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Zeferino Vaz: um Reitor de direita que protegia as esquerdas? (2) Imprimir E-mail
Escrito por Caio N. de Toledo   
Qui, 25 de Junho de 2015
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É um monstro. Ou melhor, é um autêntico comunista”. Zeferino Vaz

 

Agradeço a Telma Murari, eficiente funcionária da Unicamp, por ter facilitado a consulta de documentos do Sistema de Arquivos (Siarq) dessa universidade. Igualmente, sou grato a Arley Ramos Moreno, Danilo Martuscelli, Heloisa Fernandes, Lalo Minto, Ronaldo Simões Gomes (Batata) e Patrícia Vieira Trópia por comentários feitos ao texto; obviamente, não têm eles qualquer responsabilidade pelos equívocos de interpretação e juízos presentes no artigo.

III -  Um tenaz escudeiro da Unicamp?

 

 

 

1. O reitor de direita que protegia a esquerda?

 

Tal como a crônica jornalística propaga sobre duas destacadas lideranças de direita no Brasil – Roberto Marinho (O Globo) e Júlio de Mesquita Filho (O Estadão) –, é também um lugar comum na Unicamp a afirmação de que o Reitor Zeferino Vaz “cuidava bem de seus comunistas”; ou seja, não permitia que estudantes e docentes de esquerda fossem atingidos pela repressão da ditadura militar.

 

Conta-se que durante uma visita de Eric Hobsbawm à Universidade, o Reitor virou-se para o historiador marxista e pilheriou: “Está vendo aqueles rapazes ali? São todos comunistas, mas vou dizer uma coisa a você: sabem trabalhar” (1). Em outros momentos, advertia que os docentes de esquerda estavam alertados de que não deviam utilizar as atividades acadêmicas para fazer proselitismo político e ideológico. Em 1978, logo após seu afastamento da Unicamp, numa entrevista esclareceu: “não admito que nenhum professor utilize a sua cátedra para pregar ideologia extremista, porque isto é covardia” (2).

 

Vários depoimentos relatam a contratação pela Unicamp, em plena ditadura militar, de docentes brasileiros e da América Latina de orientação de esquerda (3).  É também sempre lembrado o caso de cinco estudantes expulsos do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – punidos pelo Decreto-Lei 477 – que foram acolhidos de braços abertos pelo Instituto de Física da Universidade.

 

Outro episódio bastante difundido foi o da visita feita pelo Reitor, em 1968, a estudantes da Unicamp presos após o malogrado XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo; na ocasião, como alardeou, levou “cigarros e chocolate” aos presos. No depoimento de Ripper Filho à CVMOI foi informado que o Reitor impediu o SNI de efetivar a prisão, dentro do campus, de docente do Instituto de Biologia; igualmente, providenciou um advogado militar para fazer a defesa do professor acusado de subversão (4).

 

Em 1975, igualmente, atendendo aos apelos de setores da comunidade acadêmica, visitou um jovem professor de história do IFCH que sofria brutais torturas no DOI-Codi; com esta visita foi quebrado o regime de incomunicabilidade imposto, até então, ao prof. Ademir Gebara. É forçoso, pois, reconhecer que nenhum Reitor brasileiro, em plena ditadura militar, teve iniciativas semelhantes às de Zeferino Vaz.

 

Desses fatos podemos então concluir que o fundador da Unicamp teria sido um firme escudeiro de sua comunidade, defendendo-a intransigentemente das ameaças e arbítrios dos governos militares? (5).

 

Sua “figura contraditória” – como é um truísmo afirmar das “personalidades complexas” – consistiria então no fato de que as convicções de direita em nada comprometeram a isenção ideológica e política enquanto Reitor da Unicamp?

 

A fim de responder, de forma consistente e consequente, as questões acima, alguns episódios devem ser examinados (6).

