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Virada Cultural ‘clandestina’ se opõe a uma agenda oficial cada vez mais excludente Imprimir E-mail
Escrito por Raphael Sanz, da Redação   
Segunda, 22 de Junho de 2015
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Da rua pra rua não só é o slogan que intitula o segundo disco da banda Asfixia Social, de Diadema, como também foi o lema que caracterizou o Okupalco no último final de semana, no qual a citada banda foi uma das mais de 30 que se apresentaram de forma autônoma à programação oficial.

 

O palco alternativo – promovido pelo segundo ano consecutivo – começou às 18h do sábado e terminou exatamente 24 horas depois, no vale do Anhangabaú. Sem receber nenhum centavo do poder público, o coletivo reuniu sua aparelhagem, arrumou um gerador de energia elétrica emprestado do Sindicato dos Bancários e divulgou o evento nas redes sociais.

 

Sem espaço na programação oficial da Virada Cultural, quatro coletivos compostos por bandas de reggae, punk rock e rock alternativo – a maioria da periferia da cidade – se juntaram e armaram o palco que teve um público fixo de aproximadamente duas mil pessoas durante a madrugada, com uma leve redução depois do raiar do sol.

 

“Algumas bandas se inscreveram na prefeitura para serem incluídas na programação, mas já sabíamos que não ia dar em nada e nos organizamos”, disse Alexandre Corrêa, vocalista da banda Desacato Civil e um dos organizadores do evento.

 

“Lá pelas 23h, o Côro de Carcarás apareceu com seu maracatu, sentiu-se livre para tomar o espaço em frente ao palco e começou, então, a tocar uma música de Chico Science, interagindo com a banda de reggae Profecia Viva, que se apresentava. Foi um encontro inusitado, um diálogo entre suas formas de expressão diferentes”, contou Alonzo Chaska, vocalista da banda A Ferramenta e também organizador do evento.

 

Mesmo sem qualquer incidente de brigas, ou qualquer manifestação de violência, o Okupalco recebeu, por volta das 3h da manhã, a visita da Polícia Militar, que estacionou pelo menos seis veraneios a 50 metros de distância do palco e posicionou alguns homens munidos de espingardas de bala de borracha. “Eles queriam nos intimidar, prender alguém como geralmente fazem, mas não fizeram nada”, falou Alonzo. O simples deslocamento dessas viaturas custou para o poder público mais do que as 24h de programação do referido palco.

 

Sem a presença constante de elementos militares, como nos palcos da programação oficial, o evento adquiriu um caráter democratizante muito difícil de ser visto em outros ambientes na mesma noite. Em meio às bandas e a seu público tradicional, jovens do centro e da periferia, muitos moradores de rua, se sentiram à vontade para prestigiar o evento. “Alguns ambulantes também se sentiram seguros e pediram proteção para esconderem-se ali das perseguições da GCM”, lembrou Alonzo.

 

Além de promover os artistas da cidade excluídos das políticas culturais, o Okupalco se propôs também como um espaço de contestação da ordem vigente. “Enquanto pagam R$55 mil para o Tremendão (Erasmo Carlos) subir em um palco às moscas (de fronte ao Okupalco), as ruas responderam com uma festa livre e autêntica, que ocupou o espaço da cidade de forma democrática”, completou.

 

Ao longo da recente história das viradas culturais paulistanas, cenas de crime e violência, como brigas, arrastões e roubos, foram comuns madrugadas adentro. Um episódio emblemático foi a briga de proporções homéricas que houve entre o público dos Racionais MCs e a PM na praça da Sé, na edição de 2007. O curioso é que, mesmo com vídeos divulgados na internet mostrando a pré-disposição policial em causar o tumulto, a cena do Hip Hop acabou penalizada. No ano seguinte, o “palco do Rap” ficou circunscrito às grades do Parque Dom Pedro, com direito à revista “quase íntima” para todos que entravam e saíam de lá.

 

Desde então, os artistas do Okupalco creem que houve uma espécie de “gentrificação” da virada, com a exclusão de estilos musicais contestadores, como o punk e o rap, e a presença cada vez mais ostensiva da PM, intimidando qualquer pessoa com aparência ou comportamento “fora da linha”, principalmente a população em situação de rua que habita o centro da cidade.

 

“Fica claro que um certo tipo de público não merece seu espaço e nem financiamento da Virada gourmet (termo cunhado para criticar o caráter da Virada Cultural). São criminalizados e recebem toda a culpa pelo ambiente caótico da Virada Cultural paulistana. Auto-organizados, não tivemos nenhum incidente em toda a madrugada”, concluiu Alonzo.

 

 

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Raphael Sanz é jornalista.

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Última atualização em Sexta, 26 de Junho de 2015
 

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