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Varoufakis: “Não abandonei o navio. Ele é que mudou de rumo” Imprimir E-mail
Escrito por Christos Tsiolkas, The Monthly   
Quarta, 26 de Agosto de 2015
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Descendo a rua do meu estúdio, nos subúrbios do norte de Melbourne, há um pequeno café ao lado de uma tabacaria. Ambos são propriedade de australianos de origem grega. Na semana anterior ao povo grego ter votado se queria aceitar a nova rodada de medidas de austeridade exigidas pela troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) de forma a liberar fundos de resgate, os donos dos estabelecimentos afixaram nos mostradores uma série de folhas A4 em preto e branco. Cada folha tinha uma palavra em destaque: OXI, “não” em grego.

 

Na manhã de 6 de julho, levantei-me antes do amanhecer, entrei na internet e liguei a televisão, ao mesmo tempo cheio de ansiedade e temeroso de saber as notícias: o resultado teria consequências não só para a manutenção da Grécia na eurozona, mas também para a própria definição de uma Europa unida. O resultado do referendo foi um OXI esmagador. Uma hora depois, ainda tentava identificar porque sentia esta combinação de medo, temor e êxtase. Enquanto observava as imagens vindas de Atenas de multidões em júbilo, percebi que estava a experimentar sensações que quase esquecera que podiam existir: esperança e otimismo políticos.

 

A nação grega tinha refutado uma lógica econômica quase universal, que exonerava o sistema financeiro da responsabilidade pela maior catástrofe econômica desde a Grande Depressão. Era uma lógica que exigia que as pessoas comuns pagassem os erros de cálculo dos mercados globais, uma lógica que limpava as dívidas dos bancos, mas não permitia tal indulgência em relação aos efeitos paralisantes da dívida nas nações individuais.

 

Uma semana depois, as minhas esperança e otimismo tinham se dissipado, na medida em que o governo de coligação, dirigido pelo partido de esquerda Syriza, de Alexis Tsipras, parecia à beira de aceitar os termos de um resgate que fora rejeitado pelo seu próprio povo.

 

A entrevista

 

Yanis Varoufakis está ao telefone. O carismático ministro das Finanças renunciara ao cargo logo a seguir à divulgação dos resultados do referendo. Varoufakis, economista de extensa carreira acadêmica, tem dupla nacionalidade, grega e australiana, depois de ter passado uma década a trabalhar na Universidade de Sydney. O seu estatuto de outsider no clube político da União Europeia, a sua recusa em usar linguagem tecnocrática ou de conformar-se com o estilo burocrático provocavam uma constante irritação nas negociações com a troika. Mas, de muitas formas, o forte resultado do referendo pode ser visto como uma validação da sua tática e frontalidade.

 

A primeira coisa que lhe perguntei foi como se sentiu na noite da votação e como se sente uma semana depois.

 

“Permita-me que descreva o momento que se seguiu ao anúncio do resultado” (do referendo de 5 de julho), começa. “Faço uma declaração no Ministério das Finanças e depois me dirijo às instalações do primeiro-ministro, o Maximos (residência oficial do primeiro-ministro grego), para encontrar-me com Alexis Tsipras e o resto do ministério”.

 

“Posso dizer que estava eufórico. Este ‘não’ – Oxi – sonante, inesperado, era como um raio de luz que atravessa uma escuridão espessa e muito profunda. Estava encantado. Passeava pelas salas, alegre, trazendo comigo essa incrível energia do povo no exterior. Tinham superado o medo, e esse sentimento fazia-me sentir flutuar no ar. Mas no momento em que entrei no Maximos toda essa sensação simplesmente desapareceu. Reinava lá também uma atmosfera elétrica, mas carregada de negatividade. Era como se a direção tivesse sido deixada para trás pelo povo. E a sensação que senti foi de terror: 'Que fazemos agora?'”

 

E a reação de Tsipras? As palavras de Varoufakis são medidas. Insiste que não diminuiu a sua amizade e respeito pelo primeiro-ministro cercado. Mas a tristeza e o desapontamento são evidentes na sua resposta.

 

“Podia dizer que ele estava desalentado. Era uma grande vitória, que eu creio que ele realmente saboreava, profundamente, mas não podia gerir. Sabia que o seu gabinete não podia geri-la. Era claro que havia elementos no governo que o pressionavam. Em poucas horas, ele já fora pressionado pelas principais figuras do governo para transformar o 'não' em 'sim', para capitular”.

