A arte da tática no momento atual

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Aos poucos, as diferentes correntes da esquerda, presentes no cenário nacional, vão se dando conta de que foram atiradas na defensiva política, tenham ou não participado dos erros e desvios do PT e do governo. Embora o PT seja o alvo principal da ofensiva retrógrada da direita política, as medidas em curso pretendem triturar não só ele, mas também todos os demais partidos e organizações da esquerda.

 

Com isso, objetivam liquidar os direitos dos trabalhadores e demais camadas populares, impor reformas antidemocráticas, retomar o caminho neoliberal na economia, liquidar com a política de integração regional sul-americana e retornar à subordinação incondicional às políticas das grandes potências capitalistas, em especial dos Estados Unidos.

 

Enfrentar tal ofensiva, sair da defensiva política e passar à contraofensiva não é algo fácil de ser levado adiante. Ainda mais na esdrúxula situação em que parte da esquerda está no governo e parece decidida a capitular. O que obriga a maior parte do PT e da esquerda a defender o governo contra os diferentes tipos de golpe institucional, tramados e tentados pela direita para encurtar o mandato presidencial.

 

Ou seja, independentemente dos desvios que a esquerda no governo esteja praticando, não é possível fazer concessão a qualquer tipo de golpe institucional. Na prática, tal golpe objetiva, acima de tudo, liquidar os direitos democráticos que o povo brasileiro conquistou duramente desde 1974, obrigando a retirada da ditadura militar, dando-lhe fim em 1985 e instituindo uma Constituição formalmente democrática, em 1988.

 

Nessas condições, a maior parte da esquerda terá que praticar a arte das ações unitárias, caminhando tanto para um programa tático defensivo quanto para um programa estratégico de contraofensiva. Mas é no quadro da defensiva que poderão e deverão ser travadas as lutas contra os ajustes que ferem os direitos sociais dos trabalhadores, promovem desemprego, arrocham salários, sangram programas sociais de moradia, educação e saúde, elevam preços de serviços públicos e estimulam a expropriação do campesinato e dos pequenos produtores agrícolas capitalistas pelo agronegócio.

 

É também no quadro defensivo que poderão ser empreendidas as lutas contra os projetos legislativos que penalizam ainda mais a juventude, em especial a juventude pobre e negra, mantêm a corruptora contribuição empresarial no sistema eleitoral e revogam a legislação que garante à Petrobras as operações dos campos petrolíferos do pré-sal.

 

Dizendo de outro modo, mesmo sem esclarecer as divergências estratégicas, relacionadas com os problemas do desenvolvimento capitalista e com os caminhos para o socialismo, a esquerda terá que adotar táticas unitárias para deter a ofensiva retrograda quanto às reformas política, agrária, urbana, tributária, logística, educacional, no sistema de saúde, ambiental e outras.

 

Terá que recuar da diversidade de propostas englobando todos os aspectos de cada uma delas, levar em conta a atual correlação de forças e definir os pontos chaves que barrem os objetivos da direita, unifiquem a ação prática da esquerda e possam mobilizar grandes contingentes populares.

 

Por exemplo, na reforma política, a questão chave reside na proibição ou não das contribuições empresariais, tanto a partidos quanto a candidatos. Essa questão é decisiva na disputa política democrática atual, não só porque tem grande apelo social, mas também porque pode desmascarar a hipocrisia da direita em relação ao combate à corrupção e porque pode contribuir para que o PT e outros partidos da esquerda não mais se deixem envolver pelos métodos comuns à burguesia. Portanto, é em torno dela que as esquerdas precisam marchar unitariamente.

 

Outro exemplo: na reforma agrária, no momento a questão chave capaz de sensibilizar as grandes populações urbanas (84% da população brasileira) e mobilizar as populações rurais consiste em elevar a produção de alimentos para o mercado doméstico e baixar seus custos.

 

Em função disso, a luta pela aceleração dos assentamentos de sem terra, combinada à ampliação dos financiamentos de safra e à assistência técnica para os camponeses e pequenos capitalistas agrícolas, atende àquela questão chave. Pode, então, criar um importante movimento urbano em apoio aos lavradores e contribuir para uma aliança real entre os trabalhadores urbanos e rurais.

 

Se a esquerda pretende barrar a ofensiva retrógrada da direita, terá que exercitar a arte da tática, segundo a qual, em cada momento, é preciso tomar apenas um ou alguns poucos pontos como prioritários, cuja conquista resulte em acumulação de forças e avanços reais. E será no exercício prático das táticas, no contexto da atual defensiva, que ela poderá encontrar os pontos estratégicos convergentes e praticar um programa e uma frente comuns para sair da defensiva e passar à contraofensiva.

 

Esses pontos estratégicos terão de ser buscados na história brasileira, história que tem sido cheia de surpresas. É provável que as lutas pela independência, nas primeiras décadas de 1800, tenham sido a primeira manifestação da existência de um novo povo, o brasileiro. De lá para cá, esse povo conviveu ainda com o escravismo e a monarquia, por quase um século. Depois, com a agregação latifundiária e a oligarquia agrária republicana, por cerca de meio século. Conheceu uma ditadura civil-militar por uma década, e uma ditadura militar apoiada pela burguesia civil por duas décadas, ambas entremeadas por breves períodos formalmente democráticos que não chegaram a somar duas décadas.

 

Num paradoxo histórico, o acúmulo das práticas ditatoriais, abertas ou camufladas, conduziu a um processo de ampliação democrática, a partir de 1985, que permitiu ao povo brasileiro, pela primeira vez, eleger representantes da esquerda, incluindo socialistas e comunistas, não só para os parlamentos locais e nacional, mas também para os governos locais e nacional. E levar um líder de origem operária à presidência da República.

 

Essa evolução histórica colocou a esquerda diante de novos desafios. Desafios que se tornaram ainda maiores à medida que a grande burguesia, e parcelas significativas das média e pequena burguesias, operam para impor um retrocesso ao povo brasileiro, e em que as questões democráticas e socialistas ganham vulto estratégico.

 

Assim, mais difícil e complexa do que a ação defensiva unitária contra a ofensiva da direita talvez seja a construção de um projeto estratégico unitário, projeto que congregue as classes trabalhadoras, conquiste parte significativa da pequena-burguesia e divida a burguesia para poder passar à contraofensiva contra os inimigos principais.

 

De qualquer modo, no momento atual, trata-se principalmente de enfrentar com sucesso a ofensiva da direita, desnudando sua verdadeira natureza antidemocrática e antipopular, e apresentando alternativas reais e viáveis, tanto no campo político, quanto nos campos econômico e social. Na prática, esse é um desafio idêntico ao que a esquerda enfrentou entre 1960 e 1964, e não conseguiu sucesso por falhar em sua ação unitária. Os resultados são conhecidos. Espera-se que essa lição sirva para a esquerda atual.

 

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista política.

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