Grécia se socorre com redes solidárias

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“Isto não é caridade, é um movimento solidário e, como tal, não ficamos apenas repartindo medicamentos sem custo. Queremos que as pessoas participem, se envolvam na construção de uma sociedade mais justa”, diz Eleni Sotyropouloy  na Farmácia Solidária localizada em Patisia, um bairro central de Atenas.

 

Sotyropouloy é assistente social e trabalha como voluntária neste centro de atenção médica e fornecimento de remédios para pessoas que perderam ou nunca tiveram acesso ao serviço de saúde pública. São, no total, 3,3 milhões, segundo dados oficiais.

 

A iniciativa surgiu na comunidade de Patisia, com a colaboração de pais e mestres da escola mais importante do bairro.

 

“Prestamos ajuda a umas 950 pessoas. Para isso, contamos com uma rede de médicos que atendem gratuitamente e um estoque de medicamentos que são doados pelos próprios vizinhos”, disse Sotyropouloy. Em meio à crise, os atenienses e imigrantes mais golpeados, mães solteiras, desempregados e aposentados encontram aqui assistência médica, mas também um espaço onde informar-se, conversar e oferecer uma mão.

 

“Muitas pessoas não sabiam como lidar com sua situação. Isso tinha a ver em parte com a bonança dos anos 80 que nos fez perder a humanidade. Nestes últimos tempos, as pessoas abriram as portas das suas casas e saíram às ruas para ver o que se passava com os seus vizinhos”, sublinha. Hoje são 40 centros de saúde solidária em toda a Grécia, condenados a aliviar a reestrutura do sistema sanitário público ordenada pela troika, que a ONG Solidariedade Para Todos define diretamente como uma “liquidação do sistema de bem-estar social”.

 

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Hoje os milhões de gregos e as centenas de milhares de imigrantes excluídos do sistema somente  podem acudir ao hospital em caso de emergência, mas não consultar especialistas ou receber tratamento de longo prazo. Isto ocorre quando o estresse causado pela rápida deterioração da economia atinge altos níveis de suicídio e depressão. Entre 2007 e 2013, os suicídios aumentaram em 43%, a maioria entre pessoas que perderam o trabalho, profissionais independentes ou aposentados, segundo a ONG Klimaka. “O governo do Syriza tentou tomar medidas para reduzir o impacto da crise, mas não poderão aplicá-las se for imposto o novo plano. Temos 1,5 milhão de desempregados, pelo menos 250 mil jovens que emigram. Se a economia grega era dependente antes, agora é muito mais”, disse Christos Giovanopoulos, do Solidariedade Para Todos.

 

A associação apoia logística e administrativamente uma rede composta por 400 grupos ou organizações sociais formados nos últimos anos, mais especialmente entre 2011 e 2012, quando as consequências das medidas de austeridade foram mais terríveis. Nas distintas regiões da Grécia, e em especial em Atenas, onde vive a metade da população, hoje há farmácias solidárias, pontos de assistência legal, centros culturais, de apoio a imigrantes, ou locais que fornecem alimentos e outros produtos da cesta básica a um preço significativamente menor que o dos super mercados.

 

Em outro bairro mais afastado do centro de Atenas está o Abariza Solidarity, um centro social que coordena mensalmente a entrega sem custo de uma bolsa de alimentos para 150 famílias, assim como uma feira de bairro na qual dezenas de pequenos produtores oferecem frutas e verduras pela metade do preço. O agricultor dispensa os intermediários e 1300 famílias podem ter acesso, com menor custo, a uma variedade de alimentos que provêm diretamente da terra.

 

“Em 2011, sofremos o impacto mais duro. Começaram a chegar famílias com até sete filhos, pais sem trabalho, muitos imigrantes, sem nenhum tipo de proteção social. Quando colocamos em ação este centro, o governo direitista da Nova Democracia tentou desmantelar-nos, mas não conseguiu. Este governo tem outra atitude e esperamos não passar pela mesma experiência apesar das novas medidas de austeridade”, disse Aris Papadokostopoulos, voluntário em Abariza.

 

Em torno de 44% da população tem um rendimento mensal que a situa debaixo da linha da pobreza, segundo estimativas de 2013 do Grupo de Análises de Políticas Públicas da Universidade de Atenas. Todavia, o custo de vida é, proporcionalmente, o mais alto entre os países da União Européia. Nesse contexto, os movimentos sociais de solidariedade são uma das formas de resistência mais destacadas na defesa e garantia de direitos básicos fundamentais, como alimentação e moradia.

 

“Foi produzida uma implosão do sistema, que colapsou sobre os ombros da cidadania. Neste sentido, a experiência da crise é muito dura, não apenas em termos de custos sociais, mas também porque questiona o que as pessoas criaram, o que pensam de si mesmas e de seu país, sua ideologia ou partido. É uma crise estrutural do sistema”, disse Giovanopoulos. “Devemos criar espaços pelos quais a população possa se organizar para que seja um verdadeiro agente de mudanças. Sem isso não haverá governo que nos dê uma solução, nenhum acordo será válido, e o sistema seguirá ditando suas regras e impondo suas vontades”, conclui.

 

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Gabriel Diaz escreveu de Atenas para o semanário Brecha (http://brecha.com.uy) do Uruguai.

Traduzido por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania

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