 

Por lealdade a Tsipras e para honrar uma promessa que lhe fez, Varoufakis não cita nomes. Mas diz-me que havia eminências pardas no interior do frágil governo de coligação “que estavam contando com o referendo como uma estratégia de saída, não como uma estratégia de combate”.

 

Disse a Tsipras que tinha uma escolha clara: usar os 61,5% de votos 'não' como uma energia, ou capitular. E disse-lhe, antes que pudesse responder, “se optar pela segunda, vou embora. Renunciarei se escolher a estratégia de desistir. Não vou puxar o tapete, mas vou evaporar na noite”.

 

Apesar de Varoufakis ser circunspecto, deixa claro que a saída da eurozona era algo que ele, Tsipras e os colegas que pensavam como eles na coligação não aprovavam.

 

“Sempre pensámos que o projeto europeu, apesar dos seus defeitos, seria uma oportunidade para os europeus se reunirem, que talvez houvesse uma oportunidade de subverter as intenções originais e transformá-lo numa espécie de Estados Unidos da Europa. E, dentro disso, agitar por políticas progressistas de esquerda. Este era o nosso estado de espírito, a forma como fomos educados desde uma tenra idade”.

 

Esta mentalidade contribui muito para dar sentido à decisão de compromisso tomada pelo Syriza depois do referendo. Não havia hipocrisia no seu compromisso com a Europa, apesar do que diziam todos os alarmistas dos meios de comunicação mainstream. Mas, para Varoufakis, honrar esse compromisso não podia obrigar à aceitação das condições sufocantes da proposta de redução da dívida, à continuação da devastação social a ser legitimada em nome da austeridade.

 

“Tsipras olhou para mim e disse, 'compreendes que eles nunca farão um acordo contigo e comigo. Eles querem se ver livres de nós. E então me disse a verdade, que havia outros membros do governo pressionando-o na direção da capitulação. Estava claramente deprimido”.

 

“Respondi: faça o melhor com a tua escolha, da qual discordo de todo o coração, mas não estou aqui para te prejudicar”.

 

“E fui para casa. Eram 4h30 da madrugada. Eu estava perturbado – não pessoalmente, não ligo a mínima por sair do Ministério; na verdade, estava sentindo um grande alívio. Sentei-me entre às 4h30 e às 9h da manhã e escrevi os termos precisos da minha demissão, porque queria, por um lado, que desse apoio a Alexis e não o enfraquecesse, mas, por outro lado, deixasse claro porque tinha decidido sair, que não estava a abandonar o navio. O próprio navio tinha alterado o rumo”.

 

A interlocução europeia

 

Pergunto a Varoufakis se havia membros do eurogrupo, os 19 ministros das Finanças da eurozona, que estivessem a trabalhar pela saída da Grécia. A resposta é rápida e direta. “O Eurogrupo não. O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble”.

 

Pedi-lhe que esclarecesse, porque o retrato da crise atual apresentado pela mídia dominante é o de uma batalha entre os intransigentes gregos e uma Europa desesperada por tentar manter a eurozona junta. A realidade é muito mais complexa. Pergunto-me se as impossíveis exigências de austeridade que a troika fazia ao novo governo de esquerda sugeriam que, por trás do pano, membros do Eurogrupo preparavam a saída da Grécia. Se era este o caso, Schäuble estava de má fé?

 

Mais uma vez, a resposta de Varoufakis é imediata.

 

“Não era má fé, era um plano muito definido. Chamei-lhe o Plano Schäuble. Ele vinha planejando uma saída da Grécia como parte do seu plano de reconstrução da eurozona. Isto não é teoria. Digo isto porque foi ele mesmo que me disse”.

 

Cinco anos de austeridade provocaram a contração da Grécia em 25%, um em cada quatro gregos está desempregado e as condições da dívida levam os economistas, tanto da direita quanto da esquerda, a dizerem que só podem levar a uma maior devastação econômica e social.

 

Parece-me incrível que haja uma intenção de punir a nação grega pelos bem documentados pecados das suas estruturas políticas, do seu clientelismo e dos corruptos serviços públicos.

Mas para Varoufakis a rudeza das medidas de austeridade é parte de um jogo político que a Comissão Europeia faz para assustar outros Estados-membros.

