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Corumbiara, caso enterrado
Escrito por Elaíze Farias   
Quarta, 22 de Julho de 2015
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Corumbiara: Jornalista relata em livro um dos maiores conflitos de terra na Amazônia

 

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Escola Santa Elina, da Liga dos Camponeses. (Foto: Gerardo Lazzari)

 

No dia 9 de agosto de 1995, a reintegração de posse de famílias sem-terra da fazenda Santa Elina, no município de Corumbiara, região leste de Rondônia, resultou em um dos conflitos agrários mais violentos e de maior repercussão do país.

 

O episódio ficou conhecido como “Massacre de Corumbiara”, pois no confronto morreram vários camponeses. Esta história volta a ser contada sob diferentes olhares de quem acompanhou os desdobramentos do conflito no livro de “Corumbiara, caso enterrado”, do jornalista João Peres e do fotógrafo Gerardo Lazzari. O livro será lançado no próximo dia 20, pela Editora Elefante.

 

Em seu livro, o jornalista refaz os principais momentos do conflito, ouvindo sobreviventes e identificando diversidades de opiniões sobre o assunto. Apesar da repercussão na época, há um grande esquecimento sobre Corumbiara, na avaliação do jornalista João Peres, de São Paulo, que desde 2011 vem realizando uma pesquisa aprofundada sobre este caso.

 

“Há um certo esquecimento sobre o caso de Corumbiara. A questão agrária no Brasil como um todo perdeu muita força nestas duas primeiras décadas do século 21. Ainda assim, o grau de ignorância sobre os fatos ocorridos na Santa Elina parece mais profundo, se considerarmos o tamanho da questão em número de mortos e de perguntas não respondidas”, disse João Peres, em entrevista à agência Amazônia Real.

 

Na violenta operação de reintegração da fazenda Santa Elina, morreram nove camponeses e dois PMs, segundo a pesquisa feita pelo jornalista.

 

Em maio de 2011, o assassinato de Adelino Ramos, um dos sobreviventes de Corumbiara, recuperou a sombra daquele triste capítulo da história da luta agrária no país. Adelino havia sido uma das principais lideranças da ocupação da fazenda Santa Elina. Anos depois, ele conseguiu junto com outros agricultores um pedaço de terra no sul do Amazonas: o Projeto de Assentamento Florestal (PAF) Curuquetê, no município de Lábrea. Dinho, como era chamado, continuou incomodando fazendeiros e grileiros, denunciando desmatamento e invasão de unidades de conservação e de terras indígenas. Recebia muitas ameaças. Ele foi assassinado em dia 27 de maio de 2011.

 

O jornalista João Peres cobriu eleições, consultas populares e momentos de crise no Brasil, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia e na Bolívia. No interior do país, fez reportagens sobre direitos humanos, agricultura, agrotóxicos e relações de trabalho. Em 2010, recebeu menção honrosa no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, promovido pela OAB-RS, pelas reportagens sobre o trabalho de dom Paulo Evaristo Arns contra a ditadura.

 

O argentino Gerardo Lazzari trabalhou como repórter-fotográfico para diferentes veículos de imprensa da Argentina e do Brasil. Registrou inúmeros eventos de relevância jornalística, como eleições presidenciais (Argentina, Uruguai, Bolívia, Brasil), eventos esportivos e reportagens sobre os cocaleiros da Bolívia, a cultura gaúcha, a vida dos produtores de tabaco e, recentemente, o conflito de Corumbiara, entre outros.

 

O livro “Corumbiara, caso enterrado” está disponível para compra pela internet, no site da editora. O valor é de R$ 30, mais frete de R$ 7 para qualquer lugar do país.

 

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O jornalista João Peres (camisa branca) entrevista camponês
do assentamento Santa Elina. (Foto: Gerardo Lazzari)

 

Leia abaixo a entrevista de João Peres:

 

O que levou você a aprofundar o tema do caso de Corumbiara?

No começo de 2011, como repórter na Rede Brasil Atual, fui escalado para entrevistar um rapaz condenado pelo caso conhecido como ‘massacre de Corumbiara’. Claudemir Gilberto Ramos era um dos líderes do acampamento organizado entre julho e agosto de 1995 por famílias sem-terra do sul de Rondônia. Ele se recusava (ainda se recusa) a cumprir a pena de oito anos e seis meses de prisão por considerá-la injusta.

 

Claudemir e Cícero Pereira Leite Neto foram apontados pelo Ministério Público como responsáveis pela morte de dois policiais durante a tentativa de reintegração de posse, entre a madrugada e a manhã de 9 de agosto de 1995. No total, são doze mortos, segundo os números oficiais, com nove sem-terra, os dois PMs e um rapaz não identificado, possivelmente um pistoleiro.

