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Escrito por Luiz Eça   
Quarta, 19 de Agosto de 2015
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Quando os EUA começaram a bombardear o Estado Islâmico (ISIS) na Síria, o historiador e ex-coronel Andrew Bucevich afirmou no Washington Post (3-10-2014): “a Síria está se tornando a 14ª nação do mundo islâmico que forças norte-americanas invadiram ou ocuparam ou bombardearam, onde soldados norte-americanos mataram ou foram mortos. E isso apenas desde 1980”.

 

E olhe que Bucevich não incluiu os ataques de drones no Paquistão e no Iêmen, os quais, embora os EUA não estejam em guerra contra esses países, continuam matando camponeses inocentes em regiões alvejadas.

 

Levando em conta todas as intervenções bélicas made in USA, dá uma média de uma a cada dois anos.

 

Valeu a pena?

 

No caso da invasão e ocupação do Iraque, é consenso universal que as justificações do ex- presidente Bush eram falsas.

 

Foi o que o presidente Obama admitiu no seu discurso na retirada dos soldados estadunidenses do Iraque. Ele também ponderou que, em compensação, o Iraque tinha ficado bem melhor do que nos tempos de Saddam Hussein.

 

As famílias dos 500 mil civis mortos não concordam, muito menos o milhão de órfãos da guerra (estimativa do Ministério dos Direitos Humanos do Iraque) e os três milhões de desalojados.

 

Não dá para negar que a ideia de se ter criado uma democracia modelo para o Oriente Médio não passou de fantasia.

 

O xiita Maliki, premier pós-saída dos norte-americanos, revelou-se um governante autoritário, favorecendo a maioria xiita (60%) e discriminando as minorias sunitas e curdas.

 

Frutos da guerra

 

A Al-Qaeda, perseguida pelo governo Saddam, a ponto de se tornar inexpressiva, ganhou força durante a ocupação, atraindo ex-oficiais do exército da ditadura, dissolvido pelos EUA, e jovens patriotas que viam nela a organização mais efetiva no combate ao invasor.

 

Com a retirada das forças estrangeiras, a Al-Qaeda lançou suas ações contra o próprio Iraque, com atentados que mataram muita gente. Somente no primeiro semestre de 2013 foram mais de 1.000 vítimas.

 

As despesas, até 2013, trazidas pela guerra, foram de 1,7 trilhão de dólares, com previsão de bater em 6 trilhões nas décadas seguintes, ao se computar os juros dos pagamentos (estudo da Watson Institute for International Studies da Brown University).

 

Com esse dinheiro, Obama teria melhores condições para encarar os problemas financeiros causados pela crise. Quem sabe poderia até evitar os cortes feitos nos programas sociais.

 

As perdas humanas também foram dolorosas: 4.500 soldados e 1.500 seguranças privados mortos, mais 32 mil militares que voltaram muito feridos, incapacitados mental ou fisicamente.

 

O saldo final para os EUA foi sua imagem internacional profundamente desgastada, imensos recursos financeiros queimados e consideráveis perdas humanas.

 

Foi pior para o Iraque que, além de imensas perdas humanas e materiais, ainda recebeu uma herança maldita: uma nova guerra, agora contra os ultrarradicais do ISIS, que vem devastando o país, tendo tomado quase toda a região norte e parte do centro, onde instalaram um califado independente.

 

Assim como a Al-Qaeda iraquiana nasceu da guerra do Iraque, o ISIS nasceu da Al-Qaeda. Foi fundado por milicianos dessa organização que acharam o grupo de Bin Laden pouco radical.

 

O ISIS é um inimigo pra ninguém botar defeito – além de se destacar em barbaridades acima de qualquer padrão, forma uma força poderosa, que já conquistou vitórias surpreendentes e está sendo muito difícil de ser derrotado. Não é à toa que o governo norte-americano o considera a maior ameaça à humanidade.

 

Uma das razões do sucesso do ISIS é a presença em suas fileiras de ex-oficiais do exército de Saddam Hussein. A agência AP diz que, segundo militares pró-Ocidente, a experiência que eles (os ex-Saddam) trazem é a maior razão das vitórias do ISIS.

 

Esses ex-oficiais estariam dando às forças ultrarradicais a estrutura e a disciplina necessárias. O quadro sombrio da guerra do Iraque se estende Síria adentro, com o ISIS avançando e aumentando os territórios sob seu controle.