 

“Esta é a forma de Schäuble arrancar concessões da França e da Itália, esse foi sempre o jogo. O jogo era entre a Alemanha, a França e a Itália, e a Grécia era, mas nem tanto, um bode expiatório... Temos uma expressão na Grécia...”

 

Fazíamos a entrevista em inglês, mas perante a hesitação pedi que falasse em grego. Ele responde e, apesar de o sotaque de Varoufakis ser de um educado ateniense, de falar inglês com um sotaque cosmopolita de alguém que estudou no Reino Unido e trabalhou na Austrália e nos EUA, por instantes ouço a voz do meu pai; por um momento o rural e o urbano combinam-se, o passado e o presente são um só: o jockey estala o chicote para a mula ouvir. Depois regressa a voz urbana.

 

“É uma clara estratégia de influenciar, de Paris a Roma, particularmente Paris, o tipo de concessões para criar um modelo disciplinar, teutônico, de eurozona”.

 

Possivelmente, devido a esse momento de dissonância, a mudança do inglês para o grego faz-me lembrar que não sou um participante desinteressado nesta entrevista. Desde 2010, tenho voltado ao país dos meus pais para tentar compreender as experiências da família e dos amigos, para perceber a paralisia econômica e ser testemunha dos seus custos humanos. Nenhum australiano da minha ascendência desconhece os efeitos negativos do corporativismo estatal de longo prazo, do nepotismo e da corrupção na Grécia. Muitos de nós lamentavam a ausência de uma reforma séria da política grega muito antes de a nação ter entrado na eurozona em 2001.

 

Quaisquer que sejam as diferenças ideologias, quaisquer os compromissos e as limitações da realpolitik, os ministros colegas de Varoufakis no Eurogrupo, as pessoas da troika com quem ele negociava, compreendiam a extensão da crise humanitária no país?

 

Poul Thomsen, que conduziu o programa grego em nome do FMI de 2010 a 2014, foi promovido com base nesse trabalho para ser agora o chefe europeu do FMI.

 

“Era uma combinação de indiferença e interesses próprios. Tem de entender, para alguns deles, o programa de austeridade da Grécia era a obra da sua vida, era o seu filho. Era como o Doutor Frankenstein: um monstro, porém, o seu monstro. Era algo de que dependiam as suas carreiras. Por exemplo, Poul Thomsen, que conduziu o programa grego em nome do FMI de 2010 a 2014, foi promovido com base nesse trabalho para ser agora o chefe europeu do FMI. Quando gente como esta olha os efeitos do que fez – as pessoas nas ruas a comer dos caixotes do lixo, o desemprego fenomenal – o que sentem é aquele normal processo de autorracionalização: ou dizem que tinha de ser feito por não haver outra opção, ou culpam o governo grego por não aplicar devidamente as reformas”.

 

Acreditavam mesmo que a austeridade era a única forma de manter a Grécia dentro da eurozona?

 

“É uma visão muito cínica, utilitária, que para forjar o futuro tenha de se sacrificar as pessoas improdutivas que não servem para nada. Os mais inteligentes – e há muito poucos – percebem que isso é tudo disparate. Viam que o programa que estavam a implementar era catastrófico. Mas eram cínicos. Pensavam: eu sei de que lado está a manteiga do meu pão”.

 

“Interessante é o ministro das Finanças alemão ser um homem que percebe isto melhor que ninguém. Num intervalo de uma reunião, perguntei-lhe: ‘assinaria isto, este acordo?’, e ele respondeu: ‘não, não assinaria. Não é bom para o vosso povo’. Esta é a parte mais frustrante, que no nível pessoal seja possível ter esta conversa humana, mas nas reuniões seja impossível trazê-la a este nível, seja impossível discutir medidas políticas humanitárias. O debate político está estruturado de tal forma que a humanidade tem de ficar fora da sala”.

 

Varoufakis deixou claro que este interesse próprio e carreirismo estão em jogo nas negociações. Mas se homens de Estado tomam decisões baseadas em políticas nas quais não acreditam, não há muita covardia em jogo?

