Migrantes e ecologia

 

 

Na semana que passou, a Pastoral dos Migrantes realizou sua assembléia nacional. Integrando o vasto leque das “pastorais sociais” da CNBB, ela atua sobretudo junto ao numeroso contingente de migrantes sazonais, e junto aos núcleos de bolivianos, peruanos e paraguaios,  que se concentram especialmente na grande São Paulo, e em regiões próximas às fronteiras.

 

Pela vastidão do seu território, o Brasil abriga dentro de si próprio o fenômeno migratório, na forma de trabalhadores que buscam emprego no corte da cana em São Paulo, ou na colheita de café no sul de Minas.

 

Eles procedem dos estados nordestinos, mas também do norte de Minas. Em sua grande maioria são homens, que deixam sua região, e permanecem a maior parte do ano distantes de suas famílias.

 

Um dos trabalhos que a Pastoral dos Migrantes realiza com eles, além de acompanhá-los nos problemas que enfrentam, é manter o contato com a região de origem, facilitando a comunicação com suas famílias.  Isto ajuda a humanizar a situação que vivem, incentivando-os a conservarem as motivações, que os levaram a buscar longe da própria casa a oportunidade para garantirem com seu trabalho o sustento de suas famílias.

 

No ambiente urbano, com os migrantes latinos, uma das atividades da Pastoral dos Migrantes, além de ajudar na regularização dos documentos, é preservar sua cultura, e propiciar encontros de integração entre os migrantes e a população local.  É uma presença muito válida, que não só ameniza os problemas cotidianos, mas ajuda os migrantes a assumirem seus direitos e a se afirmarem como cidadãos integrados no novo contexto humano onde passam a viver.

 

Mas o fenômeno migratório hoje em dia é muito mais vasto e complexo. Ele assume caráter dramático em diversas partes do mundo, sobretudo nas linhas de fronteira que separam o Norte rico do Sul pobre. Isto já é sobejamente conhecido.

 

As migrações sempre suscitaram grandes transformações, e os migrantes acabam se tornando protagonistas de mudanças.

 

Acontece que a situação atual aponta para outra dimensão do fenômeno migratório. Só os migrantes serão capazes de deter a dinâmica suicida do processo econômico em andamento, que está levando à depredação da natureza e comprometendo o equilíbrio ambiental do planeta.

 

Com sua dramática situação, denunciam a contradição de um processo de desenvolvimento excludente e predatório, que não só é injusto, mas suicida em sua dinâmica, que ele mesmo é incapaz de deter.

 

Na verdade, o atual modelo de desenvolvimento tem uma dinâmica interna irrefreável. Precisa ser sustado de fora. Deixado a si próprio, se torna irreversível. Basta conferir algumas situações. A China, por exemplo, não vai querer deter o seu crescimento, e acelera sua voracidade de matérias primas. Os bancos não vão querer diminuir seus lucros. A indústria quer se expandir.  O Brasil só pensa em crescer, a Índia também. Isto é, todos estão a fim de acelerar o processo, não de detê-lo. 

 

Em meio a isto, os migrantes, com sua presença teimosa, com sua insistência organizada, com sua irrefutável postulação, deixam clara a necessidade de repensar todo o processo, porque ele perdeu racionalidade. Além de perverso, tornou-se destruidor de sua sobrevivência, porque compromete a vida do planeta.

 

Parece se comprovar o ditado que ironicamente era atribuído ao liberalismo: “Fiat quaestus, et pereat mundus!”, “haja lucro, e pereça o mundo!”.  Havia a suposição tranqüila de que o mundo nunca iria perecer, e o lucro poderia aumentar ao infinito. Agora, aumentam os temores de que o mundo pode, de fato, perecer pelo colapso do sistema vital de nosso planeta, provocado pelo desvario do sistema econômico.

 

Os migrantes podem se tornar os protagonistas da inversão de rumo. Eles podem trazer de volta o respeito à natureza e a convivência sóbria e solidária entre todos. Para que nosso planeta continue casa de vida e habitação digna para todos.

 

 

D. Demétrio Valentini é bispo de Jales

Web Site: www.diocesedejales.org.br

 

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