 

a) Pelo fato de ter relações com a Aliança Libertadora Nacional (ALN), embora não estivesse envolvido diretamente com a luta armada, o aluno da Unicamp Alcides Mamizuka, em 1969, foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Como relata O Mandarim, o estudante – que sofreu brutais torturas – não recebeu da Reitoria da Unicamp nenhuma visita de “conforto moral” nem ganhou “cigarros ou chocolates”. Anos depois, já em liberdade, o estudante pretendeu reingressar no curso de Instituto de Tecnologia de Alimentos. O Reitor, no entanto, não apenas recusou conceder uma audiência ao aluno como indeferiu seu recurso, obrigando-o a prestar um novo vestibular. Por sua vez, Luiz Antônio Vasconcelos (Vasco), estudante do Instituto de Economia – acusado também de integrar a ALN –, foi igualmente detido em 1971. Desta feita, os apelos da comunidade acadêmica não sensibilizaram o Reitor a fim de interceder pelo estudante junto aos seus algozes. Segundo O Mandarim, durante os 47 dias em que Vasco esteve detido no DOI-Codi e Dops, “Zeferino não moveu um dedo”;

 

b) Buscando apurar as responsabilidades de um trote estudantil nas ruas do centro de Campinas – em 1970, que teria desagradado setores da família campineira –, Vaz impôs a abertura de uma sindicância e exigiu que o Conselho Diretor punisse os eventuais culpados. A rigor, os estudantes não tinham protagonizado cenas de violência física, apenas “atentados aos bons costumes” (7).  Diante da impossibilidade de os responsáveis serem identificados, o Reitor – certamente, amparado no Decreto-Lei 477 – suspendeu por seis meses quatro lideranças estudantis da Unicamp (8).

 

c) Em depoimento à CVMOI da Unicamp, o ex-estudante Ronaldo Simões – conhecido na Unicamp pelo apelido de Batata – relatou que, no segundo semestre de 1975, quatro alunos (2 representantes dos estudantes no Conselho Diretor e 2 suplentes) foram intimados a comparecer ao Comando do Exército de Campinas a fim de prestar esclarecimentos sobre “agitações políticas” no campus e fora dele (9). Além das ameaças sofridas, foram também pressionados a participar de uma recepção ao então candidato à presidência da República, Ernesto Geisel, programada para a sede da prefeitura da cidade. No entanto, nenhum deles compareceu, pois um plebiscito – convocado pelos estudantes para decidir se deveriam aceitar o “convite” – rejeitou maciçamente a exigência dos militares. Neste episódio, a Reitoria não tomou nenhuma iniciativa para proteger os estudantes da arbitrária coação que sofreram do comando do Exército. Ficou evidente que os militares exigiram e o Reitor consentiu;

 

d) Um qualificado dirigente da Unicamp igualmente foi intimado a comparecer, com a anuência da Reitoria, a uma dependência do Exército de Campinas. Por ter aprovado a contratação de Nelson Rodrigues dos Santos (Nelsão), médico vinculado ao PCB, e renovado o contrato de Sérgio Arouca, o Diretor da FCM, José Aristodemo Pinotti viveu uma situação constrangedora; por mais de 24 horas permaneceu isolado numa sala do Batalhão de Infantaria Blindada de Campinas aguardando ser ouvido pelo comandante. De forma insolente, o oficial – que o intimou a depor – acabou não recebendo o Diretor da FCM; após a longa e inútil espera, um ajudante de ordens foi o portador de uma advertência ao prof. Pinotti: que ele desistisse de contratar o “médico comunista”. Reconheça-se que o Reitor não demitiu os docentes de esquerda, mas, igualmente, não hipotecou nenhuma solidariedade ao Diretor da FCM pela prisão temporária e agressão moral sofrida;

 

e) Ainda em seu depoimento, Ronaldo Simões relatou o caso da demissão de Roberto Gambini, ocorrida em 1973. Docente do IFCH, Gambini – influenciado pelas experiências do Living Theater e outros grupos teatrais de vanguarda – dirigia sessões de teatro e música dentro e fora do campus que envolviam estudantes e artistas (pop e hippies) da cidade. Queixas moralizantes de famílias campineiras – escandalizadas com os hábitos não ortodoxos do docente – levaram o Comando do Exército de Campinas a intimar Gambini para prestar “esclarecimentos” sobre suas atividades na cidade. Segundo o depoimento de Simões, a Direção da Unicamp teve prévio conhecimento da intimação do Exército, mas, tal como ocorrera com os quatro estudantes, não tomou qualquer iniciativa em defesa do docente, antes e após a arbitrária coação por ele sofrida. Pouco tempo depois, Roberto Gambini pediu demissão da Unicamp;

 

f) Pelo fato de não aceitar ministrar uma disciplina para a qual não havia sido contratado e ter posições discordantes em relação à direção de sua unidade, Rodolpho Caniato – pesquisador na área do ensino da física e astronomia – sofreu reprimendas do Diretor da Faculdade de Educação, prof. Marconi Montezuma. Na entrevista que teve na Reitoria, em 1975, Zeferino Vaz teria alertado: “Olha, pode ser até que os militares perdoem a sua transgressão, mas eu não posso perdoar o seu desacato ao meu diretor. O senhor vai ser mandado embora” (10).  Dias depois, o prof. Rodolpho Caniato foi demitido pelo Reitor da Unicamp.

