A última barreira ao Acordo Nuclear

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“Hoje, depois de dois anos de negociações, os EUA junto com a comunidade internacional conseguiram algo que décadas de animosidade não conseguiram”.

 

Foram as primeiras palavras do presidente Barack Obama após comunicar a conclusão do Acordo Nuclear com o Irã.

 

Por “animosidade” talvez se referisse a sanções aplicadas contra Teerã, na presunção de que teria um programa nuclear militar.

 

Felizmente, a agressividade, alimentada (talvez gerada) pelo desejo de satisfazer Israel, e que levou o Ocidente a culpar o Irã, sem provas, e condená-lo com sanções destrutivas, foi substituída pela boa vontade com que se negociou uma solução para a questão.

 

Por que aconteceu essa mudança?

 

Em parte pela eleição do presidente Rouhani, em parte pela disposição do presidente Obama.

O iraniano enfrentou seus ardentes radicais, abençoados pelo supremo líder Ali Khamenei. O norte-americano enfrentou o Congresso e os lobbies, liderados pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu.

 

Ambos em busca de acordo, ainda que fazendo concessões suscetíveis de provocar acessos de raiva dos opositores.

 

Ainda parece que Irã cedeu mais. No último momento, concordou ficar cinco anos sem comprar e vender armas convencionais e interromper por oito anos o programa de mísseis balísticos.

 

Foi um autêntico jabuti, pois o objetivo do acordo é impedir o Irã de ter armas nucleares, não convencionais.

 

Além disso, é injusto privar uma das nações mais importantes do Oriente Médio do direito de ter um exército à altura – hoje muito inferior em armamentos ao de seus inimigos Israel e Arábia Saudita, individualmente.

 

Mesmo assim, a vantagem não deixa de ser recíproca. Para os dois presidentes, o acordo nuclear teve significado histórico: pela primeira vez, os EUA não seguiram as ordens de Telavive em política externa e o governo do Irã, numa magna decisão, contrariou o radicalismo dos militares, da maioria dos legisladores e dos setores dominantes do clero.

 

Enquanto que em Teerã ninguém duvida que o acordo seja aprovado pelo parlamento, nos EUA as coisas não serão tão fáceis.

 

Antes de Obama começar a suspender sanções, precisa ter o acordo aprovado pela Casa dos Representantes e pelo Senado, que têm 60 dias para chegarem a uma decisão.

 

As chances de dar certo são remotas: o Partido Republicano, maciçamente pró-Israel, domina tanto a Casa dos Representantes quanto o Senado.

 

Mas o Obama tem poder de veto – e já anunciou que vai fazer. Nesse caso, os republicanos precisariam ao menos de 12 votos democratas para terem os dois terços necessários à derrubada de um veto presidencial.

 

Netanyahu, a AIPAC (maior lobby judaico-americano), os principais nomes republicanos no Congresso, a rede Fox do magnata Murdoch e os diretores de uma sem número de rádios, jornais e em emissoras de TV espalhados pelo país já estão afiando as garras.

 

Espera-se nesses dois meses um furacão de ataques no congresso, no senado e na imprensa, de cartas enviadas aos legisladores pelos grupos judaico-americanos pró-Israel e reuniões públicas, dirigidas aos poucos congressistas republicanos indecisos e à maioria dos democratas.

 

Milhões de dólares vão jorrar dos bilionários, especialmente judaico-americanos, para os bolsos ávidos de homens públicos sensíveis a esse tipo de argumentação.

 

Confiando nesse cataclisma, os líderes do Partido Republicano na Casa dos Representantes e no Senado, respectivamente, John Bohnner e Mitch McConnel, falam em derrota de Obama, embora admitindo que não será nada fácil.

 

Já diversos legisladores do partido confiaram a jornalistas do The Guardian (edição de 14 de julho) que suas opções em bloquear o acordo serão extremamente limitadas. A decisão parece que será no Senado.

 

Será que conseguirão levar 12 senadores democratas a desgostarem 61% dos norte-americanos que, em recente pesquisa, declararam-se a favor do acordo?

 

Aliás, até mesmo a maioria dos judeus-americanos o apoiam: 59%, segundo pesquisa do GBA Strategies, que chegam a 78%, quando conhecem os principais pontos definidos.

 

Afinal haverá eleições legislativas no ano que vem e agradar eleitores parece importante para quem deseja se reeleger.

 

Atentos a isso, os estrategistas republicanos estão focando estados em que o acordo não é muito popular para ali concentrarem esforços nos senadores que os representam.

 

Pode não adiantar, pois a oposição a novas guerras, onde muitos our boys morrerão, é um sentimento muito forte nos estadunidenses.

 

E a voz do povo tem um certo peso na democracia dos EUA. Se não fosse bastante, os lobbies pró-Israel terão de encarar ainda grande parte, senão a maioria, das empresas norte-americanas ansiosas para conquistar o mercado iraniano. Esse país de 80 milhões de habitantes, com um povo carente de uma grande gama de produtos fabricados no Ocidente, é extremamente apetitoso para os empresários.

 

Nesta segunda-feira, a ONU deu sua aprovação ao acordo nuclear. Num cenário assim, as empresas europeias, com o fim das sanções da ONU, ganhariam essa nova corrida do ouro, deixando as estadunidenses falando sozinhas.

 

Para não perder negócios milionários, as empresas dos EUA já devem estar usando seus poderosos lobbies e dólares para demover até republicanos de sepultarem o acordo nuclear.

 

E não é só. Como no Brasil, os legisladores, em tempos eleitorais, precisam ter a ajuda inestimável da caneta do presidente.

 

Especialmente em ocasiões como nas eleições de 2016. Se votarem com Netanyahu e vassalos, não terão cara para pedir nomeações ou favores para um Obama que jogou o melhor de si no acordo nuclear.

 

E se procurarem Hillary Clinton, candidata favorita à presidência, vão encontrar uma firme defensora da posição tomada por Obama – afinal ela também precisa do presidente para ter mais chances nas eleições de 2016.

 

Netanyahu e afins deveriam se preparar para novas batalhas, porque esta eles já perderam.

 

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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