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Revisionismo na Itália distorce visão sobre os judeus Imprimir E-mail
Escrito por Mário Maestri   
Quarta, 11 de Abril de 2007
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"Páscoa de sangue: hebreus da Europa e homicídio ritual" (Ed. Molino, 25 euros) causou grande estupor na Itália. E com razão! Com mais de trezentas páginas, o erudito trabalho defende que os propostos seqüestros, torturas e crucificações rituais de crianças cristãs praticados por judeus através da Europa, em diversas épocas, que justificaram a perseguição, tortura e morte de multidões de hebreus, não seriam fruto do imaginário anti-semita, mas práticas correntes, ao menos entre uma das comunidades hebraicas européias. Livro e tese que teriam sido liquidados sumariamente como uma outra esdrúxula construção anti-semita, se o autor não fosse Ariel Toaff, historiador italiano de origem judaica, professor de História da Idade Média e do Renascimento da conservadora universidade confessional israelense de Bar-Ilan, filho de Elio Toaff, ex-grande rabino de Roma.

 

O enorme putiferio historiográfico que Páscoa de sangue causou no mundo intelectual italiano deve-se sobretudo ao caráter restrito das fontes e à inusitada démarche metodológica nos quais o autor apoiou uma proposta revisionista de tamanhas repercussões culturais, políticas e ideológicas. Nos fatos, a comprovação histórica de sacrifícios rituais sistemáticos de crianças cristãs por comunidades judaicas da Europa Medieval constituiria, se não uma justificação total, ao menos consistente apoio à compreensão, relativização e absolvição parcial do longo rosário de desapiedados atos anti-semitas, praticados, dirigidos e galvanizados pelas autoridades civis e religiosas da Europa cristã.

 

O livro de Ariel Toaff apóia-se sobretudo na releitura dos célebres sucessos de Trento, quando Simonino, filho de dois anos de um modesto curtidor cristão, após desaparecer na tarde da Sexta-Feira Santa, 23 de março de 1475, reapareceu morto e terrivelmente mutilado, no domingo seguinte, precisamente em canal que passava sob a habitação-sinagoga do rico e invejado Samuel, judeu usurário proveniente de Nuremberg, na Alemanha. O dilaceramento que tomou conta da população local foi solucionado com a pronta acusação dos judeus locais como responsáveis pelo crime, por parte do príncipe e bispo Giovanni Hinderbach, também de origem alemã.

 

As confissões de judeus, de ambos os sexos, de participação no seqüestro, crucificação e longa tortura ritual do pequenino, para produção, com seu sangue, do pão cerimonial ázimo, consumido na páscoa hebraica, obtidas sob tortura nos calabouços do imponente castelo de Buonconsiglio, resultaram na condenação à morte de quatorze réus e na expulsão sumária de toda a comunidade israelita da região, com os decorrentes confiscos e multas pecuniárias. O menino, a seguir venerado como são Simonino de Trento, tornou-se um dos patronos da cidade e sustentou o longo e duradouro culto popular de crianças cristãs sacrificados por judeus.  Apesar de a Igreja ter proibido, apenas em 1965, o culto ao beato Simonino, ainda hoje, em algumas regiões da Europa, crianças cristãs martirizadas pelos judeus são veneradas em pequenos crucifixos.

 

Sequer um documento probatório

 

Os sucessos de Trento, que contribuíram para a instalação da Inquisição na Espanha, dirigida sobretudo contra os judeus ibéricos, apenas três anos após a morte de Simonino, produziram uma volumosa documentação, na qual Ariel Toaff apoiou suas propostas revisionistas, que não se restringem ao caso italiano, pois defendem que o sacrifício ritual de crianças cristãs, pela carne e sangue, teria sido praticado nos anos 1100 e 1500, ao menos pelos judeus ashkenazis, ou seja, provenientes da Europa Central e Oriental, com destaque para a atual Alemanha. O que, diga-se de passagem, livra os judeus itálicos, ancestrais do autor, do crime de infanticídio e canibalismo rituais.

 

Ariel Toaff não apresenta sequer um novo documento probatório de sua interpretação, apoiando-se apenas em releitura da documentação conhecida, em parte segundo a lição do historiador italiano Carlo Ginzburg, que propõe desvelar verdades dos subalternizados incrustadas nos próprios documentos judiciais produzidos pelos dominadores. O autor pretendeu encontrar nos interrogatórios de Trento conhecimentos sabidos apenas pelos judeus e uma homogeneidade lingüística e factual que registrariam a veracidade das confissões obtidas a golpe de tenalhas e ferros incandescentes. A comprovação da veracidade das acusações devido à uniformidade dos depoimentos, através das diversas épocas e países, foi tese tradicional da Igreja.

 

Com razão, jornalistas e historiadores malharam Ariel Toaff sem piedade pela sua reconstrução do passado, a partir de saltos dedutivos, indutivos e lógico-arbitrários, sem comprovação documental. Se aceitassem a leitura dialógica perneta da documentação proposta pelo autor, os historiadores deveriam aceitar que o Tinhoso, em pessoa, sem ceroulas, teria se metido por entre as cobertas dos milhares de mulheres confessas de satanismo, tamanha a convergência nos depoimentos sobre a cópula diabólica! Despertou também estupor a proposta de recuperação da subjetividade histórica do hebreu medieval humilhado apresentada por Ariel Toaff em defesa de sua tese estapafúrdia. “Tentei mostrar que também o mundo hebreu da época era violento, entre outras razões porque era golpeado pela violência cristã”.