 

A covardia dos pares

 

“Deixe-me tentar responder com o máximo de exatidão possível. Dos meus colegas no Eurogrupo...”, corrige-se, “ex-colegas do Eurogrupo – já não estou no Eurogrupo, graças a Deus – dizia-se muitas vezes que eram 18 contra um, que eu estava sozinho. Não é verdade, não é verdade. Uma pequena minoria, dirigida pelo ministro das Finanças da Alemanha, fingia acreditar que a austeridade a ser imposta aos gregos era a única saída, era o melhor para os gregos, e se aplicássemos as reformas de acordo com aquelas linhas da lógica austeritária ficaríamos bem, que isso não está a acontecer porque somos preguiçosos, vivemos da generosidade dos outros etc. etc. Mas eram uma minoria. Havia dois outros grupos mais significativos”.

 

“Um grupo consistia nos ministros das Finanças que não acreditam nestas políticas, mas foram forçados no passado a impô-las ao seu próprio povo com consequências muito negativas. Este grupo estava aterrorizado com a perspectiva de que tivéssemos sucesso, porque nesse caso teriam de responder ao seu próprio povo: por que tinham sido tão covardes?”

 

“E havia um terceiro grupo, França e Itália. São países importantes, Estados de fronteira da Europa, e eu caracterizaria que os seus ministros das Finanças nem acreditavam na austeridade nem a tinham aplicado seriamente. Mas temiam que se alinhassem do nosso lado, se fossem vistos como simpáticos aos gregos, ficariam sob a maldição do grupo teutônico e talvez tivessem a austeridade imposta a eles. Não queriam ser vistos a apoiar-nos no caso de terem de sofrer as mesmas indignidades”.

 

Varoufakis apresenta um preciso e convincente relatório dos passos em falso da eurozona, como foi lunático “criar uma moeda única e comum a ser controlada por um banco central que não tinha um Estado por trás, e Estados sem banco central para apoiá-lo”.

 

“Era como se estivéssemos a retirar os para-choques da área do euro, sendo estes a flexibilidade da taxa de câmbio. O momento em que os bancos deixaram de emprestar a lugares como a Irlanda e a Grécia a bolha estourou... Nos velhos tempos o dracma seria desvalorizado e a situação seria corrigida. Mas não tínhamos o dracma, e assim tínhamos de substituir os empréstimos dos bancos pelos empréstimos dos contribuintes”.

 

Houve excesso de confiança na estruturação do euro, uma euforia de vistas curtas, desencadeada pelo fim da Guerra Fria e a vitória da ideologia neoliberal. Estes erros foram agravados pela traição de quaisquer aspirações transeuropeias comuns, a própria noção da Europa que Varoufakis tentou defender. Esta traição reavivou velhos estereótipos nacionalistas de um Norte disciplinado e de um Sul preguiçoso, atirando contribuinte contra contribuinte e desviando a atenção das elites financeiras que criaram este desastre.

 

Mas para além de todos os erros da Europa, ainda há as deficiências nocivas do próprio Estado grego. Muitos de nós que apoiávamos o Syriza esperávamos que o novo governo começasse a desmantelar os corruptos sistemas de compadrio, a enorme fuga ao fisco e a venalidade do setor público. Nos seus escritos, Varoufakis referiu-se a isso como a “cleptocracia”, um Estado de bandidagem.

 

Que obstáculos surgiram para confrontar a cleptocracia?

 

“Enormes! Tínhamos de confrontar a aliança diabólica dos interesses e das práticas oligárquicas, o que chamo de triângulo de pecado dentro da Grécia. Em primeiro lugar, os bancos, os falidos bancos que são mantidos à tona pelos contribuintes gregos, mas sem que estes possam dizer nada acerca da sua gestão. Em segundo lugar, a mídia, particularmente os meios eletrônicos e a imprensa, que estavam totalmente falidos. Mas eram controlados pelos bancos, que usaram o dinheiro do resgate para reforçar os jornais e os meios eletrônicos e garantir que a mídia fizesse o trabalho sujo de propaganda. E, em terceiro lugar, as compras do setor público. Para dar um exemplo, uma autoestrada na Grécia custa...”, interrompe-se mais uma vez para uma correção.

 

“... Custou, no passado, três vezes mais por quilômetro do que uma autoestrada semelhante na Alemanha ou na França. Não que as pessoas trabalhassem menos duramente, ou que as empresas privadas fossem menos eficientes; eram muito eficientes. Se quiser saber por que custavam tanto, basta olhar para o norte de Atenas e ver as mansões onde vivem os donos dessas empresas”.

