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O futuro dos direitos humanos será decidido na Palestina Imprimir E-mail
Escrito por Mariana Parra   
Sexta, 26 de Junho de 2015
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Essa frase pode parecer um grande exagero, ou mesmo fruto de algum exclusivismo ou miopia diante de tantos conflitos e situações de massivas violações aos direitos humanos pelo mundo. Definitivamente, não é a intenção, pelo contrário. O sentido da frase se esclarece ao refletirmos sobre a situação dos palestinos, Israel e seu significado para o mundo atualmente.

 

"A Palestina está liquidada"

 

Essa frase foi dita por um professor da Universidade de Tel Aviv (1), defensor dos direitos dos palestinos, mas que tem um conhecimento bastante profundo sobre a situação, e, assim, com um realismo que chega a doer. Embora os palestinos tenham ganhado a batalha moral (com considerável vantagem), algo simbolizado pelo alcance da campanha de BDS (sigla para Boicote, Desinvestimento e Sanções), que ganha espaço e adeptos a cada dia, o poder material de Israel e o apoio quase incondicional dos Estados Unidos garantem a sobrevivência desse Estado e de suas políticas de limpeza étnica e apartheid.

 

O objetivo de Israel é bastante claro para qualquer pessoa que conhece a situação: acabar com a Palestina. A expansão da colonização sobre os territórios da Cisjordânia e os ataques cada vez mais brutais e aniquiladores à Gaza não deixam dúvidas, apenas não vê quem insiste em se manter cego diante da situação.

 

Nesse cenário, pessoas 'realistas', como o professor citado acima, já enfocam a questão no status que os palestinos terão dentro do Estado de Israel, em como essa minoria (ou metade da população) será tratada dentro deste Estado de caráter judaico, que busca manter a hegemonia do projeto sionista. Embora ele próprio apoie o movimento pelo reconhecimento do Estado da Palestina, ao tratar sinceramente sobre a questão admite que a solução de dois Estados é uma ilusão morta há muito tempo.

 

Os descendentes de palestinos que são cidadãos em Israel já compõem uma importante parcela da população israelense, cerca de 20%, e são tratados em muitos casos como cidadãos de segunda classe, com constantes desapropriações, políticas segregacionistas e violência policial, além de prisões arbitrárias e repressão brutal a protestos. O número de árabes israelenses (como são chamados pelo governo de Israel) é motivo de constante preocupação a um Estado que busca de todas as formas manter seu caráter (e uma maioria) judaica. Esses elementos dão uma ideia de qual futuro espera possivelmente a totalidade do povo palestino.

 

Em tal condição, é sempre bom lembrar dos quase 2 milhões de refugiados palestinos, que têm seu direito ao retorno sistematicamente negado. Em muitas ocasiões, incluindo em diversos 'acordos de paz' realizados para solucionar o conflito, até mesmo a existência destes eternos refugiados foi negada (2).

 

Como apontado por diversos estudiosos da situação, Israel guarda grande semelhança com as potências coloniais da era do imperialismo, que ocuparam territórios dominando ou em muitos casos aniquilaram populações autóctones inteiras. Israel é um Estado colonizador que empreende uma limpeza étnica e políticas de apartheid, numa era em que essas práticas não são mais consideradas aceitáveis, numa era em que, ao menos em teoria, os direitos humanos e a autodeterminação dos povos são bases amplamente aceitas (embora, quase via de regra, violadas).

 

É fato que diversos países mantêm, na prática, políticas segregacionistas, ou mesmo genocidas, contra minorias étnicas, como Mianmar em relação aos Rohingya e a Indonésia à Papua Ocidental. Tribos indígenas sofrem a ameaça de aniquilação em várias partes do planeta, nas Américas, na África, na Ásia, no que parece ser o limite da expansão do sistema capitalista e sua superexploração do ser humano e da Natureza.

 

O conflito entre Israel e Palestina e o futuro dos palestinos guarda um importante simbolismo, nesse contexto, por sua situação histórica e política. Israel é, em grande medida, uma criação do Ocidente (que por enquanto mantém sua hegemonia no mundo), tanto pelos fatos trágicos e terríveis por trás do nascimento do nacionalismo sionista (da perseguição histórica aos judeus na Europa ao Holocausto), quanto pelo apoio a esse projeto pela Europa (com sua culpa histórica) e posteriormente pelos Estados Unidos.

 

Se o mesmo Ocidente fechar o ciclo e aceitar incondicionalmente o Estado de Israel e a aniquilação da Palestina, tal situação representaria oficialmente o fim dos direitos humanos. Pode parecer catastrofismo, mas alguns estudiosos já vêm trabalhando com esse cenário. Por mais que cause náuseas para ativistas de direitos humanos tratar da grave situação global com esse tipo de realismo (como é para mim mesma), é uma realidade e um debate que precisam ser encarados.

