o todo (mesmo na marginal, no Copan e na Fau) a diretora tenta mostrar mais as pessoas que os lugares e assim por tabela também mostra os lugares. A fotografia em contrastes, planos sem profundidade, silhuetas e contra luz também quer apresentar os personagens sem as grifes, tenta mostrar mais o gesto. Esses aspectos visuais foram acertados. Achei forçada e desnecessária a parte do assédio do patrão (mais interessante se ele se colocasse como um mentor artístico da garota e o filho dele sentisse ciúmes por isso), da história inventada do rato, do filho deixado em Pernambuco. Poderia ter sido ainda mais seco, menos caricato. O final, de apenas uma remota possibilidade de ser feliz por que mesmo entrando na fau o futuro na profissão de alguém "sem grife" é muito, muito incerto. Muitos abismos não se transpõe com graduação.
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0 #1 Jéssica, tou na piscina!Valdete Lima 15-10-2015 00:42
Uma das melhores partes - das muitas - do filme, é quando Regina Casé diz pra filha que está na piscina. Território proibidíssimo às empregadas. Ana Muylaert jogou[fv]Jéssica, tou na piscina[/fv] todas as fichas do preconceito nesta cena. Quanto ao fato de ela ter ficado sem emprego e pagar aluguel, o professor esquece que ela trabalhou esse tempo todo sem gastar dinheiro, ou seja a poupança vai garanti-la um bom tempo. O filme é excelente. Se erros houve, o expectador perdoou.
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