Repetindo verdades

 

 

Há muito se repetem as críticas ao PT quanto à necessidade dele retomar seu papel hegemônico na esquerda brasileira, mudando sua estratégia política, seus métodos de organização e de funcionamento interno, seu estilo de trabalho e suas relações com o governo federal e com os governos estaduais e municipais que formalmente dirige.

 

A maioria da direção do PT, no entanto, sempre fez ouvidos de mercador a tais críticas e sugestões correspondentes, que não são individuais. Críticas idênticas têm sido veiculadas, também há muito tempo, por dirigentes e militantes do PT, das mais diversas correntes internas. Não é novidade que a atual direção petista até critica fatos do passado, mas não discute o presente, embora prometa mudanças para o futuro, sem indicar quais serão.

 

A novidade da semana é que a tais críticos se juntou ninguém menos do que o próprio Lula. Sem poupar ninguém, como publicaram os jornais, o principal líder do PT generalizou as bordoadas ao afirmar que “os petistas só pensam em cargos, em empregos e em serem eleitos”, o que pode ser verdade para alguns, mas não para a maioria dos petistas.

 

Lula também cunhou uma imagem forte, baseado na condição real dos reservatórios de água de São Paulo, sobre a situação em que ele, Dilma e o PT se encontram. Segundo ele, Dilma e ele estariam no “volume morto”, enquanto o PT já estaria “abaixo” desse volume. Para ser franco, Lula reconheceu o que muitos petistas já falavam há muito tempo. Para esses petistas, que quase se cansaram de chamar atenção para a tragédia que ronda o PT, não é novidade que seus companheiros no governo parecem um bando de cegos, surdos e mudos, que Dilma não viaja pelo país e não sabe falar para o povão e que a inatividade do governo é evidente.

 

Lula também reconhece que o problema principal reside no PT. No entanto, parece acreditar que a recuperação do partido depende do governo, que teria melhores meios para isso, através de realizações, inaugurações, e da discussão política, com seus ministros viajando e indo para a rua. Porém, talvez não tenha levado em conta que a discussão política de hoje, nas ruas, na imprensa, e em qualquer canto desse país, consiste em falar sobre desemprego, juros altos, custo de vida em elevação, corte de verbas na educação e na saúde (que teriam se tornado um “caos”, segundo a grande imprensa) falta de investimentos em transportes públicos, saneamento etc. etc. etc. E corrupção, corrupção, corrupção.

 

Bem vistas as coisas, o que Dilma e seus ministros têm a falar nas ruas? Repetir o que o ministro Levy fala o tempo todo? Isto é: “o ajuste é para retomar o crescimento”. Ou eles têm outro caminho a propor e não pretendem arriscar o cargo, a exemplo do ex-ministro Cid Gomes?

 

A única maneira de recuperar as ruas e travar o debate político consiste em discutir como realizar um cavalo de pau no atual plano econômico do governo e retomar o caminho do desenvolvimento. Somente dessa forma será possível transformar não só a Educação, mas também a Saúde, o Saneamento, o Transporte Urbano e Suburbano, a Agricultura Alimentar, a Moradia, os Salários e outras coisas hoje reclamadas abertamente pelo povão, como pontos fortes no debate político.

 

Além disso, tem algo do necessário debate político que não depende do governo, que é a discussão sobre corrupção. Lula tem razão em dizer que essa é uma discussão eminentemente política, pois se trata de retomar a prática petista antiga de ser contra, em tese e na prática, as contribuições de empresas privadas ao partido, mesmo que legalmente tais contribuições possam ser aceitas. Se o PT não tomar decisões fortes a respeito, não reconhecer que caiu na tentação legal de receber tais contribuições, criando condições para que alguns dirigentes e militantes as aceitassem sem verificar sua origem, ou mesmo se utilizassem de sua influência para que elas fossem realizadas, tudo o mais que fizer parecerá hipocrisia pura.

 

É evidente que o “mensalão” foi uma invenção. Se a compra de votos parlamentares tivesse realmente existido, o STF teria o dever de ter cassado a maior parte dos mandatos parlamentares, já que todos os projetos do governo aprovados pelo parlamento teriam que ser enquadrados no referido “crime”. No entanto, essa aberração jurídica e também política ocorreu porque o sistema de captação de recursos empresariais para as campanhas eleitorais do PT, imitando o que ocorria na maior parte dos demais partidos, transformou-se num negócio escuso.

 

Assim, mesmo que nenhum dos condenados no “mensalão” tenha captado recursos para enriquecimento próprio, a aceitação do método “negocial” há muito utilizado pelos políticos da burguesia foi um erro político grave, que criou uma crise institucional e abriu uma brecha enorme para ataques ao PT. Brecha que continuou crescendo à medida que a direção do partido não teve a coragem necessária para proibir que tal prática, embora legal, continuasse.

 

Embora Lula não haja aproveitado o quinto congresso do PT para dizer as verdades há muito repetidas por grande parte da militância petista, é positivo que tenha, com sua autoridade política, colocado o dedo nas feridas que estão sangrando o PT e o governo. É quase certo que quem quer ver o PT retomar suas antigas bandeiras de luta espera que Lula não pare por aí. Faz bem repetir verdades.

 

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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