De antíteses e contrastes

 

Os contrários se opõem, e se atraem. O contraste delimita, e aproxima. A luz faz a sombra, e a sombra faz a luz. De antíteses e contrastes vivemos. Mas nem sempre os vemos.

 

O pontífice tem por função construir pontes, e ao seu lado caminha o murífice, o construtor de muros.

 

Diga-me uma coisa: o nosso encontro foi casual ou foi causal?

 

Os antepassados eram pré-futuros no tempo do sempresente.

 

Os cacos da cacofonia podem fundar formosas eufonias.

 

E assim caminham, lado a lado, os opostos complementares. Em paz com a sua guerra, como dizia Camões, a pessoa que vê como funciona esse jogo, o tabuleiro de casas brancas e negras, sol e lua se perseguindo eternamente, cada vez se escandalizará menos com as tensões decorrentes.

 

Há uma intenção nessas tensões, ao que parece.

 

O que parece nem sempre aparece.

 

O rebelde questiona o autoritário, que já foi rebelde um dia contra outro autoritário.

 

Só podemos ouvir o som se houver silêncio.

 

Os livros de auto-ajuda, por exemplo. Afinal, ajudam as editoras que os publicam a publicarem outros livros. E ajudam os leitores iniciantes a entrarem na livraria e verem ali outros livros... que talvez os ajudem mais, daqui a um tempo.

 

Depois do temporal vem o sol, depois do sol, o temporal.

 

Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe.

 

O que arde cura... o que não dói preocupa.

 

Não se trata, permitam-me explicar, de conivência com o erro, elogio da hipocrisia, apoio ao descalabro. Trata-se de análise a ser feita com a mente atenta — entender o tabuleiro, ver as peças do jogo em ação. Na Idade Mídia, ninguém mais pode se esconder. Isso é bom, isso é ruim. A transparência é saudável, e fatal.

 

Morte e vida conversam, se revezam.

 

Ora é prosa, ou poesia.

 

Nunca se falou tanto no tema educação. Educação como salvação. Educação como obrigação. Educação e avaliação. Nunca se viu com maior clareza (os números em cima da mesa) que a educação é o ponto de encontro de bens e males, erros e acertos, tudo e nada.

 

Recentemente, numa cidade do interior do Brasil, ouvi de uma professora sofrida (sem livros, sem internet, sem perspectivas) este comentário a ecoar: “— Professor, a escola é um problema. Mas só com escola podemos resolver o problema da escola.”

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site:  www.perisse.com.br

 

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