 

Os EUA armaram uma coalizão de países para bombardearem as posições ocupadas pelos terroristas. Aos aviões estadunidenses cabe a responsabilidade maior pelos ataques, que já custam 5,5 bilhões de dólares a Tio Sam (vide site National Priorities).

 

Por enquanto, não há soldados norte-americanos em terra (boots on the ground), Obama recusa, o povo não aceita mandar seus jovens para lutar e morrer no exterior.

 

O problema é que somente com aviões não parece possível dar um jeito no ISIS. Mesmo que Obama se negue a enviar tropas, em 2016 acaba seu mandato. O sucessor, seja Hillary Clinton, seja um republicano, qualquer deles pertence ao war party (partido da guerra).

 

Síria

 

E tudo começa outra vez... Na verdade, jamais parou. Esquecendo o desastre que foi e continua sendo a guerra do Iraque, nem bem a retirada aconteceu os EUA e alguns países da Europa já estavam entrando em mais uma aventura semelhante.

 

Desta vez, a vítima foi a Síria. Assad presidia um governo autoritário, que controlava a liberdade de imprensa, de associação e de palavra e não permitia grandes arroubos à oposição.

 

Tinha aspectos positivos: o regime era secular, havia liberdade religiosa total e as mulheres, com igualdade, não precisavam andar de burka.

 

Assad já estava no seu segundo mandato, em eleições na qual fora candidato único. Com o advento da Primavera Árabe, a oposição saiu às ruas em manifestações de protesto.

 

O governo reagiu com violência, prendendo e batendo nuns quantos. Mas o movimento cresceu, a rebeldia acentuou-se: enquanto primeiro pedia reformas, passou a exigir a queda de Assad.

 

Várias cidades entraram nessa onda e as forças de segurança abriram fogo, matando 15 manifestantes.

 

Daí para uma revolução foi um pulo, sob liderança de oficiais que haviam desertado. Formou-se uma frente rebelde, logo apoiada pelo Ocidente e alguns países árabes.

 

Obama foi um grande incentivador, exigindo a queda de Assad e fornecendo aos rebeldes dinheiro, equipamentos tecnológicos não letais e treinamento militar.

 

Logo, dezenas de grupos islâmicos radicais, inclusive a Al-Qaeda, aderiram à revolta. Mais tarde, o ISIS atravessou a fronteira com o Iraque e tomou largas fatias do território sírio.

 

Recebendo armas, recursos e apoio logístico da Arábia Saudita, do Catar e da Turquia, os movimentos rebeldes jihadistas foram ficando cada vez mais poderosos. Enquanto isso, os rebeldes moderados pró-Ocidente foram perdendo gás até se tornarem uma força pouco significativa nas fileiras da revolução.

 

Por seu lado, Assad conta com armamentos e apoio político da Rússia e do Irã. Depois de várias oscilações, o jogo entre governo e rebeldes parece equilibrado.

 

Ambos estão perdendo. A devastação na Síria é de tal ordem que o mundo inteiro está indignado com a incapacidade das potências resolverem o conflito.

 

Segundo o Observatório de Direitos Humanos, em quatro anos de guerra já morreram 240.381 pessoas, sendo 88.616 soldados e milicianos pró-governo; 77.579 rebeldes e combatentes estrangeiros e 71.781 civis.

 

Para o Ocidente, o futuro figura-se como péssimo ou péssimo, mesmo que a oposição vença.

 

Como os moderados pró-EUA não têm chance, o poder em caso de vitória deverá ser disputado pelos grupos jihadistas, todos eles radicais e violentos.

 

Os sofrimentos da Síria tendem a não acabar, com Al Qaeda, ISIS e semelhantes combatendo entre si e arruinando o país.

 

Líbia

 

Mais ou menos o que está acontecendo na Líbia. Com o governo do coronel Kadafi, a Líbia que era uma das mais pobres nações africanas, passou a ter o maior PIB per capita e a mais alta expectativa de vida da região.

 

A Educação tornou-se gratuita, sendo que o número de alfabetizados aumentou de 25% para 87%e 25% da população estava em universidades.

 

A assistência médica, também de graça, tornou-se uma das melhores dos mundos asiático e africano. Depois de dar à luz, uma mulher recebia bolsa de 500 dólares.

 

Se alguém procurasse um tratamento médico ou curso não existente na Líbia, o governo Kadafi os financiava no exterior.