 

Em janeiro de 1987, em carta à Direção da Faculdade de Educação, o prof. Rubem Alves teve uma inédita iniciativa: propôs que a FE readmitisse o prof. Rodolpho Caniato (11).  Na justificativa de sua proposta, o prof. Alves fez uma grave denúncia:

 

“(...) a Direção da Faculdade de Educação enviou ao então Reitor, Prof. Dr. Zeferino Vaz, um pedido para que o contrato do professor Rodolpho Caniato não fosse renovado. O processo chegou a níveis de tal indignidade que os próprios organismos de ´inteligência´ (SNI) foram acionados pela Universidade, em busca de uma justificativa política (subversão) que justificasse o ato sobre o qual já se havia tomado decisão” (12).

 

Sobre este caso deve-se também destacar um trecho do firme parecer da Comissão de Legislação de Normas da Congregação da FE que aprovou a proposta da readmissão do prof. Rodolpho Caniato:

 

Sem pretender fazer o julgamento da História, entendemos que esta Congregação deve repudiar energicamente e sem ambiguidade atos dessa natureza, praticados ao amparo do arbítrio e do autoritarismo político da época. Se a História caminha para frente, ela não se faz sem a memória do passado” (13).

 

A carta do prof. Rubens Alves e o parecer da Congregação da Faculdade de Educação são testemunhos importantes sobre a presença do arbítrio no seio da comunidade acadêmica. Por sua vez, estes dois documentos talvez sejam, na vida da Unicamp, as primeiras tentativas de ação reparadora a vítimas do arbítrio. Existiriam, nos arquivos da Universidade, outros documentos semelhantes de denúncia de autoritarismo praticados pela sua alta administração?

 

g) O “expurgo na Medicina Preventiva” da FCM.

 

O chamado “expurgo na Medicina Preventiva” consistiu na destruição de uma promissora experiência científica e de elevado alcance social que, nos anos 1970, se desenvolvia na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

 

Um grupo de 18 profissionais ligados à área da saúde pública (estudantes residentes, técnicos e médicos) se articulou em torno da liderança de Antônio Sérgio Arouca (14). Diversas atividades eram realizadas pelo grupo: seminários e grupos de estudos em torno de autores da filosofia e sociologia crítica (Marx, Althusser, Foucault, Gramsci, Florestan Fernandes e outros); debatia-se a estrutura de poder da universidade (as “comissões paritárias”); realizavam atendimento ambulatorial no bairro Jardim das Oliveiras, periferia de Campinas, e na cidade de Paulínia (além das consultas médicas, promoviam-se conversas com os moradores sobre as condições de vida e a situação de saúde que viviam).

 

Em seu depoimento à CVMOI da Unicamp, Anamaria Testa Tambellini relatou que, a partir de 1973, a Direção da FCM – questionando a perspectiva teórica marxista e o engajamento social do grupo – passou a tomar medidas coercitivas contra o coletivo do Departamento de Medicina Preventiva e Social (proibição de reuniões dos docentes com alunos e de encontros com pacientes e suspensão da docência). No ano de 1975, segundo a ex-participante do DPMS, todos os membros – alguns deles vinculados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) – passam a sofrer perseguição política dentro da Unicamp. Ameaças de não-renovação dos contratos na FCM obrigaram os docentes e pesquisadores do grupo a buscar vínculos profissionais com outras instituições de ensino e pesquisa do país. A rigor, não houve registro oficial de demissões feitas pela direção da FCM; no entanto, autênticas “cassações brancas” passaram a ocorrer.

