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A tragicomédia das funestas eleições da Guatemala Imprimir E-mail
Escrito por Ilka Oliva Corado   
Quarta, 23 de Setembro de 2015
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É triste ver como a classe média urbana novamente se burla do dito povo raso; na Guatemala vive-se uma tragicomédia diária da dupla moral. Em primeira instância, agencia-se o nome de “povo” nas recentes manifestações contra a corrupção para chamar a atenção e não mostrar o quão descolorida está. Ela sabe perfeitamente que o termo “povo” denota honra, e quis então aparentar tê-la para pavonear-se entre cartazes e trapos, bandeiras pátrias, gritos e rebuliço.

 

Essa classe média urbana que discrimina os que não são letrados, nem possuem carro, nem finos cosméticos e tampouco conhecem suas regras de etiqueta; essa mesma é que saiu a manifestar para manter-se bronzeada, economizando o dinheiro da viagem à praia (porque também sofre) e de passagem produziu para si uma quantidade de fotografias a fim de manter a presunção nas redes sociais e com isto aparentar consequência. Sempre aparentar.

 

Há anos-luz de distância entre os “classe medianos” e os camponeses, operários e proletários. Há anos-luz em humanidade, em ousadia e, nessa consequência, capacidade de encarar o que quer que venha. Enquanto uns aparentam, outros são. Enquanto uns correm a se esconder, outros põem o peito. Enquanto uns recuam, outros põem o corpo.

 

Não, para a consequência humana não é preciso ter diplomas de universidades, nem vestir roupas de marca, muito menos fazer ativismo plástico nas redes sociais para ganhar adeptos. Um grande aprendizado nos deixaram essas manifestações contra a corrupção: jamais o dito povo raso deve apoiar-se na classe média porque esta, cedo ou tarde, o esfaqueará pelas costas.

 

Choravam, cantavam, celebravam, aclamavam um despertar pátrio, se jogavam no chão chacoalhando como que em transe, e jactavam-se por serem a geração da mudança, pois os poderosos haviam se metido com a geração errada, que eles protagonizariam a primavera guatemalteca, que isto e aquilo, e aquilo outro. Tiveram a ousadia de desqualificar as manifestações e os bloqueios que faziam os camponeses, taxando-os de incultos, arruaceiros, caipiras incivilizados que os faziam perder (por tremendas prisões) a atenção internacional que haviam ganhado os urbanos. Os camponeses foram duramente reprimidos pela polícia e a classe média não foi digna de indignar-se.

 

De pronto, o inimaginável foi ver as universidades unidas por aí, as privadas carregando cartazes de mártires da pátria. Só os utilizaram para aparentar uma causa e não declarar-se abertamente estudantes de porcelana. Pudemos ver de “intelectuais” (ponho entre aspas porque os intelectuais de verdade nunca dizem que são intelectuais e muito menos exibem gratuitamente seu intelecto, o outro caso é oportunismo barato) a poetas, músicos a esportistas: saíram os poodles e os carros a manifestar, bem perfumados isso sim, para não transpirar os gases da incongruência.

 

Criaram convergências, coletivos, organizações estudantis, deram conferências, alguns acreditaram que andavam ditando cátedras e até citavam Jacobo Árbenz, mas não falavam da Reforma Agrária porque isso inclui o “povo raso”, os pés de chinelo. No estrangeiro, os oportunistas que se veem como dirigentes políticos, defensores de migrantes, guatemaltecos ilustrados e pescoçudos se deram a tarefa de inventar duas ou três frases e soltar comunicados na imprensa internacional com o afã de aparecer. Apoiaram-se nas últimas instâncias da desgraça do povo raso.

 

Deram entrevistas e passaram a ser heróis nacionais, se autoproclamavam heróis nacionais, com todas as reverências do oportunismo. As fotos nas quais apareceram nas páginas dos jornais impressos agora decoram suas paredes, como mostra, segundo os próprios, de que fizeram história. Sair a manifestar é uma obrigação cidadã e não tem nada de extraordinário. E lá estão os camponeses, os vendedores ambulantes, os catadores de lixo, os pedreiros, que não ficam se gabando disto, muito menos se dão o luxo de comprar um bronzeador. As coisas como elas são.

