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Brasil e Estados Unidos: modernizar Cuba Imprimir E-mail
Escrito por Virgilio Arraes   
Sexta, 19 de Junho de 2015
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Durante a convergência temporal entre o mandato de George Bush e o de Lula da Silva, uma das maneiras de o Brasil valorizar-se diante dos Estados Unidos foi a de postar-se como um prestativo mediador diplomático, em especial em assuntos relacionados com Argentina, Cuba, Venezuela e até Bolívia.

 

A posição de intermediação de Brasília foi aceita de bom grado por Washington. Como possível retribuição àqueles bons préstimos regionais, o Planalto esperou debalde maior concessão da Casa Branca à exportação de biocombustível derivado da cana de açúcar, ainda que não fosse no mesmo patamar do tratamento dispensado a governos do Caribe.

 

De todo modo, seria natural o país manter posicionamento similar com o sucessor do presidente republicano, o democrata Barack Obama. No primeiro semestre de 2009, a desembaraçada movimentação brasileira destinou-se a viabilizar a aproximação norte-americana com o arco cubano-venezuelano, desnecessário inspirador da retórica conservadora estadunidense.

 

Naquela altura, o proscênio mais apreciado para aparar históricas arestas seria a 5ª Cúpula das Américas, realizada no início de abril de 2009 em Trinidad e Tobago, voltada, na prática, ao encaminhamento burocrático de temas importantes como combate ao narcotráfico ou reforma macroeconômica.

 

De início, o simbolismo da maior necessidade de contato com adversários tradicionalmente figadais foi a presença do próprio Barack Obama naquele encontro da recém-instituída União das Nações Sul-Americanas, uma vez que ela havia sido oficializada em maio de 2008, sucedânea da Comunidade Sul-Americana de Nações.

 

A vontade inicial da Casa Branca foi a de superar de modo gradativo dois importantes espectros políticos na região latino-americana: um emanado ainda na Guerra Fria, o castrismo - ou sua outra denominação perante  a rivalidade amero-soviética, o castrocomunismo - ,existente como reminiscência de uma época de cerrada oposição a Washington.

 

O outro, advindo como fruto mais recente do desencanto da globalização neoliberal, o chavismo, de alcance político maior, em face de ter podido ser impulsionado ao longo de vários anos por uma temerária petrodiplomacia, por causa da instabilidade do preço do produto.

 

Na cimeira, Venezuela, Bolívia e Equador enfeixavam-se bem mais à esquerda, ao solicitar de forma incisiva e célere o ingresso de Cuba à rotina diplomática do continente, via cancelamento da exclusão junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), ao passo que Brasil, Colômbia, Chile e Peru não compartilhavam da mesma urgência. De toda maneira, o documento oficial da cúpula não faria menções ao pedido bolivariano.

 

Aos olhos do novo presidente estadunidense, quase meio século de boicote à pequena ilha caribenha já não fazia sentido algum. Ademais, o ponto de atrito significativo entre os dois países vinculava-se à destinação de Guantánamo como presídio de segurança máxima pelos Estados Unidos.

 

Embora a distensão ocorresse apenas no segundo mandato de Barack Obama, havia a expectativa por parte da chancelaria brasileira de que a Casa Branca pudesse preparar a indicação de um nome para ser um negociador temporário com poderes especiais.

 

Sem a vigência da bipolaridade, Cuba, com pouco mais de 10 milhões de habitantes, havia se transformado em um fragmento histórico em pouco tempo.

 

Citada por vezes como fonte de inspiração para segmentos da esquerda, com o objetivo de possível comprovação de resistência ao longo do tempo a Washington, ou de agastamento para setores da direita, com o propósito de realçar o autoritarismo anacrônico de Havana, ela necessitava de fato de modernizar-se.

 

Na apreciação da diplomacia do Brasil, o caminho para isso passaria pelo reatamento com a Casa Branca, através da contribuição do Planalto. Em se materializando a convergência entre os dois adversários, seria um marcante êxito da postura presidencial, independentemente do prisma sob o qual a atualização se manifestaria em termos políticos e econômicos no século 21.

 

 

Leia também:

Estados Unidos e Brasil – Cuba e a Cúpula das Américas de 2009

 


Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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Última atualização em Terça, 23 de Junho de 2015
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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