 

Se os diversos casos de inação ou mesmo conivência da comunidade internacional com situações de massivas violações aos direitos humanos demonstram a fragilidade dessa tentativa de estabelecimento de uma base ética comum e de limites à violência e à opressão, e que estes direitos mal saíram do papel desde sua criação e com todo o desenvolvimento normativo ao longo dos últimos anos, a consolidação do Estado de Israel sobre a aniquilação da Palestina, e seu reconhecimento e aceitação na comunidade de Estados, seria a concretização do fim dos direitos humanos, mesmo que em termos puramente formais.

 

Evidentemente, é necessário muito cuidado ao tratarmos sobre previsões e projeções para o futuro, sob o risco de cairmos em futurologia ou achismos que não levam a lugar algum. Mas, neste caso, estamos lidando com um futuro que se desenha de forma clara, não podemos fechar os olhos para a realidade objetiva do conflito entre Israel e Palestina, para os discursos políticos que deixam claro quais são os objetivos de Israel e para a opinião pública israelense, que apoiou majoritariamente a última ofensiva genocida à Gaza (e não há muita dúvida de que se manterá como base para o projeto de aniquilação da Palestina).

 

Embora sejam motivo de muita esperança, os movimentos de solidariedade à Palestina em todo o mundo e, principalmente, os movimentos judaicos de paz e solidariedade, com seu crescimento e fortalecimento, também dão uma ideia sobre a gravidade da situação; demonstram que diante de uma situação extrema é necessário fazer escolhas, assumir uma posição e responsabilidades.

 

O Jewish Voice for Peace, atualmente um dos maiores movimentos judaicos pela paz, é composto principalmente pela comunidade judaica dos Estados Unidos e tem entre suas lideranças pessoas da comunidade que apoiavam e faziam parte do lobby sionista no passado. Pessoas que romperam com amigos e família para assumir uma posição de fato pela paz e pelos direitos humanos dos palestinos. Essas pessoas e movimentos são pontos de esperança, mas atualmente não é possível prever se conseguirão derrotar o consenso e a hegemonia do projeto sionista.

 

Aos que ainda ficam com dúvidas e classificam como 'polêmicas' as campanhas e ações no contexto da campanha internacional de BDS, como por exemplo aquela pelo cancelamento do show de Caetano Veloso e Gilberto Gil em Israel, talvez essa perspectiva do simbolismo da situação dos palestinos no mundo de hoje possa servir para esclarecer e tirar a nuvem de dúvidas e desconhecimento (algo bastante incompreensível do meu ponto de vista. Talvez as pessoas busquem esquecer os fatos que diariamente aparecem nas notícias, todo o horror e brutalidade, impossíveis de se esconder, da última ofensiva à Gaza, realizada a menos de um ano).

 

Um médico norueguês que prestou socorro às vítimas dos ataques à Gaza afirmou que o coração do mundo batia em Gaza naquele momento. Novamente, a intenção não é colocar os direitos e a vida dos palestinos acima dos direitos e da vida de milhões de pessoas que sofrem com o flagelo dos conflitos, da violência e da opressão pelo mundo. Os palestinos são, ao contrário, símbolo de todos os condenados de uma ordem global em que o direito, a paz e a solidariedade parecem estar sendo esquecidos de vez.

 

Se Gilberto Gil e Caetano Veloso de fato não ouvirem os clamores pelo cancelamento do show em Israel, pelos direitos dos palestinos, e de todos nós, cantarão para esse futuro sombrio em que a deterioração dos direitos humanos será um fato consumado e oficialmente reconhecido.

 

Notas:

1) Mantenho a identidade do professor oculta para preservar sua privacidade, já que essa frase foi dita em conversas informais, durante um encontro acadêmico.

2) É fato conhecido aos que têm familiaridade com o tema que existe uma organização exclusiva da ONU para dar assistência aos refugiados palestinos, a UNRWA. Essa organização foi criada principalmente por pressão de Israel, já que a Acnur, agência da ONU que cuida dos refugiados no mundo todo, busca assegurar o direito de retorno aos refugiados após o fim dos conflitos, algo sistematicamente negado aos refugiados palestinos, apesar desse direito ter sido reafirmado diversas vezes em resoluções da Assembleia Geral da ONU.

 

 

Leia também:

‘O Hamas é o pretexto da vez para a limpeza étnica e expansão territorial iniciadas em 1948’ – entrevista com Hasan Zarif, do Movimento Palestina Para Todos(as).

 

Mariana Parra é doutoranda em Direitos Humanos pela Universidad de Deusto, Bilbao.

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Última atualização em Sexta, 03 de Julho de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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