 

Os casos de Sérgio Arouca e Ana Tambellini são elucidativos. Embora tivessem entregado, nos prazos estabelecidos, suas teses de doutoramento à Direção da FCM, os dois foram informados que apenas teriam as datas de defesa definidas após provarem ter vínculos profissionais com outras instituições. Considerada “subversiva” pelos setores conservadores da FCM e guardada a sete chaves na mesa do Reitor, a tese de doutorado de Arouca apenas pôde ser defendida quando ele provou ter sido contratado pela Fiocruz, RJ (15).

 

Na versão de Tambellini, Vaz respaldou inteiramente as pressões da Direção da FCM. Em trecho do Relatório da CMVOI, é afirmado: “Ele (Reitor da Unicamp, CNT) sofria pressão por parte do governo militar e também de parceiros institucionais e financeiros, como a Fundação Rockefeller, que tinha grande influência dentro da Faculdade de Ciências Médicas e da Unicamp” (16). Nesse momento, prestigiosos pesquisadores na área da medicina preventiva de São Paulo fizeram tentativas, junto a Zeferino Vaz, no sentido de convencê-lo a apoiar os pesquisadores liderados por Arouca; em defesa deles, mostravam o caráter pioneiro e a qualidade de suas pesquisas, além da  relevância do trabalho social que realizavam fora da Unicamp. Foram tentativas em vão, pois, segundo o depoimento de Tambellini, Zeferino Vaz, invariavelmente, dizia a seus interlocutores: “com esse grupo eu não negocio”.

 

Interpretando o significado do “expurgo na Medicina Preventiva”, conclui a atual pesquisadora da Fiocruz: “Foi a destruição de uma possibilidade muito rica de trabalho científico e de pensamento sobre serviço de saúde moldada em elementos muito avançados, e que até hoje no SUS não existe” (17).

 

2. Breves questões sobre os episódios relatados.

a) Alguns depoimentos prestados à CVMOI da Unicamp (Ripper Filho e Ronaldo Simões) relatam que a Reitoria contratou militares aposentados, vinculados ao SNI, para ministrar aulas na graduação de “Estudos de Problemas Brasileiros”. Simões (Batata) informa que alguns destes docentes, fora das aulas, abordavam os estudantes sobre suas posições políticas e documentavam suas atividades no campus. A Reitoria também designou um militar aposentado para exercer a direção do Colégio Técnico de Campinas (Cotuca); de forma arbitrária, o Diretor aplicou uma sanção contra estudantes que faziam críticas à ditadura militar;

b) Sobre a enigmática e misteriosa figura do “Doutor Camargo” – antigo delegado do Dops (que, desde os tempos da FMRP-USP acompanhava todos os passos de Zeferino Vaz) –, pouco se conhece. Afinal, quais seriam o papel e as efetivas funções que desempenhava na alta administração da Unicamp? (18)

Ao contrário das universidades federais, está comprovado que na Unicamp nunca existiu uma agência diretamente subordinada ao SNI. Durante a ditadura, não foi criada, pois, uma Assessoria Especial de Serviços de Inteligência (AESI) – que nas universidades federais opinava sobre a contratação de docentes e funcionários, informava o SNI e os diversos órgãos de segurança existentes sobre as atividades “subversivas”, delatava estudantes e funcionários etc.

 

Indagações, pois, se imporiam: nos episódios acima relatados – particularmente, nas intimações do Exército a Gambini e quatro estudantes do Conselho Diretor, no “expurgo da Medicina Preventiva”, na demissão de Caniato e no caso Pinotti –, o ex-delegado do Dops não estaria envolvido, fornecendo e recebendo informações?

 

Tendo em vista que, durante toda a ditadura militar, o movimento estudantil e a mobilização dos docentes sempre estiveram sob a mira e estrito controle dos órgãos de segurança e informação, seria ingênuo imaginar que o Reitor da Unicamp poderia dispensar esses recursos. O leal servidor de Vaz, “Doutor Camargo” (bem relacionado com os órgãos de segurança estadual e federal), não teria desempenhado funções semelhantes àquelas que caracterizavam as AESI´s na USP e universidades federais? (19) Bem relacionado com altas esferas militares, não se pode duvidar que o Reitor da Unicamp detivesse um amplo conhecimento de sua comunidade acadêmica, particularmente das atividades passíveis de serem críticas à ditadura militar.

