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Não sou branco, sou lusodescendente Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
Qui, 25 de Junho de 2015
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A 14 de maio deste ano vi, na GloboNews, a entrevista concedida por Alberto da Costa e Silva, nosso maior especialista em África, a Miriam Leitão. Notei esta disparidade: o entrevistado utilizava sempre a palavra “negros”, enquanto a jornalista dizia “afrodescendentes” ao se referir à parcela da população brasileira derivada de africanos, como é o meu caso (embora não aparente).

 

Sempre impliquei com a expressão “afrodescendente” ou “afrobrasileiro”. Simples: nunca ninguém me chamou de “eurodescendente” ou “iberodescendente” ou “lusodescendente”.

 

Eufemismos servem, em geral, para tentar encobrir preconceitos. Lembro da tia que se referia à cozinheira como “aquela moça escurinha”...

 

Caso similar é o vocábulo “velhos”, para se referir a idosos. Sou um deles. E abomino essa mentira eufemística de “melhor idade” ou “terceira idade”. A usar eufemismo, prefiro ser chamado de “seminovo”, como os carros velhos expostos em revendedoras de veículos. E me sinto na turma da “eterna idade”, já que cronologicamente estou mais próximo dela...

 

Não há palavras neutras, há quem ignore o significado e a carga simbólica que elas contêm.

 

Afrodescendente é expressão usamericana criada para deixar claro que os negros dos EUA não são naturais do país. São imigrantes e filhos de imigrantes, gente “de fora”, lá da longínqua e atrasada África. E ali são tolerados, desde que reconheçam que não são iguais aos ianques, são seres inferiores, sub-raça. Diga-se de passagem que os EUA batem o  recorde mundial de prisioneiros: 2,3 milhões, dos quais 1,5 milhão são negros.

 

Baseado em Galeano (que se inspirou em Senghor), registro esta parábola: o professor chamou o aluno negro de "moço de cor". Este não se fez de rogado: "professor, de cor são o senhor e meus colegas. Nasceram rosados, ficaram brancos, adquirem pele vermelha quando se expõem na praia; tostada, quando se queimam ao sol; amarela, quando têm hepatite; e roxa, quando falecem. E eu é que sou de cor?”

 

O preconceito avança vocabulário adentro: “denegrir” significa “enegrecer”, rebaixar uma pessoa à condição de negro.

 

Isso não quer dizer que eu defenda o “politicamente correto”. Quando não se vê horizonte na conjuntura, como hoje no Brasil, admito que a situação “está preta”, ou seja, no escuro nada se enxerga. E considero patrimônio nacional a canção de Rubens Soares e David Nasser: “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”

 

Pena que os negros, ao menos aqui no Brasil, não deem o troco devido aos brancos. Jean Genet, em uma de suas peças teatrais, faz o ator negro cessar os movimentos no palco, encarar a plateia francesa e exclamar: “Que cheiro horrível! Cheiro azedo de branco!”

 

No Brasil, a discriminação racial se disfarça pelo fato de a maioria negra ainda ser pobre. Sonho com o dia em que ninguém será identificado pela cor da pele. Pois a biologia já provou que não existem raças. Existem apenas diferenças de coloração epidérmica. Somos todos seres humanos intrinsecamente dotados de dignidade e sacralidade.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

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