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Francisco sustenta Imprimir E-mail
Escrito por Atílio Boron   
Segunda, 13 de Julho de 2015
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Depois do discurso de Francisco no Encontro dos Movimentos Sociais, não tardaram em aparecer vozes advertindo que suas palavras não deviam ser levadas a sério, tomando em conta a longa história da Igreja Católica como guardiã da ordem capitalista e responsável por incontáveis crimes. Havia uma incredulidade imposta e, inclusive, uma vigilância militante para evitar que a mensagem papal frustrasse o tão ansiado desenvolvimento da consciência crítica dos povos oprimidos.

 

Discordo destas opiniões. E mais: creio que este não é um tema que deveria nos preocupar. Do ponto de vista da construção de um bloco histórico anticapitalista – ainda que não desde a abstração de um juízo ético – o feito de que Francisco acredite ou não no seu próprio discurso é irrelevante e não tem sentido discutir aqui. O que sim, interessa, é que essas palavras foram vertidas em uma importante reunião de líderes e dirigentes sociais latino-americanos e alcançaram de imediato uma impressionante ressonância mundial.

 

Que o Papa diga que o capitalismo é um sistema esgotado, que já não se sustenta, que os ajustes sempre são feitos às custas dos pobres, que não existe tal coisa como o derrame da riqueza das taças dos ricos, que destrói a casa do comum e condena a Mãe Terra; que os monopólios são uma grande desgraça, que o capital e o dinheiro são o “estrume do demônio”, que se deve cuidar do futuro da Pátria Grande e estar em guarda frente às velhas e novas formas de colonialismo, entre tantas outras afirmações, têm efeitos políticos objetivamente de esquerda, e de uma importância extraordinária. Claro, tudo isso já haviam dito Fidel, Che Guevara, Camilo Torres, Evo Morales, Rafael Correa, Hugo Chávez e tantos outros nomes dentro da teologia da libertação e do pensamento crítico da Nossa América.

 

Mas seus juízos foram sempre postos sob suspeita e toda a indústria cultural do capitalismo se debruçou sobre eles para burlar seus certificados, desqualificando-os como produtos de um anacrônico radicalismo demoníaco. Os tecnocratas a serviço do capital e as mentes “bem pensantes” pós-modernas diziam que aqueles nostálgicos não compreendiam que os tempos do Manifesto Comunista haviam passado, que a revolução era uma perigosa ilusão sem futuro e o capitalismo havia triunfado inapelavelmente. Mas agora resulta que quem o questiona radicalmente, com uma linguagem plana e enfática, é Francisco. Então, esse discurso adquire uma súbita legitimidade e seu impacto sobre a consciência popular é incomparavelmente maior.

 

Com suas palavras foi aberto, pela primeira vez em muito tempo, um espaço enorme para avançar na construção de um discurso anticapitalista arraigado nas massas, algo que até agora havia sido uma empreitada destinada a ser neutralizada pela ideologia dominante, que difundia a crença de que o capitalismo era a única forma sensata – e possível – de organização econômica e social.

 

Já não é mais. O histórico discurso de Francisco na Bolívia instalou no imaginário público a ideia de que o capitalismo é um sistema desumano, injusto, predatório, que deve ser superado mediante uma mudança estrutural e, por isso, não há que temer a palavra “revolução”. Deixemos os filósofos, teólogos e psicólogos se entreterem em discutir se Francisco crê ou não no que disse.

 

O importante, o decisivo, é que graças às suas palavras estamos em melhores condições para vencer a batalha de ideias de forma a convencer todas as classes e camadas oprimidas, as principais vítimas do sistema, de que é preciso acabar com o capitalismo antes que esse infame sistema acabe com a humanidade e com o planeta.

 

 

Atílio Boron é sociólogo argentino.

 

Texto originalmente publicado no Página 12.

Traduzido por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Sexta, 17 de Julho de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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