 

c) Como se deram as relações das Fundações Rockfeller e Kellog com a Unicamp? A exigência de rejeição às ideias e iniciativas de esquerdas – sugerida por estas entidades estadunidenses aos beneficiários de suas ajudas financeiras – não teria influenciado algumas ações do Reitor da Unicamp? O “expurgo da Medicina Preventiva” teria sido um fato excepcional ou o episódio que melhor evidenciou a existência de um efetivo cerceamento de atividades docentes da Unicamp que tinham evidentes implicações sociais e políticas de natureza crítica?

 

IV. Considerações finais.

1. Há um amplo consenso sobre o papel desempenhado por Zeferino Vaz na construção da Unicamp. Docentes de diferentes concepções teóricas e ideológicas (entre estas, conservadores, liberais e progressistas) reconhecem que foi ele, na história do ensino superior brasileiro, o dirigente que mais contribuiu para a criação de instituições universitárias de caráter público em todo o país.

Em relação ao seu estilo de administração – altamente centralizador e, frequentemente, autoritário –, setores conservadores não lhe fazem nenhuma objeção. Apoiam-no irrestritamente. Por sua vez, liberais e progressistas – que assumem no plano do discurso a democracia como um valor insubstituível – fazem reparos às convicções conservadoras e atos arbitrários de Vaz, um autêntico Napoleãozinho (20).  No entanto, deve ser também sublinhado que tais questionamentos chegam a ser praticamente relevados quando, na avaliação da trajetória acadêmico-política, são privilegiados os resultados da “grande obra construída”.

Ao se admitir que práticas democráticas nem sempre são eficazes e “realistas”, os setores liberais e progressistas não estariam endossando o pressuposto de que um estilo autoritário de atuação pode ser razoável, aceitável e legítimo? Neste sentido, ao fim e ao cabo, liberais e progressistas não acabam assumindo a tese de que – em determinadas conjunturas políticas – se deve resignar diante de direções autoritárias que têm caráter inovador e contribuem para o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da cultura?

Embora tenham visões ideologicamente diferenciadas, conservadores, liberais e progressistas da Unicamp parecem coincidir com uma avaliação complacente da trajetória do acadêmico Zeferino Vaz, na medida em que este teria construído uma notável usina de ciência e tecnologia em pleno canavial, mas, como dirigente universitário, nunca cultivou e praticou, de forma consequente, valores democráticos.

2. É também consensual a compreensão de que, diferentemente do que ocorreu em outras universidades (entre elas, USP, UnB, UFRJ e PUC-SP), a Unicamp, durante ditadura militar, teria sido – em matéria de violência institucional – bastante privilegiada: tropas não a invadiram; docentes não foram cassados pelo AI 5; estudantes e funcionários não foram detidos no campus.

Criada em 1966, impõe-se reconhecer que a Unicamp não teve, até o final dos anos 1970, movimentos de docente, estudantil e de funcionários bem organizados e ativamente mobilizados contra a ditadura militar. Havia resistência democrática, mas inexistiam significativos confrontos e duros embates organizados pelas entidades do campus, tal como ocorriam em outras universidades públicas no pós-1964.

Imaginemos, por exemplo, a presença de uma moradia estudantil no campus da Unicamp; a hipótese não é descabida, pois, nos anos 1960, existia na USP um Conjunto Residencial (Crusp) que abrigava algumas centenas de estudantes. Nos primeiros anos da ditadura, o Crusp se constituiu em um ativo espaço de resistência democrática: ações políticas contra o regime, debates e grupos de estudos de orientação socialista eram ali organizados. Não sem razão, o Crusp – uma espécie de “território livre” – era visto pelos órgãos de informação e segurança como um “foco de subversão e baderna”. Como se sabe, logo após a decretação do AI 5, o campus da USP foi invadido pela PM paulista e forças militares; numa autêntica “operação de guerra”, centenas de estudantes foram presos e o Crusp acabou sendo fechado por tempo indeterminado.

Caso a Unicamp, durante a ditadura militar, tivesse uma moradia estudantil com uma dinâmica política semelhante à do Crusp – i. é, um “foco de agitação e subversão” –, seria ela preservada, posto que a autoridade maior do campus zelaria pela defesa da comunidade acadêmica? O Reitor da Unicamp teria condições de negociar com as forças de segurança e garantir a autonomia universitária?

