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Escrito por Frei Betto   
Terça, 15 de Setembro de 2015
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Com o slogan “A vida é curta. Curta um caso”, o site Ashley Madison, de infidelidade amorosa, atraiu 33 milhões de usuários, todos pagantes. Em julho e agosto deste ano, hackers invadiram o site e divulgaram os dados da clientela. Um deus nos acuda!

 

Resultados: demissão do presidente da empresa e suicídio de usuários. Fora as turbulências conjugais que, com certeza, se propagam mundo afora.

 

Em que cidade do mundo há maior número de cadastrados no site? Las Vegas? Londres? Nada disso. É São Paulo, com 374 mil! É possível que nem todos sejam casados. Mas todos buscavam ali uma aventura tão excitante quanto frequentar bordel nos idos tempos em que a sífilis estava sob controle e a aids ainda não despontara.

 

O que todos ficaram sabendo agora é que as sedutoras mulheres, de voz aveludada e propostas picantes, em boa parte eram virtuais: 70 mil robôs programados para entreter os usuários do site. Muitos se apaixonaram pela interlocutora, sonhando com uma vida luxuriosa ao lado dela ou, ao menos, umas férias em alguma ilha do Pacífico, longe da esposa e de qualquer padrão moral...

 

A “cerca”, que muitos maridos gostam de pular, como toda cerca tem dois lados: o de cá, a carente fantasia de quem parte em busca de aventuras. E o de lá, a bocarra escancarada do capital, faminto em engordar seu faturamento. Isso vale para a prostituta interessada apenas no dinheiro do cliente quanto para os sites de relacionamento que iludem e exploram os incautos.

 

Dizem que o melhor da festa é esperar por ela. Surfando nessa onda é que homens e mulheres dão vazão às suas carências e solidão, ligando o computador à procura de uma paquera apimentada. Como tudo é virtual, vale todo tipo de blefe: o feio se faz de lindo; a bruaca passa por miss; o espancador de mulheres se disfarça em príncipe encantado...

 

Onde estão os sites do bem? Aqueles que estimulam o relacionamento entre quem pode ajudar e quem precisa de ajuda. Uma espécie de CVV (Centro de Valorização da Vida), que evita suicídios, voltado à solidariedade: o usuário assumiria a educação escolar de uma criança pobre do outro extremo do país; ou o tratamento de câncer daquela faxineira sem recursos; ou socorreria com um emprego um dos milhares de refugiados haitianos que vagam pelas Américas em busca de uma vida melhor.

 

O mundo seria bem melhor se todos nós estivéssemos convencidos de que a solidariedade é a melhor receita para fazer bem ao próximo, e também a si mesmo.

 

O Ashley Madison faturou bilhões de dólares em cima das fantasias libidinosas de 33 milhões de usuários. Recursos que poderiam ter sido canalizados para boas causas. Agora o site oferece meio milhão de dólares para quem denunciar quem e como quebrou os seus segredos, expondo a mazela de tanta gente.

 

Bem que Jesus nos preveniu: “Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido. O que disserem nas trevas será ouvido à luz do dia, e o que sussurrarem aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados” (Lucas 12, 2-3).

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.

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A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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