Eleições Gerais Já!

 

 

 

 

O governo Dilma Rousseff rompeu com a população que o elegeu no próprio dia da vitória. Da promessa demagógica de administração popular, passou, sem transição, à acelerada e incessante reorientação neoliberal. Tratou-se de desesperada corrida para salvar sua presidência e o aparato petista que sonhou governar eternamente o Estado brasileiro, no gozo das imensas benesses decorrentes, legais e ilegais. A situação da presidenta, do governo e do PT era, convenhamos, dramática.

 

A conjuntura que atinge os países ditos emergentes alcança singular paroxismo no Brasil. A crise, de fundo estrutural, acelerou-se com o esgotamento do período de semiexpansão do comércio internacional e valorização das commodities – petróleo, grãos, minérios etc. Período no qual a economia brasileira conheceu radical processo de desnacionalização e desindustrialização tendenciais, sob a droga de um real supervalorizado, de juros elevados, de domínio do capital financeiro e bancário.

 

No dia seguinte às eleições, o governo Dilma Rousseff encontrou-se com as finanças e as contas públicas afundadas na desgovernança sem limites das renúncias fiscais para o capital industrial, de capitalização do capital privado por meio de juros subsidiados etc. Nesse imenso rombo, pouco peso tiveram as pequenas liberalidades demagógicas para com a população, ao contrário do que a mídia sugere.

 

O naufrágio geral deveu-se, sobretudo, à hemorragia desenfreada motivada por dívida pública alimentada, nos últimos anos, pela manutenção dos mais elevados padrões de juro do mundo. Tudo associado à expatriação vultuosa de capitais – dividendos, royalties etc. –, acrescida pela desnacionalização da indústria, dependência tecnológica etc. Os imensos gastos eleitoreiros foram a cereja do bolo.

 

Além da crise econômica real, a senhora Dilma Rousseff, sua administração e o PT deparavam-se com uma investigação judicial e exposição midiática da corrupção amazônica promovida pelo núcleo central do PT, partido da presidenta, e pelos partidos fisiológicos aliados. Assalto ao Estado transformado em processo institucional, que irrigou as campanhas eleitorais em todos os níveis e enriqueceu milhares de vorazes particulares.

 

Diante da exposição interessada, promovida pela mídia e pela oposição, do rastro de corrupção, a única defesa da administração e do PT é que todos fazem e que apenas eles foram alvos de denúncia da mídia conservadora.

 

A senhora Dilma Rousseff, sua administração e o PT sentem-se traídos pela exposição privilegiada que sofrem da mídia e da justiça burguesas. Afinal, eles embolsaram apenas a ‘remuneração’ extra dos conservadores tradicionais, ao servirem o grande capital. Não compreenderam que, ao prestarem um serviço aos donos das riquezas nacionais e internacionais, no governo, expunham-se a prestar outro também, ao serem lançados, pelo ex-patrão, na prisão e sarjeta, como exemplos da maldade e corrupção dos princípios de esquerda, populares e operários, que há muito renegaram e enxovalharam.

 

Incontinenti, o governo Dilma Rousseff constituiu um ministério de mostrengos políticos, comandados por um boy dos banqueiros, enquanto lançava o país na inflação e recessão, para cortar o valor real dos salários como exigido pelo capital nacional e internacional. A senhora Dilma Rousseff abandonou crescentemente a demagogia e afagos parciais e restritos dados tradicionalmente a sua base de sustentação, em prol do consenso do grande capital nacional e internacional.

 

O escandaloso estelionato eleitoral reviveu e engrossou os segmentos sociais ricos e médios derrotados na eleição passada, que saíram às ruas pedindo o fim do governo. A presidenta, sua administração e o PT viram-se imobilizados e acuados, sob o ataque das ruas e de um legislativo em paroxismo conservador, em grande parte pertencente à base parlamentar do governo.

 

Conhecendo a mais rápida e radical queda de apoio da história nacional, o governo Dilma Rousseff procedeu, sem pudor, nojo e dignidade, concessões infindáveis para o grande capital e os conservadores tradicionais, na oposição e na sua base de apoio. Tudo na desesperada esperança de permanecer a qualquer custo no governo até 2018, arrastando-se.