 

Aquela primeira entrevista me deixou uma série de questões. Eu não conhecia muito sobre o caso do massacre de Corumbiara, o que foi um primeiro ponto: por que aquele episódio tão importante era tão pouco falado? Dois anos depois, Claudemir me avisou que pensava em se entregar, ideia da qual foi demovido por pessoas próximas. De todo modo, senti que precisava ir a Rondônia entender melhor essa história. É aí que tudo começa.

 

Você já tinha conhecimento anterior sobre os problemas de conflitos de terra nesta parte da Amazônia?


Muito pouco. Havia ido a Porto Velho uma vez, a trabalho, em 2010. Este é um dos pré-conceitos que tive de deixar para trás: daqui de São Paulo, quem não conhece a Amazônia tende a desconsiderar a enorme heterogeneidade existente nessa região. É como se tudo fosse uma grande floresta, estática, sem pessoas. Durante as andanças por Rondônia, de norte a sul, pude entender as diferenças climáticas, políticas, sociais e econômicas.

 

Dos conflitos, sempre tinha contato pela lista elaborada todos os anos pela Comissão Pastoral da Terra. Mas, no fim, eram apenas números, que cresciam ou se reduziam de acordo com questões conjunturais. Não conhecia a complexidade envolvida em cada espaço em que há algum tipo de conflito agrário.

 

Quais foram os fatos novos, diferentes nuances e abordagens, por exemplo, que sua pesquisa acrescenta e que são encontrados no livro?


Tenho dito que o principal papel do livro é sistematizar as informações e apresentá-las de uma maneira que busca respeitar a inteligência do leitor. Há poucos trabalhos sobre o caso de Corumbiara e o motivo para essa escassez é uma das questões que tento explicar ao longo do trabalho. O que fiz, basicamente, foi buscar representar os vários pontos de vista possíveis em torno do assunto. Isso resultou na escolha de não tratar o caso como “massacre”.

 

Pode parecer algo tolo, mas foi importante para mostrar às pessoas envolvidas que estava disposto a preservar a verdade delas sobre essa questão, sem adotar uma postura previamente favorável a qualquer dos lados. Entre os sem-terra, mesmo, há grupos que divergem: o que ocorreu foi um massacre ou uma batalha? E, claro, os policiais não aceitam a ideia de massacre. O Ministério Público fala em chacina, algo que é inegável.

 

Ter tomado essa postura mais respeitosa com a diversidade de opiniões não significa fazer um livro sem tempero, sem lado. Por exemplo, há um personagem central dessa narrativa que é um fazendeiro que ganhou 43 mil hectares da ditadura. Não é possível considerar normal que este senhor, chamado Antenor Duarte do Valle, que não era o dono da área ocupada, tenha o direito de pressionar o comandante da operação na fazenda Santa Elina, o comandante da Polícia Militar e o governador, assim como não se pode banalizar o fato de que ele contratou pistoleiros para atuar na reintegração de posse.

 

O que mais lhe chamou atenção do caso Corumbiara em relação a conflitos fundiários ocorridos em outras regiões do país?

 

Há um certo esquecimento sobre o caso de Corumbiara. A questão agrária no Brasil como um todo perdeu muita força nestas duas primeiras décadas do século 21. Ainda assim, o grau de ignorância sobre os fatos ocorridos na Santa Elina parece mais profundo, se considerarmos o tamanho da questão em número de mortos e de perguntas não respondidas.

 

O que pude concluir é que há alguns motivos para que isso ocorra. Um problema central reside no fato de os sem-terra que ocuparam a fazenda não pertencerem a nenhum movimento organizado. Depois do caso, eles receberam vários convites, é claro, mas à época estavam desconectados de qualquer instituição com mais peso. É diferente de Eldorado do Carajás, em que o MST teve alguma força para construir sua narrativa por meio de trabalhos acadêmicos e jornalísticos.

 

Outro ponto é a distância em relação a grandes centros, e nisso o caso se parece com outros. Temos de considerar que Corumbiara é bastante distante de Porto Velho e muito distante de centros mais bem abastecidos em termos de veículos jornalísticos. Ainda que Rondônia seja servida por rodovias, e essa é uma particularidade que faz toda a diferença, para o bem e para o mal, é preciso viajar durante um dia inteiro para sair da capital e ir até a cidade. Considerando a situação do jornalismo brasileiro nas últimas duas décadas, em especial na era da internet, este é um fator limitador. Custa caro, muito caro se deslocar por essas áreas. E leva tempo.