É inegável que, durante os governos militares, a Unicamp não foi cenário de sistemáticos atos de arbítrio e violência. Como explicar isto: pelo fato de a Universidade ter à sua frente um destemido escudeiro? Ou a preservação da integridade da comunidade acadêmica deveria ser explicada, fundamentalmente, pela razão de inexistirem nítidas situações de confrontos políticos entre setores democráticos da universidade e os governos militares?

A este respeito, o “expurgo na Medicina Preventiva” deve ser aqui novamente invocado. Em 1975, por ocasião da “Operação Jacarta”– quando foi desencadeada em todo o país uma ampla caça aos comunistas –, Zeferino Vaz não conseguiu qualquer negociação com seus amigos militares (21).  Dezenove profissionais da saúde – que integravam um inovador grupo de pesquisadores – sofreram autênticas “cassações brancas”; alguns membros desse coletivo da FCM-Unicamp eram acusados de pertencerem aos quadros do PCB e, mais grave ainda, de desenvolverem uma prática médica que ia ao povo e dialogava com ele. Pressionado igualmente por setores internos da Universidade e entidades de fomento estrangeiras, o Reitor aceitou as exigências dos militares e teve responsabilidade direta na exclusão de pesquisadores e docentes da FCM. Registre-se que este fato foi – e continua sendo – praticamente ignorado pelo conjunto da comunidade acadêmica (22).  (Um dos méritos da CVMOI foi – por meio de seu Relatório Final – tornar público este grave episódio ocorrido na Unicamp nos anos 1970.)

 

Razão parece ter Ana Tambellini, pesquisadora que, em 1975, foi vítima de uma “cassação branca” na Unicamp, quando observou: “Ele (Reitor da Unicamp, CNT) deixava todo mundo andar com livro do Marx, podia discutir, mas não podia praticar e nem fazer política”? (23)

3.       Como foi anteriormente esclarecido, a motivação central deste texto é a de mostrar a pertinência intelectual de serem produzidos trabalhos sobre a trajetória acadêmico-política de Zeferino Vaz. Certamente, serão eles importantes para o conhecimento da história intelectual brasileira, particularmente para as pesquisas sobre a questão das instituições de ensino superior do estado de São Paulo. Por outro lado, acreditamos que estudos sobre a trajetória de Zeferino Vaz poderiam contribuir para o conhecimento da atuação de acadêmicos e intelectuais de convicções de direita em tempos de democracia e ditadura.

 

Basicamente, as questões acima alinhavadas são sugestões para a elaboração de pesquisas que contribuam para superar as formulações impressionistas e pouco analíticas sobre a obra e a figura de Zeferino Vaz. Sem desconhecer as qualidades do sagaz e determinado “semeador de instituições”, estou convencido de que a maioria dos testemunhos e depoimentos existentes sobre Vaz é carente de distanciamento crítico (24). Neste sentido, os episódios e fatos acima mencionados – que impõem pesquisas criteriosas e aprofundadas – devem ser vistos como vias de pesquisas para a problematização das formulações acríticas existentes sobre o fundador da Universidade Estadual de Campinas. Afinal, na atividade acadêmica, o pensamento crítico – que rejeita a hagiografia e a iconoclastia infundada – deve ser exercido plenamente, particularmente no enfrentamento de “verdades” consolidadas pelo senso comum.

 

Concluamos. Duas avaliações em franca contradição sobre a obra e trajetória de Zeferino Vaz talvez ilustrem as dificuldades e os desafios que se colocam ao pesquisador.

 

Orientado pelos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, o Relatório da Comissão Anísio Teixeira da Verdade e Memória da Universidade Nacional de Brasília – levando em conta o papel destrutivo que o Reitor-interventor desempenhou nessa universidade – fez uma Recomendação pública questionando um prêmio da Capes que leva o nome de Zeferino Vaz. Para a comunidade acadêmica da UnB, hoje, Zeferino Vaz é uma persona non grata.

 

No entanto, em contraposição a esse juízo, a quase totalidade da comunidade acadêmica da Unicamp – reconhecendo os méritos do grande empreendedor –, provavelmente, jamais tomará qualquer iniciativa pedindo a revogação das homenagens prestadas a Zeferino Vaz.

 

Sine ira et studio deveria ser, pois, a diretriz e orientação intelectuais do pesquisador que se debruçar sobre a trajetória e obra controversas de Zeferino Vaz.

 

Notas:

 

(1) Eustáquio Gomes, op. cit. p. 166.

