Ainda as bruxas soltas

 

 

Como estamos vendo, bruxas soltas causam pânico e destempero. Se, por um lado, a presidenta Dilma podia agradecer por elas terem apanhado o deputado Eduardo Cunha no contrapé, embora não do modo que seria mais condizente com a justiça, por outro o pretensioso ajuste fiscal salvador do governo e da pátria está cada vez mais perto do precipício. E, além disso, a Polícia Federal e a promotoria pública parecem empenhadas em recalibrar a pontaria, voltando-a novamente exclusivamente contra o PT e sua principal liderança. Não por acaso a revista Veja clama que agora é a vez de Lula.

 

Por isso, espanta que o PT não tenha uma política clara para enfrentar de forma mais incisiva esses cenários complexos. É lógico que ele deve continuar apoiando claramente as investigações contra os corruptores e os corruptos, “doa a quem doer”. Só que não pode ficar nessa generalidade. Precisa, como já reiteramos inúmeras vezes, decidir-se contra as contribuições empresariais a partidos e candidaturas. Não apenas como proposta legislativa, mas fundamentalmente como um compromisso de honra com os trabalhadores e o povo brasileiros. Precisa dizer que errou em aceitá-las, e não mais as aceitará, independentemente da legislação permitir.

 

É isso que pode fornecer ao PT a legitimidade necessária para exigir que todos os processos em andamento, que incluem não apenas a si, ao PMDB e a outros partidos “aliados”, mas também aos hipócritas do PSDB e coligados, recebam o mesmo tratamento público dado na Operação Lava Jato. E é isso que pode lhe dar legitimidade para reclamar publicamente, e também judicialmente, que a lei seja cumprida com rigor e as informações sejam corretas.

 

Delação é um recurso policial, mas não é prova, nem pode acarretar prisão antes do procedimento legal normal. Para que a lei não seja atropelada e abra brechas para a absolvição dos reais corruptores e corruptos, é preciso lutar para a transformação da pirotecnia das prisões e dos julgamentos sumários em prisões e julgamentos legalmente bem fundamentados.

 

Diante disso, espanta que o PT e outros partidos de esquerda custem a tomar uma atitude consistente diante do combate à corrupção, como se isso não tenha se transformado numa questão estratégica e seja uma prerrogativa da Polícia Federal e do Ministério Público. Não conseguem combinar as ações de participação e apoio a esse movimento, com ações de exigência de andamento de todos os processos envolvendo corruptores e corruptos das mais diversas procedências.

 

Tão nefasta quanto essa atitude apática diante dos processos de corrupção é a complacência com que o PT e os petistas no governo vêm tratando o desajuste fiscal, transformado em barafunda econômica. Não é preciso ser luminar em economia para saber que a combinação perversa de juros altos, câmbio desvalorizado e cortes nos investimentos públicos tende ao desastre, como mostraram várias experiências de outros países, assim como os oito anos de governo neoliberal do tucanato, tendo FHC à frente.

 

Apesar dessas experiências, por razões que a própria razão desconhece, os petistas no governo teimam em levar avante as incongruências do ministro Levy. Sequer parecem perceber que as bruxas nada farão para ajudá-los ao passarem do ponto de não retorno. Para complicar ainda mais o quadro econômico, não há propostas, nem medidas consistentes, para resolver os problemas contratuais das empreiteiras envolvidas na corrupção. Não adianta culpar a Lava-Jato pela paralisação das obras e pelo desemprego em curso, embora essa operação policial e judicial tenha sua parcela de responsabilidade no caso.

 

Na verdade, o governo age como se nada estivesse ocorrendo. Por incrível que possa parecer, aparenta estar mais preocupado em completar a divisão dos cargos nas estatais, ao invés de implementar planos e medidas capazes de manter esses importantes instrumentos de ação econômica em funcionamento e em expansão.

 

Dizendo de outro modo, ao invés de transformar a crise (as bruxas) em oportunidade (colocá-las a seu favor), pensa domesticá-las e divulga planinhos que nada têm a ver com a situação perigosa vivida pelo país. Ou seja, não acredita no fosso econômico que está cavando, nem conhece a natureza das bruxas.

 

Também não acredito nelas. Mas como diz um adágio popular, não creio, mas elas existem. E são impiedosas com aqueles que não lhes prestam atenção. Seria melhor não ter que conferir o que é realmente verdade, mas tudo indica que há gente que não está ligando para isso.

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Comentários   

0 #1 RE: Ainda as bruxas soltasSandro 03-08-2015 00:09
Esse e' o motivo que parei de ler o Correio da Cidadania : "Vladimir Pomar " , que te pomar so tem o nome
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