Vazio Espiritual

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Assistir a um jogo da seleção brasileira virou um desses programas cuja utilidade se torna cada dia mais insondável.

 

Aquilo que veste amarelo e aparece na nossa tela já não desperta nenhuma emoção e seus insucessos, na verdade, não abalam ninguém – inclusive em Copa do Mundo, a despeito da comoção despertada pelo eterno 7 a 1.

 

Ao lado do dunguismo redivivo e seu “resultadismo” doentio, tudo se torna ainda mais sem sentido.

 

E é nesse vazio espiritual que caminha o saudoso escrete, numa desorientada busca pelo que um dia foi, ainda que não se faça nenhuma reflexão sobre como retomar o caminho que nos consagrou mundialmente.

 

É assim a cada vez que, não sei como, me sento em frente à TV para mais 90 minutos de “pátria de chuteiras”. Com a expectativa e o encantamento abaixo de zero.

 

Nessa Copa América, “ninguém é de ninguém”, como gostava de falar Silvio Luiz em suas transmissões. Finda a primeira fase, vimos que todos os jogos são parelhos e todos os times podem complicar adversários mais cotados.

 

Na partida contra a Venezuela, não foi diferente. E sem Neymar – nova vítima do punitivismo moralista dos desafetos do FBI – não há possibilidade de melhoras.

 

A verdade é que nossos jogadores, ainda que bem qualificados no cenário atual, não apresentam atributos, especialmente coletivos, para “amassar” um adversário mediano ou mesmo fraquinho.

 

Após a derrota para a Colômbia, Ricardo Fernandéz, amigo peruano e jornalista, veio me reportar sua impressão sobre o time: “vulgar”, “paupérrimo”. Após o jogo de ontem, outro colega, chileno que presenciou o 2 a 1 no belo Estadio Monumental, veio demonstrar seu espanto e até indignação com as mesmas características descritas pelo primeiro.

 

Com certa preguiça de explicar como o sentimento não existe mais, que deixamos de nos importar, não nos sentimos representados, apenas vou assentindo, dizendo ser um tremendo equívoco recolocar Dunga, que não deveríamos jogar apenas pelo resultado etc. e tal.

 

Quase em tom de desculpas, lamentei o amistoso recente entre ambos, em Londres, marcado pela violência brasileira em uma mera partida preparatória.

 

Provavelmente, isso se repetirá por bastante tempo.

 

Para abrir o placar, uma bola aérea aproveitada por um zagueiro, como quase sempre necessitamos. Depois, poucas jogadas criadas pelos meias, até habilidosos, mas nada similares aos craques que sobravam até 10 anos atrás, além da tímida chegada de outros jogadores que poderiam participar mais com a bola.

 

Depois, o espasmo de William e o gol de Firmino, talvez o grande símbolo da coisa pouco identificável que viramos. No geral, um jogo de faltas, contra-ataques e cautela pelo resultado.

 

Isso contra uma Venezuela, que melhorou, mas ainda é a décima força do continente sudaca. E que apesar do progresso não revela muita gente, tanto que jogadores longevos como Arango, Cichero e Vizcarrondo seguem como peças fundamentais.

 

A questão é: não somos mais uma escola de futebol e, no duro, ninguém está pensando no que poderia ser feito para voltarmos a ser.

 

Nesse sentido, ainda bem que se perdeu a final do Mundial sub-20. Não assisti aos jogos, mas dada a pobreza do Sul-americano e a ausência de comentários auspiciosos só pode ter reproduzido o atual vazio técnico e filosófico – aliás, o comando fora trocado às vésperas da competição, o que só reforça a ideia de quão enganoso seria o título.

 

Afinal, algum jogador do elenco que viajou à Nova Zelândia causa furor no público ou na própria torcida de seu clube? Parece que não. Sei que um moleque de quem nunca ouvira falar já renovou seu contrato... com o Manchester United.

 

Voltando a Santiago, a vaga às quartas foi carimbada. Mediocremente. Mas o bastante para se adquirir o direito de uma revanche contra o Paraguai, algoz de 2011.

 

Veremos toda uma crônica e público novamente malhar o time, ao mesmo tempo em que não dormirão mais felizes da vida se, por acaso, houver uma exibição de gala seguida de goleada.

 

Essa é a quadra histórica da seleção. Seu valor hoje em dia é questionável pelo exato motivo de despertar sentimentos cada vez mais frígidos em sua gente.

 

Perder jogadores para a amarelinha irrita o torcedor, suas más partidas viram galhofa e não se discute seriamente o que seria, de fato, o tal “resgate” da camisa. E se por acaso pintar uma tacinha no contra-ataque ou na bola aérea virá o oba-oba da maior parte da mídia e dos comerciantes do jogo.

 

Antes de se preocupar com o próximo desafio, é preciso perguntar se ainda vale a pena, porque pequena a alma já está.

 

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Coincidências separadas por um ano

 


Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania e colaborador da webrádio Central3.

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