 

(2)  “Entrevista de Zeferino Vaz”, Os 12 anos da Unicamp, março de 1978, Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Unicamp (SIARQ).

 

(3) Cito os nomes de três docentes da área de “humanidades”: Antonio Candido, Jorge Miglioli e Maurício Tragtenberg. Vaz sempre manifestou admiração pelo socialista Candido (criador, em 1976, do Instituto de Estudos da Linguagem). Jorge Miglioli, marxista vinculado ao PCB, ingressou na Unicamp em 1972, logo após chegar de exílio na Polônia. Por sua vez, Maurício Tragtenberg, contratado em 1975 pela Faculdade de Educação, se declarava um “marxista anarquista”.

 

(4) A identificação do docente e a data do episódio não foram informadas no depoimento à CVMOI.

 

(5) Os depoimentos de Rubens Murillo Marques, Rogério de Cerqueira Leite e José Ripper Filho, concedidos à CVMOI, buscam esclarecer as relações entre Vaz e os militares. Cerqueira Leite fala em “concessões aos militares”, “em jogo”. Ripper Filho fala em “suborno”: “Ele contratava aposentados do SNI como professores titulares de ‘Problemas Brasileiros’, e esses caras davam proteção a ele. Então eu não tenho dúvida, embora não estivesse no Brasil na época, que esse título do Jarbas Passarinho fazia parte desse mesmo esquema, era parte do ‘suborno’, (...) o cara era Ministro da Educação”.

In. Relatório da CVMOI, Unicamp: http://www.comissaoverdade.unicamp.br/

 

(6) Em sua maioria, estes episódios são extraídos do Relatório da CVMOI da Unicamp e O Mandarim.

(7) Sobre o significado do trote na vida universitária brasileira, Zeferino Vaz escreveu, em 1971, um inusitado artigo que teve ampla repercussão junto ao Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras. Para ele, o trote fazia parte das técnicas da “subversão comunista” no meio estudantil: “Verifica-se, pois, que o trote não é momento na vida universitária; transformou-se em um processo, calculadamente desenvolvido, com fins definidos, dentro do esquema global da ação subversiva”. Apud: Rodrigo Patto Motta, “Os olhos do regime militar brasileiro nos campi. As assessorias de segurança e informações das universidades”. Topoi. v. 9, n. 16, jan.-jun. 2008.

 

(8) Em seu depoimento, Batata citou o nome de Ulisses Semeghini como sendo um dos estudantes. Por sua vez, a Diretoria de Assuntos Acadêmicos (DAC) e as Atas do antigo Conselho Diretor não registram nenhum dos fatos acima mencionados.

 

(9) Segundo Batata, os quatro estudantes eram: Maria Inês Pupo (Ciências Sociais), Gustavo Adolfo (Economia), Otávio (Economia) e  “Espanhol” (FEE).

 

(10) Relatório da CVMOI. Cabe aqui um esclarecimento: o “meu Diretor” era um docente que tinha claras afinidades ideológicas com o conservador e centralizador Reitor da Unicamp; por sua vez, a “transgressão” aludida referia-se à expulsão de Caniato da PUC-Campinas, ocorrida após a decretação do AI 5 ou a uma vinculação que o docente tivera com a Associação Cultural Brasil-URSS. Gomes, E., op. cit, p. 159.

 

(11) A digna iniciativa do prof. Rubem Alves, feita 28 anos atrás, antecipou uma Recomendação da CVMOI que propôs a realização na Unicamp de um Ato de Desagravo aos membros da comunidade acadêmica que sofreram violências morais e físicas durante a ditadura militar.

 

(11) Proc. 3260/72, fls. 247, FE, Unicamp, Arquivos do SIARQ, Unicamp.

 

(12) A carta do prof. Alves está no processo funcional de Rodolpho Caniato, Proc. 3260/72, fls. 245, FE-Unicamp; In. Arquivos do SIARQ, Unicamp.

 

(13) Proc. 3260/72, fls. 247, FE, Unicamp, Arquivos do SIARQ, Unicamp.

