Um cenário preocupante

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O cenário político atual parece cor de rosa para a direita. Ela voltou a falar, embora de forma envergonhada, sobre a possibilidade do impeachment da presidenta, tendo como alimento os vazamentos selecionados da Polícia Federal, do Ministério Público e de outros órgãos judiciários, que procuram apenas comprometer o PT, Lula e Dilma. E tudo isso ocorre sem qualquer reação séria e consistente, que convença a opinião pública de que estamos diante de um sistema policial e judiciário partidarizado, e de uma ofensiva direitista que pretende liquidar com as conquistas do povo brasileiro. Em outras palavras, é preciso cobrar em alto e bom som que o sistema policial e judiciário deixe vazar tudo, ou não deva vazar nada.

 

O Congresso, por seu lado, continua em sua sanha regressiva e reacionária. Ao mesmo tempo, cria dificuldades para aprovar o ajuste fiscal, não por discordar dele, mas com o objetivo claro de criar um ambiente econômico e social de crise incontornável e de “quanto pior, melhor”. As empresas estatais, como a Petrobras e as elétricas, ao invés de tomarem iniciativas para empurrar a economia, encolhem-se na expectativa de escaparem da sanha policial e judiciária, suspendem investimentos, promovem falências empresariais e aumentam o desemprego de trabalhadores.

 

O quadro de recessão, fechamento de empresas, cortes de postos de trabalho se agrava com rapidez. As cadernetas de poupança sofrem perdas, não só para cobrir gastos aumentados, mas também para proporcionar maiores rendimentos em aplicações financeiras mais rentáveis, estimuladas pelo aumento dos juros do Banco Central.

 

Num quadro como esse, os investimentos produtivos tendem a zero, tornando ainda mais grave a crise na economia e transformando em pó os projetos de infraestrutura que teoricamente se destinariam a retomar o crescimento. E o decreto de redução de salários e horas de trabalho não passa de um esparadrapo de incerta duração.

 

Em resumo, o ajuste promovido pelo governo, sob a tutela do ministro Levy, ao invés de criar um ambiente propício à retomada do crescimento, está desajustando toda a economia e criando um quadro social e político de completa desagregação. Ou seja, está tornando realidade o cenário dos sonhos que nem mesmo a direita, em seus maiores delírios, supunha possível. Nessas condições, já não basta um cavalo-de-pau na economia. Será necessário um cavalo-de-pau também na política, de modo a reorganizar as forças democráticas e populares.

 

Já que não é o PT que dirige o governo Dilma, à presidenta caberia reorganizar seu governo com um programa de redução dos juros para a retomada dos investimentos produtivos (internos e externos); combate à inflação através do aumento da oferta; e aumento da competitividade dos manufaturados brasileiros através da administração do câmbio. Se houver dúvidas quanto à aprovação popular a um programa desse tipo, valeria a pena tentar um referendo democrático à la grega.

 

Na política, caberia ao PT tomar a iniciativa de reorganizar as forças democráticas e populares. Ela deveria começar por uma autocrítica consistente de seus erros relacionados com a aceitação de contribuições empresariais e ser complementada com a proposta de um programa político que contivesse, entre outras coisas, o fim das contribuições empresariais a partidos e campanhas políticas.

 

Como já reiteramos em outras ocasiões, cabe também ao PT chamar os demais partidos e forças democráticas e populares à luta contra a liquidação dos direitos dos trabalhadores e das demais camadas populares, como os atuais ajustes fiscais e os projetos legislativos retrógrados.

 

E cabe ao PT, ainda, abrir a discussão com essas forças para definir a estratégia de reformas estruturais que o país precisa, de modo que a ação unitária não fique restrita às questões relacionadas com a atual ofensiva das forças políticas conservadoras e reacionárias. O Brasil só sairá da atual crise se, além de resolver os problemas econômicos, sociais e políticos imediatos, gestar um projeto de longo prazo, que aproxime a sociedade brasileira de um sistema econômico, social e político não apenas formalmente democrático, mas democrática e socialmente participativo na economia e na política.

 


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Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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