 

A historiografia possui estudos confiáveis sobre sacrifícios medievais resultados de crenças nos efeitos mágico-medicinais sobretudo do sangue humano. O conhecimento, concordância e participação, marginal ou simbólica, nesses atos, por parte da comunidade cristã da época, ajudam a compreender a rápida extensão do anátema terrível lançado aos judeus. Porém, tais atos eram transgressões episódicas, praticados por cristãos, judeus e muçulmanos, à margem dos preceitos das suas respectivas religiões. A Bíblia, o Talmude e o Corão são terminantes na proibição do sacrifício e do consumo da carne e do sangue humanos.

 

As razões da obra e do autor

 

Talvez as grandes perguntas que nos deixam Páscoa de sangue não se refiram às teses tresloucadas do livro, mas por que e como um historiador de origem judaica, ligado ao hebraísmo, ao se aproximar do nadir de sua carreira acadêmica, deixou-se envolver por aventura revisionista de tamanha dimensão e conseqüências, referentes a questões determinantes de sua vida pessoal e profissional, praticamente sem apoio documental ou metodológico. Para responder essas questões, podemos nos apoiar em fatos e processos culturais consolidados, ma somos, também, obrigados a propor avaliações subjetivas exploratórias.

 

Não há dúvidas quanto ao como foi empreendida a operação. Atualmente, a subjetivação e reconstrução conservadora da história, a partir de interpretações arbitrárias dos comportamentos culturais descoladas dos fatos sociais e materiais que os determinam, são processos normais e correntes. Nesse sentido, Ariel Toaff realizou, no que se refere à história dos judeus da Idade Média, a mesma operação empreendida, sistematicamente, sob o aplauso e o apoio dos aparatos culturais legitimadores – mídia, editoras, universidades, órgãos públicos, etc. –, no que diz respeito à história do operariado, das mulheres, da luta antifascista etc.

 

O revisionismo despudorado do passado com objetivos políticos é hoje moeda corrente. Em 12 de fevereiro, Jorge Napolitano, presidente da Itália, ex-militante comunista arrependido, foi duramente interpelado pelo presidente da Croácia, Stipe Mesic, que caracterizou como “racismo, revisionismo e revanchismo político” as declarações que proferira no Dia da Memória. Essa celebração foi instituída pelo governo direitista de Berlusconi para homenagear as vítimas italianas da Ístria, Dalmácia, Trieste e Gorícia. Em 1943 e 1945, sobretudo fascistas foram mortos e lançados em fossos da região pela população e guerrilheiros comunistas iugoslavos, exasperados pelos massacres ocorridos durante a dura ocupação nazi-fascista da Iugoslávia, sobre a qual Napolitano não proferiu palavra.

 

Na própria historiografia da escravidão brasileira, a mesma proposta de recuperação da subjetividade do trabalhador escravizado, devido à leitura economicista reificante que supostamente escamoteia seu papel histórico, ensejou reconstrução do passado onde o cativo trabalhava pouco, comia muito, apanhava quase nunca, possuía laços familiares sólidos, determinaria a própria arquitetura de seu ergástulo etc. Tudo devido a acordos e negociações sistêmicas entre escravizados e escravizadores que teriam transformado a escravidão em uma obra do próprio cativo, levando-o, assim, a interessar-se pela própria manutenção da instituição.

 

Com as costas quentes

 

O revisionismo do passado é exigência das forças sociais conservadoras do presente. Atualmente, há enorme espaço para igual operação revisionista no relativo ao massacre dos judeus, realidade que pesa duramente sobre a história do passado cristão-ocidental que, nos últimos anos, se propõe à Europa, com singular desenvoltura, como padrão obrigatório civilizacional. Uma obra, porém, emperrada pela inevitável acusação de anti-semitismo que recairia sobre o autor, devido ao caráter macabro assumido pela militância conservadora anti-judaica na Europa medieval e contemporânea. Uma operação, portanto, a ser realizada, quase necessariamente, por um judeu.

 

Podemos apenas conjeturar sobre as razões que permitiram que Ariel Toaff, aos 65 anos, após carreira universitária burocrática, fosse seduzido por empresa revisionista que certamente lhe garantiria, a ele e ao seu trabalho, repercussão mundial, como realmente ocorreu. Operação que, porém, ao contrário das congêneres, certamente lhe causaria também dificuldades, devido às razões assinaladas e ao fato de corresponder apenas às necessidades de uma das vertentes culturais e históricas do pensamento, tradição e civilização conservadora contemporânea – a ocidental-cristã.

 

A inesperada e dramática decisão de Ariel Toaff de retirar seu livro de circulação, tomada na quarta-feira passada, festejada por seu pai nonagenário como momento de lucidez em longa seqüência de insensatezes históricas do filho, que liquida as  expectativas do autor, se não sua carreira profissional, procura certamente limitar o mal já feito. Porém, a serpente já pôs seu ovo maldito. Após Páscoa de sangue, jamais os crimes cometidos contra os judeus na Idade Média e Contemporânea – certamente alguém dirá algo sobre os crimes judeus anti-arianos na Alemanha pré-nazista? – poderão ser anatematizados sem que salte fora a proposta de que, talvez, tenham sido punição ao menos em parte merecida por vítimas promovidas igualmente à situação de algozes.

 

 

Mário Maestri é professor do programa de pós-graduação em História da UPF.

E-mail: maestri(0)via-rs.net.

 

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