 

Depois daquela tragicomédia que durou meses, a cada sábado de manifestações estes urbanos fizeram o cidadão rural crer que transformariam o país, que agora sim haveria uma Guatemala nova, que agora sim viria o despertar definitivo. E mais uma vez o povo raso encorpou, como o faz há séculos, sempre fiel, humano e consequente, e se uniu às manifestações mesmo que isso representasse, para eles, ficar uma semana sem comer, já que o que gastaram em passagens certamente foi tirado de suas necessidades básicas. O sujeito de classe media é incapaz de perceber esse enorme esforço, sempre arrogante, sempre senhor.

 

Essa classe média hipócrita que reluz nas páginas dos jornais do mundo é a que hoje sai para votar. A esfaquear pelas costas aqueles que, sim, lutaram e sonham com que a Guatemala mude um dia para melhor. Esses que hoje estão sozinhos, aos que a turma bem nascida desconhece por fieis, por consequentes, por terem identidade e memória histórica.

 

Saíram a votar estes estudantes “coxinhas”, que se dizem do “povo”, esses intelectuais de escritório, pedantes. Essas massas amorfas que vão para onde as empurrem.

 

Que o mundo saiba que aqueles que entregaram o país novamente em mãos de traidores não foram os camponeses nem os operários, mas a classe média que mesmo com seus diplomas universitários não consegue manter sequer um glóbulo vermelho no sangue, nem a dignidade. Que o mundo saiba que o povo raso se organizou, lutou e se manteve fiel até o último momento.

 

Que o mundo saiba que foi a pretensiosa classe média a que pôs nas urnas a Guatemala de tanta gente trabalhadora, honesta e pacífica. Que o mundo saiba que as prisões foram, são e serão sempre contra os camponeses, os operários e a classe trabalhadora em geral. O resto é oportunismo e inconsequência da classe média.

 

No princípio de toda a farsa me perguntaram porque eu não acreditava no projeto destas manifestações e porque não as respaldava nos meus textos. Sempre deixei claro que queria equivocar-me, que queria que me demonstrassem que essa classe média tinha também seu fôlego, e novamente me equivoquei. Porque o povo, dito raso, esteve pronto para ir com tudo nesta mudança, quem arredou o pé foi a classe média, acuada.

 

Estiveram a um passo de fazer história e lutar por algo grande, que não dependeria mais de tomar sol aos sábados, nem de cartazes, nem de fotos nas redes sociais. Dependia de algo muito maior que só o povo raso tem. Dito e feito: “só o povo defende o povo”. Choram os camponeses, operários e toda a classe trabalhadora da minha Guatemala ferida.

 

Para a próxima vez, já sabemos que quem recua é a classe média emperiquitada. A Guatemala hoje sofre mais do que nunca, hoje sua ferida sangra, chora, hoje a minha Guatemala rasa se sente traída, ela foi traída.

 

Abraços desde longe àqueles que sempre foram honestos durante este processo, que confiaram, que falaram claramente, que seguem de pé e ombro com ombro até as últimas instâncias desta farsa eleitoral. Como sempre não generalizo, em todos os setores vimos gente comprometida, e são os que seguem fieis. Também nessa classe média rasteira há gente honesta, poucas, mas há.

 

A semana passada foi o velório e o enterro da que poderia ter sido uma Guatemala renascente e com esperança, graças aos que a arruinaram. Mas seguimos, aqui ninguém se rende porque só o povo defende o povo.

 

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Guatemala: renunciou um genocida, mas por corrupção

 

Ilka Oliva Corado é escritora e poetisa guatemalteca.

Texto originalmente publicado no blog da autora: http://cronicasdeunainquilina.com/

Traduzido por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania

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Última atualização em Segunda, 28 de Setembro de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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