 

A eletricidade era gratuita. O governo incentivava a agricultura, oferecendo terras, casas e sementes a quem desejasse iniciar uma fazenda.

 

Todo esse pacote de bondades era garantido pela elevada produção de petróleo líbio: 1.100 mil barris por dia.

 

Os EUA, alguns países da Europa, mais a Arábia Saudita e o Catar, não levaram nada disso em conta ao apoiarem uma revolução líbia, com pesados bombardeios de cidades e posições militares do governo.

 

O motivo alegado inicialmente foi a necessidade de proteger a população da cidade rebelde de Benghazi, ameaçada de ataques pela aviação de Kadafi.

 

A ONU aprovou uma no fly zone, proibição de voos de aviões do governo sobre a cidade, protegida pela aviação da coalizão que se formou.

 

Com os rebeldes avançando contra a capital, Trípoli, as nações aliadas ampliaram por conta própria o mandato da ONU, lançando seus bombardeiros contra os mais diversos objetivos na Líbia e fornecendo armas às forças anti-Kadafi.

 

Como se sabe, o ditador acabou derrotado e morto. O Ocidente explicou-se: Kadafi seria um ditador violento, que perseguia brutalmente seus adversários, desrespeitava os direitos humanos e negava as liberdades.

 

Pode ter razão, mas a verdade é que a revolução deixou frutos amargos, difíceis de digerir. Depois da queda de Kadafi, movimentos rebeldes jihadistas passaram a lutar entre si pelo poder, usando as armas que o Ocidente lhes fornecera para a revolta.

 

Três anos depois da vitória, as regiões do país acham-se sob o controle desses grupos, todos eles sectários e radicais, que fazem o que querem na ausência de um Estado e de instituições fortes.

Envolvida nos combates sectários, a população vive sob constante ameaça.

 

Forçados pela insegurança geral, os países ocidentais fecharam suas embaixadas. Hoje a Líbia possui dois governos opostos, sediados em Trípoli e em Tobruk, que lutam pelo controle do país.

 

Aproveitando o caos existente, o ISIS penetrou, tomando a cidade de Sirte, da qual fez sua base para atacar regiões próximas e praticar atentados em outros pontos do país.

 

O total descontrole das instituições de segurança trouxe um aumento enorme da entrada de migrantes africanos. Estima-se que, mensalmente, cerca de 30 mil deles tentam embarcar clandestinamente para a Europa, usando barcos precários.

 

Resultado: o drama constantemente renovado de centenas de pessoas morrendo afogadas, o que tem chocado a opinião pública mundial.

 

Sem contar que essa entrada não prevista de migrantes causa sérios problemas nos países do continente.

 

Nesse quadro de traços tão negativos, a economia líbia entrou em crise. A produção de petróleo, principal riqueza nacional, é 90% menor do que nos tempos de Kadafi.

 

E os amigos?

 

É certo que tanto seu regime quanto o de Assad, na Síria, eram ditatoriais. Mas, e quanto à monarquia absoluta da Arábia Saudita e à ditadura militar do Egito?

 

A Arábia Saudita, que mantém cerca de 30 mil oposicionistas na cadeia, proíbe as mulheres de guiar carros, viajarem para o exterior sem autorização do marido e saírem na rua desacompanhadas; não tem liberdade religiosa; os oposicionistas podem ser condenados até à morte, pena que no primeiro semestre já atingia 85 pessoas no país; o código penal prevê degola e crucificação e não há eleições, a não ser de conselhos municipais com candidatos pré-aprovados pelo governo.

 

No Egito, as forças de segurança mataram cerca de 1.200 pessoas em manifestações pacíficas; os protestos e greves são proibidos por lei; a imprensa independente foi suprimida; 2.131 adversários da ditadura militar foram condenados à morte por terem promovido atos públicos antigoverno e 41 mil presos desapareceram nos cárceres, não se tendo notícias deles.

 

Diante desta contradição, não há como dizer que a diferença de tratamento dado aos países islâmicos tem a ver com direitos humanos.

 

Para o Ocidente, bons amigos podem violá-los. É uma estratégia furada. Custa muito dinheiro, muitos soldados mortos e muita perda de respeito na opinião pública internacional.

 

Claro, para os países islâmicos invadidos as perdas são incomensuravelmente maiores. Só resta esperar que os estadistas do Ocidente acabem aprendendo com a experiência das últimas guerras.

 

O que até agora parece difícil.

 

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Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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Última atualização em Quarta, 26 de Agosto de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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