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É gado humano? Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
Sexta, 09 de Outubro de 2015
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Em seu périplo por Cuba e EUA, o papa Francisco lembrou que José e Maria não foram acolhidos em Belém. Ela, grávida, se viu obrigada a dar à luz a Jesus em um pasto. Perseguidos por Herodes, migraram para o Egito.

 

O mundo inteiro se emocionou com a foto do menino sírio, Aylan Kurdy, de 3 anos, estendido em uma praia da Turquia como se dormisse. Isso fez a opinião pública acordar: como tratamos os nossos semelhantes que, ameaçados pela violência e a miséria, buscam refúgio? Como gado rumo ao matadouro?

 

O Alto Comissariado da ONU para Refugiados calcula que, em 2014, 59,5 milhões de pessoas tiveram que abandonar seus lares e sua pátria.

 

De que foge essa gente? Da Al-Qaeda? Do Estado Islâmico? Aparentemente, sim. De fato, fogem do entulho gerado pelo capitalismo. Seus países foram, durante décadas, saqueados por empresas petrolíferas, mineradoras, construtoras, todas ocidentais, que utilizaram a população como mão de obra barata e descartável, graças a governos corruptos e ditatoriais.

 

Bashar al-Assad, que sucedeu a seu pai, governa a Síria com mão de ferro desde 2000, e sempre mereceu o tapete vermelho estendido pelos presidentes que ocuparam a Casa Branca.

 

Até que a Primavera Árabe chegou àquele país e as potências ocidentais decidiram armar os jovens rebeldes, como fizeram nas derrubadas dos governantes do Egito, da Líbia e da Tunísia. As armas foram parar nas mãos dos terroristas.

 

Na África, o colonialismo europeu e o neocolonialismo dos EUA deixaram um rastro de miséria e corrupção. Governantes cruéis eram recebidos nos palácios presidenciais do Ocidente por consumirem grande quantidade de armas produzidas na Europa e nos EUA, e facilitarem a exploração de petróleo e diamantes por empresas multinacionais.

 

Enquanto as potências ocidentais usaram e abusaram desses países, não se falou em democracia e direitos humanos. O que faz lembrar a famosa frase do presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, quando alertado que Somoza, da Nicarágua, era um ditador sanguinário: “Sei que Somoza é um filho da puta. Mas é o nosso filho da puta”.

 

Repetiu-se na África e no Oriente Médio o que ocorreu no Afeganistão. Para expulsar dali os russos, na década de 1980, os EUA enviaram um agente da CIA, de origem muçulmana, chamado Osama Bin Laden. O resto da história todos conhecem.

 

O governo brasileiro, embora adote uma política migratória descoordenada entre os ministérios das Relações Exteriores, do Trabalho e da Justiça, já concedeu vistos humanitários a 7.752 refugiados sírios. E nosso país já acolheu 28 mil haitianos.

 

A ausência, nos estados, de Secretarias de Imigração dificulta a obtenção de documentos e postos de trabalho. Isso é agravado pela vigência do Estatuto do Estrangeiro, sancionado pela ditadura, em 1980, e que encara o imigrante como potencial ameaça à segurança nacional.

 

Em 2000, o Mercosul criou o Acordo de Residência, que permite aos imigrantes dois anos de permanência no Brasil, prazo renovável. Quem não entra no país como refugiado, como é o caso dos haitianos, recebe visto humanitário, que garante permanência por cinco anos.

 

Leia também:


Moradia: necessidade urgente dos imigrantes e refugiados em São Paulo


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Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

Website: http://www.freibetto.org

Twitter: @freibetto.

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