 

(14) No artigo “O legado de Sérgio Arouca”, Regina Abreu, informa que se tratava do “Grupo de Ciências Sociais da Saúde”. Em suas palavras, “Este Grupo tornou-se referência nacional focalizando a Medicina Preventiva numa abordagem marxista, onde o tema do coletivo e da inclusão social emergiu como palavra de ordem no contexto social e político adverso da ditadura militar”.

http://www.memoriasocial.pro.br/linhas/arouca/desdobramentos/olegado.htm

(15) A defesa pública da tese de doutoramento, diante de um numeroso público, apenas ocorreu em 23 de julho de 1976; a tensão em torno dela foi tal que o presidente da Banca, Miguel Tobar, temeroso, recusou participar da sessão.

 

(16) Durante o depoimento de Tambellini à CMVOI, Maria das Graças Andrade, docente da FCM, ressaltou que, nos anos 1970, a Fundação Kellog – por meio de dois assessores – elaborava relatórios questionando as atividades “subversivas” do grupo liderado por Arouca. Esses relatórios eram enviados diretamente a Zeferino Vaz.

 

(17) As citações constam do Relatório Final da CVMOI da Unicamp; diversos depoimentos de membros do coletivo liderado por Sérgio Arouca e outros pesquisadores podem ser conhecidos em:

http://www.memoriasocial.pro.br/linhas/arouca/desdobramentos/atrajetoria.htm

 

(18) Uma observação do físico Marcelo Damy questionou a atuação do Doutor Camargo na Reitoria da Unicamp: “(...) o chefe de gabinete do reitor da Unicamp era um ex-delegado do Dops, que havia sido chefe de gabinete [de Zeferino Vaz] em Brasília. Então começou a vigorar em Campinas um clima muito estranho em que os problemas fundamentais da universidade eram encarados de um ponto de vista puramente acadêmico-político”. Maria Gabriela Marinho, op. cit. p. 141.

 

(19) Rodrigo Patto Sá Motta publicou um importante livro sobre as AESI´s: As universidades e o regime militar, Zahar, 2014.

 

(20) Em O Napoleãozinho de Campinas”, resenha sobre O Mandarim, Simon Schwartzman observou: “Entre 1966 e 1978, Zeferino Vaz fez o que quis na UNICAMP (...) manobrando todo o tempo para tirar do caminho as pessoas que questionavam seu poder”. http://www.schwartzman.org.br/sitesimon/?p=170&lang=pt-br

 

(21) Durante a ditadura militar, o PCB fazia oposição, basicamente, por meio da via institucional. Após a derrota da luta armada, o regime se propôs a extinguir toda “ameaça comunista.”, mesmo que não tivesse ela uma dimensão radical. O combate ao PCB estava integrado à chamada Operação Jacarta, desencadeada após 1975 contra militantes (sindicalistas, políticos, estudantes e professores universitários etc.) vinculados ao PCB. Cf. Luciano Martins Costa, “Falta o essencial”,

http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/falta-o-essencial/

 

(22) O mesmo não ocorreu na UnB. Embora manietada pelos militares e Reitores serviçais, a comunidade acadêmica resistiu por meio de protestos e paralisações. Na Unicamp, praticamente inexistiram manifestações massivas contra arbitrariedades; a mais significativa mobilização da comunidade acadêmica apenas veio ocorrer em outubro de 1981, por ocasião da tentativa do governo biônico de Paulo Maluf de intervir na universidade.

 

(23) O depoimento pode ser conhecido em Regina Abreu e Guilherme Franco Neto (organizadores), A trajetória de Sérgio Arouca, Programa de Pós-graduação em Memória Social, Unirio. http://www.memoriasocial.pro.br/linhas/arouca/index.htm

 

(24) A sagacidade, acuidade e capacidade de trabalho de Zeferino Vaz podem ser ilustradas por um depoimento, em 2006, de Antonio Candido, intelectual de convicções socialistas: “Nós ficávamos impressionados com a facilidade com que ele assimilava ideias e noções de disciplinas completamente diferentes da dele (...). Ele sabia sempre optar pela melhor solução. De modo que o convívio com o professor Zeferino sempre foi para mim uma grande aprendizagem e um grande prazer”.

http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/antonio-candido-fala-sobre-o-iel-zeferino-vaz-e-literatura

 

Leia a primeira parte do artigo em:

 

Zeferino Vaz: um Reitor de direita que protegia as esquerdas? (1)

 

Caio Navarro é professor aposentado do IFCH, Unicamp; foi membro da Comissão da Verdade e Memória “Octávio Ianni” da Unicamp (2014-2015).

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Última atualização em Qui, 30 de Julho de 2015
 

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