Crise de que e contra quem?

 

Claro que há uma imensa crise em pauta. Mas, por favor. Não tem nada a ver com crise do capital, se consideramos os concentrados segmentos de classe hegemônicos em nosso país. Bancos não estão em crise. O mesmo se repete para o agronegócio. Empreiteiras nacionais? Pode ser que aí haja problemas, mas não por questões estruturais.

 

O que se registra é a utilização incompetente do instrumento essencial, o que estabelece os níveis distintos de competitividade quando todos se igualam no limite da exploração da mais valia e na apropriação dos avanços tecnológicos: a corrupção do aparelho do Estado para além das ilegalidades que o Estado legaliza no interesse dos maganos. Como o são a sonegação tributária não criminalizada e a evasão de divisas.

Se Odebrecht, Camargo Correa e as menos votadas não forem beneficiadas por um “acordo de leniência” em função da “manutenção dos milhares de empregos que garantem”, essa “garantia” passará a ser dada por empresas internacionais que já estão na tocaia, com acordos certamente fechados por aqui.

 

Mantém-se, portanto, a composição estrutural no espectro da sociedade. O que há, como nas crises anteriores, é um freio de arrumação para que, ao preço da quebra de alguns, a hegemonia se concentre em alguns outros.

 

A crise existe é para nós, da esquerda, que contávamos com desafios imensos numa eventual vitória do PT em 2002, e nos vimos atropelados pela traição deslavada de tudo o que em duas décadas foi dito e produzido como proposta alternativa para a construção de uma nova ordem.
O PT se descompôs, se degradou ideológica e eticamente, e as forças progressistas e revolucionárias não conseguiram construir um instrumento alternativo.


Razões para isso? De pronto, o ceticismo e a descrença que o lulopragmatismo incutiu em mentes e corações que deveriam ser conquistados, mas que preferiram mergulhar no niilismo ou no ceticismo institucional. "Quando chegam ao poder, são todos a mesma porcaria". Um problema que não se resolve com um movimentismo espontâneo e cíclico em sua mobilização, por conta da ausência de condições objetivas e subjetivas.

 

É fácil constatar que não vivemos a década de 80, em que o clima de Diretas Já, na esteira da Campanha da Anistia, mobilizava milhões. Não vivemos um contexto internacional em que a esquerda pontificava e o campo do dito socialismo real se via embalado numa onda reformista do glasnost e da perestroika, gerando esperanças de mudanças fundamentais no quadro internacional.

 

Não vivíamos, enfim, uma conjuntura de projeto Constitucional no rompimento do regime ditatorial. Não vivemos, enfim, as condições que permitiram ao PT nascer, crescer e nadar de braçada no cenário político, mesmo com posições programáticas marcadamente radicais.

 

Pelo contrário, mergulhamos numa transição pelo alto, que gerou uma década de 90 tomada pelo neoliberalismo tardio, porém vigoroso, de Collor e FHC. Neoliberalismo tardio que não foi desmontado ou superado pela chegada de Lula ao Planalto. E, no plano internacional, nos vemos envolvidos pela ascensão de uma barbárie sofisticada, porque regida pela especulação financeira.

 

Uma barbárie sofisticada que causa confusões ideológicas profundas, tais como o apoio de segmentos da esquerda dita revolucionária - dita, porque incondicional de um Trotsky idealizado -, capaz de acreditar que a OTAN e o Departamento de Estado norte-americano sejam aliados necessários em "guerras humanitárias" absurdas e abjetas, como na destruição da Iugoslávia, para além de falácias de uma ilusória Primavera Árabe e a hesitação permanente no apoio aos governos bolivarianos da América Latina e à Revolução Cubana.

Assim, não supervalorizemos as dúvidas sobre o que vive o Brasil. O golpe contra o governo lulopragmático já foi dado, com o consentimento do próprio governo e da cúpula do PT, que se desmoralizam a cada iniciativa política precipitada, porque condicionados a uma genuflexão de moto próprio ao grande capital.

 

Encontrar a saída para uma unidade que nos liberte da dicotomia entre os golpistas tucano-demo-peemedebistas e saídas salvíficas para um governo extinto: essa é a tarefa da esquerda que não se vendeu nem se rendeu. É a crise que deve ser superada. A despeito dos obstáculos imensos, luta que segue.

 

 

Leia também:

 

 

‘Impeachment não é caminho, mas o governo não nos representa. É um cenário muito difícil para as lutas sociais’ – entrevista com Ana Paula Ribeiro, do MTST

 

Não há como recuperar a legitimidade da política sem ruptura radical com Lula e Dilma – entrevista com o economista Reinaldo Gonçalves

 

A fórmula mágica da paz social se esgotou – por Paulo Arantes, filósofo

 

“Encurralado, o governo vai cada vez mais para a direita” – entrevista com o deputado federal Ivan Valente

 

‘A depender de governo e oposição, caos social vai se aprofundar’ – entrevista com historiador Marcelo Badaró

 

Agenda Brasil: o verdadeiro golpe – por Juliano Medeiros

 

Fim de ciclo – Editorial

 

Milton Temer é jornalista e foi deputado federal pelo PT entre 1998 e 2006.

Comentários   

0 #1 a coragem necessáriaandré 12-09-2015 13:43
Não se pode esperar uma reconstituição efetiva da esquerda sem enfrentar abertamente certos erros crassos de avaliação como os referidos no texto. Muito bem!
"Uma barbárie sofisticada que causa confusões ideológicas profundas, tais como o apoio de segmentos da esquerda dita revolucionária - dita, porque incondicional de um Trotsky idealizado -, capaz de acreditar que a OTAN e o Departamento de Estado norte-americano sejam aliados necessários em "guerras humanitárias" absurdas e abjetas, como na destruição da Iugoslávia, para além de falácias de uma ilusória Primavera Árabe e a hesitação permanente no apoio aos governos bolivarianos da América Latina e à Revolução Cubana."
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