Dilemas da atual luta de classes

 

 

 

As principais palavras de ordem das manifestações foram ostensivamente antidemocráticas. Impeachment, prisão para petistas, cadeia e fuzilamento de petistas e comunistas, atacados como traidores da pátria, andaram misturadas a outras motivações menores, indicando que à frente da organização e realização dessas manifestações estão os setores mais reacionários e trogloditas da sociedade brasileira. Nesse sentido, o governo erra ao passar uma mensagem acrítica sobre o verdadeiro sentido das manifestações. Elas não foram democráticas. Foram antidemocráticas.

 

É provável que muitos dos participantes nas manifestações não comunguem com aquelas palavras de ordem fascistas e nazistas. Porém, algo idêntico ocorreu com grande parte dos milhares de manifestantes em defesa de Deus, da Família e da Propriedade, que foram às ruas em 1964. Eles, provavelmente, também não comungavam com as mensagens golpistas daquela época, iguais em gênero e grau às atuais. Mas serviram de massa de manobra indispensável para dar um ar de legitimidade ao golpe militar. Depois, tarde demais, arrependeram-se pelos mais de 20 anos de ditadura militar.

 

Portanto, a esquerda, as forças progressistas e democráticas, aí incluído o governo, não podem ficar calados diante da natureza antidemocrática que marcou as manifestações de 16 de agosto. Manifestações democráticas não são, nem podem ser, utilizadas para fins antidemocráticos. É preciso dizer isso, abertamente e em alto som, para a alta classe média e para o conjunto da sociedade brasileira.

 

Por outro lado, as manifestações da alta classe média foram uma expressão do atual nível a que sua luta chegou. Foram menores do que as de março. A participação da juventude foi pífia. E a presença de qualquer representante das camadas populares foi zero, ou quase zero. Portanto, estão em descenso, e cada vez mais reduzidas à elite da classe média.

 

Em termos de comparação, o PT poderia dizer que possui mais militantes do que os cerca de um milhão de manifestantes que a direita colocou nas ruas. Poderia, mas não pode, porque também teria que reconhecer que perdeu a capacidade de mobilizar integralmente sua própria militância, como demonstraram as manifestações de 20 de agosto.

 

Apesar disso, essas manifestações da esquerda foram maiores do que suas mobilizações anteriores. Correm, porém, o perigo de perder o empuxo. Um enorme número de militantes petistas, e também de outros partidos de esquerda, compreende que deve ir às ruas contra rupturas antidemocráticas, mas não comunga com a direção do PT de que isso signifique apoiar o ajuste econômico antipopular do governo Dilma. Porém, como a crise econômica está se agravando e as conquistas dos anos anteriores estão escorrendo pelos ralos do ajuste fiscal e monetário, as manifestações populares podem ganhar impulso contra a política governamental.

 

Dizendo de outro modo, a luta de classes no Brasil começa a ficar escancarada, depois de anos de descenso. As classes populares engrossarão as manifestações da esquerda e irão para as ruas lutar contra aquilo que as prejudica e as incomoda. Não irão à luta contra seus próprios interesses e demandas, embora o combate à quebra de seus direitos democráticos seja vital. No entanto, tão ou mais vital é lutar contra as medidas que causam desemprego, cortes dos direitos trabalhistas e previdenciários, e retiram investimentos para a melhoria dos transportes urbanos, da saúde, da educação e da moradia.

 

Em outras palavras, ou o governo muda sua política econômica e apoia uma agenda popular, permitindo que a luta em defesa da democracia esteja associada à luta em defesa das medidas governamentais, ou o governo apoia a Agenda Renan (que também é a Agenda Levy) e coloca a ascensão da mobilização popular diante de um dilema, por falta de coesão entre as demandas populares e a política do governo.

 

Se a crise econômica continuar se agravando, a ascensão da mobilização popular pode assumir um caráter nitidamente contrário às políticas do governo. Nessas condições, independentemente dos esforços do PT e de outras correntes de esquerda, a mobilização popular pode ser apropriada pela direita e criar uma situação política totalmente nova e imprevisível. Os sábios do Planalto podem não acreditar nessa hipótese, mas depois não digam, como o general Assis Brasil, em 1964, chefe do “dispositivo militar de Jango”, que “ninguém avisou”.

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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