 

Dos mais fracos, custe o que custar

 

Recordo um passeio em Kifisia, um dos bairros mais ricos de Atenas, no final dos anos 80. A ostentação das casas era chocante. “Que fazem estas pessoas?”, perguntei à minha prima. Respondeu, resignada, batendo do bolso: “nós é que pagamos”.

 

Varoufakis continua. “No topo disso tudo, tínhamos a troika, que estava em conivência com este triângulo”.

 

Varoufakis diz que a troika era hipócrita nas suas relações com o governo grego nos últimos cinco anos? Que o novo governo de Tsipras foi tratado com um padrão diferente dos aplicados às coligações lideradas pelo Pasok e pela Nova Democracia?

 

A troika apenas ameaçava cortar a liquidez se não se cortassem as mais baixas das pensões baixas, se o salário mínimo não fosse reduzido. Só ameaçou esses governos anteriores quando se atreveram a dar um pouco de dinheiro aos gregos mais pobres.

 

“A troika interpelou os governos anteriores do Pasok e da Nova Democracia. Fizeram-no muitas vezes. Mas nem uma vez ameaçaram cortar-lhes a liquidez pelo fato de os governos não terem tributado suficientemente as oligarquias, ou porque não tivessem taxado os canais de televisão, ou deixado de apanhar a enorme evasão fiscal que havia para contas na Suíça. A troika apenas ameaçava cortar a liquidez se não se cortassem as mais baixas das pensões baixas, se o salário mínimo não fosse reduzido. Só ameaçou esses governos anteriores quando se atreveram a dar um pouco de dinheiro aos gregos mais pobres”.

 

A raiva que me atravessa é clara na interjeição que solto, uma obscenidade. Em parte, a raiva vem da fúria em relação a um país que não conseguiu se reestruturar. Detesto o setor público inchado que tornou o emprego contingente do partido em que se vota. Não quero desculpar a crescente evasão fiscal praticada pela população grega. Estou tão abismado como qualquer um em relação a um sistema de pensões que também foi estruturado pelo compadrio.

 

As reformas nessas áreas são necessárias, essenciais. A raiva também sobe devido à falta de compaixão, nascida de 50 anos de corrupção sistemática, em relação aos que na Grécia menos têm. Sinto-o aqui na Austrália, com amigos que torcem a boca de desdém quando ouvem histórias de evasores de impostos e de pensionistas de 50 anos.

 

Nos últimos cinco anos a Grécia atravessou uma experiência radical que causou a morte da economia. Não há rede de segurança social, e o desemprego e o trabalho sem pagamento se tornaram a norma. Muito bem, as pensões eram generosas. Vamos cortá-las. Mas se não há subsídio de desemprego, não há trabalho, que querem que faça uma pessoa de 50 anos? Morra de fome? Garanto-vos que é isto que acontece.

 

Varoufakis sente a minha fúria. Diz, calmamente, “a consciência de classe da troika era espantosa”.

 

“O nosso aparelho de Estado foi contaminado pela troika, muito, muito mesmo. Deixe-me dar um exemplo. Há uma instituição chamada Fundo Helênico de Estabilidade Financeira, uma sucursal do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, da sigla em inglês). É um fundo que tinha inicialmente 50 bilhões de euros – na altura em que eu assumi, tinha 11 bilhões – para recapitalizar os bancos. O dinheiro é dos contribuintes gregos que emprestaram com o objetivo de reforçar os bancos gregos. Eu não consegui escolher o seu CEO e não consegui ter qualquer influência sobre a forma como ele fazia as suas transações com os bancos gregos. O povo grego que tinha me elegido não tinha qualquer controle sobre como estava a ser usado o dinheiro que tinha emprestado”.

 

“Descobri a certa altura que a lei que constituía o EFSF me concedia um poder, o de determinar o salário dessa gente. Descobri que os salários desses funcionários eram monstruosos para os padrões gregos. Num país com tanta fome e onde o salário mínimo tinha caído para 520 euros por mês, esta gente estava a ganhar algo como 18.000 euros por mês”.

 

“Decidi então, já que tinha esse poder, exercê-lo. Adotei uma regra muito simples. As pensões e os salários caíram em média 40% desde o início da crise. Publiquei um decreto ministerial pelo qual reduzi o salário destes funcionários em 40%. Ainda ficava um salário enorme. Sabe o que aconteceu? Recebi uma carta da troika dizendo que a minha decisão tinha sido revogada porque estava insuficientemente explicada. Assim, num país em que a troika insiste que as pessoas que recebem pensões de 300 euros por mês vivam agora com 100 euros, recusavam o exercício de corte de custos, a minha capacidade como ministro das Finanças, de limitar os salários destas pessoas”.

