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Os frutos da impunidade Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sexta, 14 de Agosto de 2015
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As violências contra os palestinos passaram do limite com o assassinato de um bebê, queimado vivo em seu lar por uma bomba lançada por terroristas israelenses. Foi chocante demais, ninguém esperava que algo assim pudesse acontecer. Não para a Betselem.

 

Para essa ONG israelense de direitos humanos, o ataque, como o sofrido pelo bebê e sua família, era “apenas uma questão de tempo”. Uma sequência das oito vezes em que, desde 2012, assentados israelenses incendiaram lares palestinos. Mais um lance da campanha de atentados movida pelos moradores dos assentamentos contra seus vizinhos palestinos – suas casas, templos, escolas, fazendas, árvores...

 

O Escritório da ONU para Coordenação dos Assuntos Humanitários relatou ao menos ataques na Cisjordânia e Jerusalém Oriental entre janeiro e julho de 2015. Somente em 2014, foi mais de um ataque por dia, num total de 399 anuais.

 

Para a Betselem, “esta situação deve-se à política das autoridades de evitar a aplicação das leis nos israelenses que atacam palestinos e destroem suas propriedades”.

 

Os números tornam essa acusação difícil de contestar. Os jornalistas Jonathas Friedland e Susan Abdulhawa informam, em reportagem publicada no site Middle East Eye que, desde 2000, soldados de Israel e moradores dos assentamentos mataram 1895 menores palestinos e nem um único israelense está preso por esses assassinatos. E segundo a organização de assessoria judiciária, Yesh Din, das 1067 queixas criminais contra assaltantes israelenses na última década, apenas 19 resultaram em sentenças.

 

A Betselem conclui: “Esta política de segurança cria impunidade para os crimes de ódio e encoraja os assaltantes a continuarem”.

 

Ao enviar ao Tribunal Criminal Internacional relatos sobre o bebê queimado vivo e o assassinato a sangue frio de menores alvejados num protesto perto de Ramallah, a Autoridade Palestina culpou o governo Netanyahu, por sua tolerância para com os crimes dos assentados.

 

E a União Europeia apela para que Israel adote “tolerância zero” para a persistente violência contra os palestinos na Cisjordânia.

 

Sentindo que a barra ficou muito pesada, Netanyahu condenou os atentados e ordenou a prisão dos terroristas judeus. E mais: os israelenses também passarão a estar sujeitos a prisões administrativas (de prazo indefinido), até agora um duvidoso “privilégio” dos palestinos.

 

Não vai adiantar muito. A cultura da impunidade é apenas um sintoma de algo profundamente enraizado no povo da região: ódio.

 

Quando, especialmente nos anos 40, os judeus chegaram em massa ao território palestino, não foram exatamente recebidos com flores pelos habitantes.

 

Conflitos entre os dois povos derramaram muito sangue. Mais ainda na Guerra da Independência, em 1948. Vencedores, os judeus expulsaram cerca de 500 mil palestinos de suas casas e do país.

 

Em 1967, com a ocupação militar israelense da parte da Palestina que fora atribuída pela ONU aos árabes palestinos, a situação se agravou.

 

Depois de novas derrotas militares dos povos árabes da região, os palestinos, lutando por sua independência, adotaram como tática de guerra atentados inclusive suicidas contra os judeus de Israel. Muitos inocentes foram assim vitimados.

 

O horror e o medo dos israelenses provocado por essas ações fez elevar consideravelmente o ódio a seus inimigos. Que foi sendo alimentado quando, mais tarde, os atentados rarearam e foram substituídos pelo lançamento de foguetes a partir do estreito de Gaza. Embora praticamente inócuos, não deixavam de assustar e enfurecer a população.

 

O sentimento dos israelenses em relação aos palestinos ficou claro quando, na Guerra de Gaza, famílias sentavam-se em cadeiras em um monte perto da fronteira para se divertirem, contemplando Gaza iluminada pelo fogo de mísseis disparados pelo exército de Israel.

 

A venenosa mistura de medo e ódio levou a maioria do povo de Israel a considerar os palestinos como indignos da proteção das leis. O terrorismo dos habitantes dos assentamentos é simplesmente tolerado como autodefesa.

 

A Coalizão contra o Racismo em Israel informou um grande aumento nos ataques antiárabes desde 2013, coincidindo com a Guerra de Gaza e as eleições de fevereiro deste ano, ocasião em que os partidos de direita redobraram seus ataques ao “perigo palestino”. Em 2014, o relatório documentou 192 ataques, contra 113 em 2013. Esses dados não incluem ataques em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia.

 

Claro que matar um bebê é excessivamente insólito, os judeus israelenses ficaram horrorizados. Rifkin, o respeitado presidente de Israel, aproveitou esse trauma para alertar seu povo para o trágico caminho que está trilhando.

 

“Nós precisamos nos perguntar, que tipo de clima público é esse que permite que estas maçãs podres (os terroristas judeus) nasçam e floresçam aqui”, declarou. E concluiu: “o que há no clima público que permite que extremismos e extremistas andem tranquilos, em plena luz do dia?”

 

Foi graças a esse clima de ódio que Netanyahu e a ultradireita chegaram ao poder. Hoje, premidos pelas circunstâncias, eles condenam e até mudam regulamentos para perseguir os terroristas judeus.

 

Mas quais eram suas ideias até agora? Benjamin Netanyahu: “enquanto eu for primeiro-ministro não haverá Estado palestino”.

 

Naftali Bennett, ministro e líder do partido ultranacionalista Lar Judeu: “já matei muitos árabes na minha vida. Não há problemas com isso”.

 

Moshe Yaalon, ministro da Defesa, comparou os palestinos a uma ameaça cancerosa, que só pode ser eliminada “aplicando quimioterapia”.

 

Ayelet Shaked, ministra da Justiça: “todas as pessoas palestinas representam o inimigo”. Pediu a destruição delas, “incluindo seus velhos, suas mulheres, suas cidades e aldeias, suas propriedades e sua infraestrutura”.

 

Eli Ben-Dahan, vice-ministro da Defesa: “palestinos são bestas. Eles não são humanos”. Dov Lior, rabino e líder dos assentamentos, declarou que a completa  destruição de Gaza era permissível.

 

Liderada por gente assim, a ação de Israel contra o terrorismo judeu não deverá durar muito. Se o bebê queimado vivo foi um crime anunciado por sete outros lares incendiados, ele não deve anunciar o fim da impunidade, causada pelo ódio aos árabes.

 

Não enquanto Israel for governado por políticos que se promoveram surfando nessa onda.

 

 

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Luiz Eça é jornalista

Website: Olhar o Mundo.

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Última atualização em Quarta, 19 de Agosto de 2015
 

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