Mudanças climáticas e o Brasil

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Diante da monotemática recorrência às crises econômica e política a que nos vimos sendo condicionados neste ano de 2015, convém visitar temas que podem nos trazer alguma luz nessa densa bruma de incertezas da conjuntura.

 

 

O ano de 2015 pode nos trazer no seu final algumas referências importantes, em termos de valores, para orientar a humanidade a uma caminhada distinta daquela que perseguimos há quase três séculos, desde a primeira Revolução Industrial, qual seja, a de erigir a natureza como recurso subordinado à utilidade econômica privada, tudo mais levado à condição de sem valor (mercantil).

 

 

Há no calendário político de 2015 uma Conferência Mundial (Paris, em dezembro) sobre a questão das mudanças climáticas, associadas diretamente ao aquecimento global; previamente diagnosticada em termos das causas provocativas e principalmente as providências necessárias, que de certa forma possam mitigar, porque reverter parece não ser o verbo de emprego adequado, às muitas manifestações recentes (dos últimos 50 anos) de fenômenos climáticos catastróficos em linha crescente.

 

 

Entre tais fenômenos, todos associados ao aquecimento planetário, destacam-se: derretimento de calotas polares, intensificação de maremotos, secas e inundações, muito mais frequentes em comparações históricas, elevação do nível dos mares, segundo diagnósticos de uma muito forte corrente de cientistas do clima envolvidos no IPCC (painel científico da ONU sobre o clima).

 

 

O diagnóstico do IPCC é muito claro sobre as causas humanas das mudanças climáticas, que nada parecem com fenômenos fortuitos da natureza, mas, sim, reação desta à maneira ecologicamente irresponsável da utilização exclusiva do ambiente cósmico sobre a presunção da utilidade privada ilimitada.

 

 

Para mitigar os efeitos da acumulação dos gases do efeito estufa na atmosfera, designada como causa humana mais provável do aquecimento global, o diagnóstico do IPCC é taxativo no sentido de reverter (aqui, sim, cabe o verbo) a utilização planetária dos três principais vilões do processo de emissão de dióxido de carbono – consumo do carvão, do petróleo e do gás natural, sem embargo de outros processos igualmente poluentes, a exemplo das queimadas, da emissão de gás metano etc.

 

 

O Brasil está no centro desta Conferência por várias razões, além do seu tamanho continental. Moldou recentemente (anos 2000) sua economia exportadora à superexploração das chamadas vantagens comparativas naturais de terras aráveis, águas, minas e campos petroleiros, suscetíveis de gerar produtos finais (‘commodities’) a baixos custos monetários, mas a elevadíssimos custos sociais e ambientais.

 

 

Esses custos a Conferência do Clima consegue mensurar em uma única escala – a da emissão dos gases do efeito estufa. Mas em um sentido mais amplo – da economia ecológica -, o estrago (denominado de ‘pegada ecológica’) é muito maior. Afeta negativamente a disponibilidade de água, a biodiversidade e obviamente o próprio clima planetário.

 

 

Como o Brasil oficial se definirá em Paris é algo que precisa ser discutido desde já, até para que reflita o interesse público permanente.

 

 

Infelizmente, o tema está semiinterditado, pela fragilidade do Brasil oficial por um lado, mesmo depois de uma Encíclica papal sobre o assunto (‘Laudato Si’), e ainda pela óbvia influência imediatista dos setores primário- exportadores.

 

 

Mas vale a pena trazê-lo ao centro das nossas atenções, porque ao que tudo indica é uma questão inescapável, dependendo ou não das ações imediatas da Conferência de Paris.

 

 

Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

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