 

Descreva como foi seu trabalho em Rondônia para a pesquisa do livro? O que chamou atenção, sentiu algum temor, alguma ameaça?


Um dos aprendizados envolvidos nessa história foi aquela questão da heterogeneidade de Rondônia, que contei acima. Ter compreendido que cada lugar guarda uma história de formação população, um clima diferente, uma terra, uma trajetória de violência foi um aprendizado e tanto.

 

Na questão cultural, foi muito importante o processo de entender que há uma diferença enorme na relação com o tempo. Todo mundo, em qualquer lugar do Brasil, sabe que a sociedade de São Paulo é pilhada, estressada, neurótica, está sempre correndo, na maior parte das vezes sem um por quê. Logo nas primeiras entrevistas em Rondônia notei que esse conceito, típico de uma sociedade industrial, tinha de ficar para trás. Foi preciso me adaptar, ver que não podia cumprir com um número grande de entrevistas por dia, que tinha de aceitar que alguns dias eram “perdidos” do ponto de vista de apuração porque era preciso respeitar o tempo daquelas pessoas, esperar que estivessem prontas para falar.

 

Em termos de tensão, destacaria o contrário disso na relação com os policiais. Na primeira das duas vezes que fui a Vilhena, onde atua a maior parte dos agentes envolvidos no caso da Santa Elina, estava muito apreensivo. Não sabia o que esperar. No fim, foi frustrante me deparar com a indiferença de muitos deles. Não que eu estivesse com vontade de celebrar a tensão, longe disso, mas não contava com a ideia de que prefeririam manter tudo enterrado, receosos de levantar a poeira em torno dessa questão. Imaginava que teriam mais disposição em defender seus pontos de vista e, no entanto, acabei me deparando com uma grande indiferença. Fiz todos os esforços para tentar convencê-los de que seria fundamental que falassem a respeito, mas foi inviável.

 

Você conheceu o Adelino Ramos? Planejava alguma entrevista com ele?


Conversei com Dinho uma vez, mais ou menos um mês antes da morte. Foi uma conversa por telefone, muito rápida, porque ele morava numa região em que era raro conseguir sinal de celular. Aquela entrevista foi insuficiente para me dar conta de que ele estava correndo um risco tão grande. Pudemos falar muito brevemente sobre umas poucas questões. Não planejava nenhuma matéria sobre o assunto.

 

No dia em que ele foi morto, me ligaram. Pediram que eu tentasse confirmar a informação. Liguei para o hospital e recebi a notícia, que tive de repassar para a família. Foi muito marcante. Depois, pude visitar o local em que ele foi morto, mas, em termos de informações, resultou frustrante: a maior parte das pessoas tinha muito medo de falar qualquer coisa.

 

Apesar de ter saído da mídia, os conflitos fundiários naquela parte de Rondônia e no sul do Amazonas permanecem. O PAF Curuquetê, por exemplo, está esvaziado. Você continua acompanhando a situação dali?


Não acompanhei mais a situação. Soube por algumas pessoas a respeito desse esvaziamento do Curuquetê. Nunca fui ao local, mas, pelas informações vindas de várias frentes era um local ermo, de difícil acesso, num calor terrível, um solo pobre.

 

Na atualidade, não tenho uma opinião sobre isso. O que mais me chamou atenção foi a rapidez com que o caso foi arquivado depois da morte do rapaz apontado como responsável pelo assassinato de Dinho. Quando Osias Vicente foi liberado, era de se esperar que se cumprisse o roteiro clássico. Se eu, a essa distância geográfica da história, podia prever o desfecho, é evidente que os operadores do Direito envolvido também tinham condições de saber o que ocorreria.

 

Em relação ao livro, como será o lançamento? Planeja lançar, futuramente, também em Rondônia?

 

A gente tem intenção de lançar em Rondônia. Mas precisamos viabilizar duas questões. Uma, os recursos, porque a editora é independente e trabalha para, com sorte, reduzir a margem de prejuízo. Ou seja, uma viagem a Porto Velho representaria um aumento nesta margem. De outro lado, a gente pretende viabilizar esta ida à capital e a Vilhena, na região de Corumbiara, com o apoio de alguma organização da sociedade civil.

 

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Porteira da Fazenda Santa Elina, na atualidade. (Foto: Gerardo Lazzari)

 

Ficha técnica

 

Título: Corumbiara, caso enterrado

Autor: João Peres

Editora: Elefante

Ano: 2015

Páginas: 304

Preço: R$30,00

 

Elaíze Farias é jornalista e editora do Portal Amazônia Real, onde esta entrevista foi originalmente publicada.

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