 

Ninguém pode prever se a senhora Dilma Rousseff permanecerá até o fim do mandato, a custa de tudo entregar, de tudo privatizar, de tudo cortar, de reduzir os trabalhadores e assalariados à miséria relativa e absoluta, radicalizando o descalabro que assola a sociedade brasileira. Ou se será defenestrada, quem sabe, já nos próximos meses.

 

O certo e líquido é que o presente governo, visto ainda por parte da população como administração popular e de esquerda, encontra-se, de fato, nas mãos do grande capital, que impulsiona, por meio da presidenta, como implementará sem ela, após sua derrubada, retrocesso geral e histórico das condições de existência da população trabalhadora e assalariada no país.

 

Temos que sair da sinuca de bico em que nos encontramos.

 

A proposta de mobilização pela queda de Levy é fumaça nos olhos da população. Esse cavaleiro da triste figura e língua enrolada é apenas um convidado de importância em ministério formado por walking deads conservadores de todos os sabores. Uma reforma ministerial e uma radical reorientação política do governo são propostas fantasiosas, tendo em vista a essência da atual administração. Ela já concedeu tudo e se encontra atualmente dançando no fio da navalha.

 

Não podemos, em nenhum caso, apoiar um impeachment conservador que substitua vinte por dez + dez, e receba, ainda, um trocado. Ele seria um golpe das forças de direita que violaria, ao menos no sentido, instituições que as próprias forças burguesas se deram. E significará, igualmente, importante operação política, ideológica e social contra o mundo do trabalho, pois identificará com a presidenta e sua administração, jogados ladeira abaixo, o derrubamento de ideias e programas de esquerda e de um partido que traz no seu nome “dos trabalhadores”, apesar de há décadas se ter posto ao serviço do poder.

 

Nem apoio ao governo, nem apoio à sua derrubada

 

Devemos exigir, ao contrário, que se entregue a solução nas mãos da população brasileira. Temos que sair às ruas pedindo novas eleições, para presidente, vice, senadores e deputados, já. Sem a participação de acusados por qualquer prevaricação contra os cofres públicos. Sem contribuição dos grandes capitalistas. Com o direito de candidaturas que passem ao lado dos partidos presentes.

 

 

Leia também:

 

Jogos ocultos em torno do governo Dilma – análise do colunista Guilherme Delgado

 

Fuga de capitais: riscos e ameaças – artigo do economista Fernando D’Angelo

 

Rio Grande do Sul expõe faceta estadual do ajuste econômico - entrevista com a professora Rejane Oliveira

 

‘Impeachment não é caminho, mas o governo não nos representa. É um cenário muito difícil para as lutas sociais’ – entrevista com Ana Paula Ribeiro, coordenadora do MTST

 

Nova ruralidade e velha concentração – Por Osvaldo Russo

 

Crise de que e contra quem? – por Milton Temer

 

Quem salta pelo ajuste e quem vai além da perplexidade – análise do sociólogo Luiz Fernando Novoa Garzon

 

“Encurralado, o governo vai cada vez mais para a direita” – entrevista com deputado federal Ivan Valente

 

Contribuições para uma agenda econômica alternativa – coluna de Paulo Passarinho

 

Não há como recuperar a legitimidade da política sem ruptura radical com Lula e Dilma – entrevista com o economista Reinaldo Gonçalves

 

A fórmula mágica da paz social se esgotou – Paulo Arantes, especial para o Correio da Cidadania

 

“O mais provável é o governo Dilma se arrastando nos próximos três anos e meio” – entrevista com deputado federal Chico Alencar

 

‘Ajuste fiscal vai liquidar com os mais frágeis e concentrar a renda’entrevista com Guilherme Delgado

 

 

 

Mário Maestri é historiador; Otto Filgueiras, jornalista. Com a colaboração de Florence Carboni.