 

Minhas lembranças gregas

 

Varoufakis, 54, deixou a Grécia depois de terminar o secundário para estudar economia no Reino Unido. Em 1988, saiu de Cambridge para assumir um posto acadêmico na Universidade de Sydney. Diz-me, rindo, que quem o recrutou pensava que ele era de direita porque usava a teoria dos jogos e a matemática nos artigos que tinha publicado: “a esquerda da Universidade de Sydney temia a minha vinda”.

 

Sabendo que Varoufakis viveu períodos no seio da diáspora grega no Reino Unido, nos EUA e na Austrália, e passou tempos com essa geração de imigrantes que chegou nos anos 1950 e 60, pergunto-lhe se pensa que durante as décadas de prosperidade e da integração na UE os gregos esqueceram o trauma da emigração.

 

“Claro que sim. Durante esse período em que eu cheguei à Austrália e até o início da crise, qualquer grego-australiano que visitava a Grécia sentia um profundo sentimento de traição. (Porque) os gregos ficavam quase embaraçados com os gregos australianos. Lembravam-lhes de um passado em que a Grécia era pobre, quando a Grécia era a Albânia dos anos 50”.

 

Menciono-o que me recordo de estar na Grécia no final dos anos 1990 e dizer aos meus primos “sou o albanês”. Estava horrorizado pelo racismo casual com que eles falavam dos imigrantes do leste da Europa. Lembro-me, também, de perceber que os meus pais e outros migrantes da geração deles eram ainda camponeses: sal da terra, claro, mas nada a ver com a nova Europa cosmopolita. Foi então que compreendi que tinha uma história diferente da dos gregos. A minha pertencia à história da imigração, não da Europa. Varoufakis concorda.

 

Mas agora que os gregos tiveram essa bofetada da história, nos demos conta de que era tudo fachada, que ainda somos uma nação de migrantes, que nunca entramos verdadeiramente na cidadania de primeira classe da Europa.

 

A nova onda de emigração grega já começou. Na avenida perto da minha casa, houve um ressurgimento da fala grega. São gente de 20 e poucos anos, 30 e poucos, 40: os que tiveram a sorte de nascer aqui, aqueles cujos pais mantiveram a cidadania australiana. Peço a Varoufakis para refletir sobre as semelhanças e diferenças entre as duas ondas de imigração.

 

“Nos anos 1950 e 60, a Grécia perdeu um enorme capital humano, mas era trabalho não-qualificado. O grande investimento que ocorreu na Grécia dos anos 50 em diante foi na educação. Conseguimos nos tornar uma nação de alto nível de instrução. Em termos do nosso setor público e do nosso setor privado fizemos pouco – mesmo na questão ambiental conseguimos fazer um desastre. Mas quanto ao capital humano, criamos muito, e a tragédia da crise atual é que estamos a exportá-lo. Jovens altamente qualificados, cuja educação foi paga em primeiro lugar pelo Estado – e pelas suas famílias, mas principalmente pelo Estado –, estão a oferecer os seus serviços em todo o mundo, incluindo na Austrália. E isto é o tipo de perda que simplesmente não pode ser recuperada. Pode-se reconstruir edifícios, pode-se arranjar autoestradas, mas esta perda é irreversível”.

 

Na manhã seguinte à minha entrevista a Varoufakis, recebo um telefonema nervoso de uma amiga de Atenas. Não recebe salário há meses e o marido está desempregado. Estão aterrorizados por causa do futuro dos filhos. Ambos têm cursos universitários; ele estudou no Reino Unido. A voz dela é abafada, envergonhada. Pede desculpa várias vezes. Pergunta: “por favor, por favor, há algum possível trabalho na Austrália? Tenho medo do que está acontecendo aqui, meu amigo. Estou aterrorizada com o que está para vir”.

 

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Christos Tsiolkas é autor de cinco romances, entre eles Slap e Barracuda.


Publicado originalmente na revista australiana The Monthly, com o título Tragédia grega. Reproduzida de A l'encontre.


Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net.

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Última atualização em Segunda, 31 de Agosto de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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