Comentários   

0 #7 O COMENTARIO É BOM, MAS A CONCLUSÃO NÃOMateus Vaz de Sá 26-09-2015 09:44
UMA ELEIÇÃO ANTES DE 2018 APENAS LEGITIMARIA A TOMADO DO PODER PELA DIREITA. PENSO QUE O COMENTARIO É BOM, MAS A SOLUÇÃO TEMERÁRIA. Mateus.
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0 #6 RE: Eleições Gerais Já!Luiz Ramires 24-09-2015 14:10
PRa começar a unir a esquerda tem q romper totalmente com o pt e o lulismo, que só tem a sabotagem e a cooptação a oferecer. Nao querem mais nada com nada, só o poder pelo poder, basta ver q nas manifestaçoes deste ano só fizeram papeis lamentáveis, de sequestro de pauta ou passividade pura e simples. Unir a esquerda é acabar com o lulismo. Se nao, é mais ajuste e derrota na nossa vida, em looping eterno. Achar q o petismo passa 13 anos indo pra direita pra de repente retomar a radicalidade do passado é viver num mundo paralelo. E os fatos desse ano estão confirmando isso. Nao há nenhuma reação vigorosa por parte das bases governistas, que na sua incapacidade de convocar o povo na rua pra valer se arrasta atrás de movimentos com mais legitimidade.
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0 #5 RE: Eleições Gerais Já!Pablo Barbosa 23-09-2015 23:07
Não tolero as picuinhas entre a esquerda, se o inimigo é o mesmo porque brigar tanto entre si?
Discordo totalmente da solução apresentada no artigo mas considero muito interessante a situação exposta,por isso quero levantar alguns pontos.
Quem vai liderar essa mobilização de massas?(ou será como a de 2013, com resultados que já conhecemos...)
Como mobilizar tanta gente?
Quem vai 'selecionar' os prevaricadores e os não prevaricadores?
Quem vai bancar as campanhas e como o tempo de tv será dividido?
Defender eleições porque o povo não está pronto para uma revolução ou porque é 'desnecessário'?
E finalmente, será possível a união da esquerda em torno de uma pauta (não necessariamente uma eleição)ou prevalece a vaidade?
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0 #4 governista = pilantra conscienteLuiz Ramires 23-09-2015 19:23
Hildermes, papo reto: deixa de ser safado.
Já deu essa sujeira de comparar críticos de esquerda com a gentalha da direita. Quem faz o serviço q eles pedem é tua corja politica exatamente. e sim, certamente heveria gente na rua querendo um processo político zerado. as manifestacoes de junho deixaram isso claro, deslegitimaram todo o atual sistema político, todos os governos. isso pra qm faz leitura honesta dos fatos. pra qm só quer mais do mesmo, resta a safadeza intelectual e a sabotagem de tudo q possa surgir. por isso seus amados bandidos de "esquerda" engendram ate lei antiterrorismo e articulam engavetamento da lava jato.

Outra coisa: quer falar de gente na rua, entao pede pro teu ex-partido , tua ex-central sindical, convocar atos de rua por si só, sem subir nas costas dos outros. ve la se sai meia duzia na rua.... basta ver como foi o dia 20 de agosto fora de SP, só gato pingado acabado pra luta.

Vocês tem que sumir da nossa vida.
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0 #3 Faça-me o favorHildermes Medeiros 23-09-2015 15:17
Análise melhor, mas com o linguajar adequado ao lado ao qual o autor está aliado, só Merval Pereira, Bolsonaro, Sardenbere quejandos. Sarta fora, procura para ver se encontra alguém do povo ao teu lado. Certamente ninguém.
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0 #2 RE: Eleições Gerais Já!Pablo Barbosa 22-09-2015 23:26
O artigo chega a ser delirante, como exigir eleições para TODOS os cargos de governo? Ninguém vai se mobilizar pra isso. O povo (felizmente)já se desiludiu com eleições, e seria uma oportunidade da direita tentar impedir a candidatura de petistas, ou seja, cassar o partido, e isso não pararia por aí. A estratégia da burguesia é clara, sangrar o PT ao máximo, e com isso também atingir outros setores populares (não que eu ache que o PT represente o povo) como sindicatos e partidos de esquerda, como já vem acontecendo com a questão da cláusula de barreira e a tentativa de cassar o PCO. É claro que tem setores da direita assanhados pela possibilidade de derrubada do governo, mas aí se trata de gente desequilibrada, da qual quero distância...
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0 #1 Eleições já para quê?Albana 22-09-2015 10:47
Será mesmo que um novo processo eleitoral resolverá a crise que estamos inseridos? Acreditam mesmo nisso no atual cenario? Qual a liderança que temos para se contrapor ao que aí está? Para esse Congresso ultra-conservador, quais nomes poderiam substituí-los. Aliás a melhor prova de eleições não resolvem o problema. Ao contrário, pode mesmo agravá-lo. E olhar para o resultado do ultimo pleito eleitoral..
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