Estados Unidos: em busca de qual excepcionalismo

 

 

Há sete décadas, a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim; com ele, encerrou-se de maneira definitiva o segundo sonho imperial da Alemanha de ditar o compasso da Europa no século 20, ao aspirar naquele último conflito abarcar uma vastidão territorial que atingiria tanto a França como a União Soviética.

 

Se fosse realizado o projeto germânico, ele teria sido um tomento geopolítico para a decadente Grã-Bretanha, mesmo presente em todo o mundo, e, em maior escala, para os Estados Unidos, ciosos da disseminação de um programa mundial em que se mesclava a defesa de democracia (república) e livre comércio, ou seja, o da divulgação do chamado excepcionalismo norte-americano.

 

Hoje, tais valores continuam a integrar o ideário da política externa estadunidense, não obstante a diferença da calibragem entre os dois pontos, uma vez que a economia, através do neoliberalismo, se firmou em patamar superior ao da política, relativo à democracia e direitos humanos, desde a derrocada soviética na virada dos 80 para os 90.

 

Com a campanha presidencial de 2016 em seus primeiros momentos, isto é, com a apresentação dos primeiros postulantes dos dois grandes partidos ao eleitorado, críticas ao presidente Barack Obama emergem quando se aborda se teria havido ou não a manutenção, por ele, do modo de ser americano – American way of life – interna e externamente.

 

Contundente, um dos dez aspirantes republicanos até o momento, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York entre 1994 e 2001, chegou a afirmar a um grupo de possíveis apoiadores que o titular da Casa Branca não teria apreço pelo país, em função da sua forma de governar.

 

Na condução da política externa, Barack Obama não teria se valido de todos os instrumentos de que dispunha para manter a primazia norte-americana, haja vista a dificuldade de lidar com os constantes distúrbios pós-primavera árabe no norte da África e Oriente Médio.

 

Destarte, ele não logrou êxito nem pela utilização da força, nem pela ênfase à abertura sociopolítica de países com os quais os Estados Unidos têm proximidade ou especial interesse, como no caso do Irã. Falho na via diplomática, o julgamento negativo à administração atingiria também Hillary Clinton, à frente do Departamento de Estado entre 2009 e 2013.

 

Incisivos, os adversários do presidente democrata mencionam seu menosprezo em levar a cabo os valores tradicionais da sociedade aos demais povos, em especial aos médio-orientais, bastante insatisfeitos com o legado dos antigos governos ditatoriais em seu cotidiano.

 

De maneira paradoxal, a maior parte daqueles governantes contou no passado recente com o apoio de Washington, mesmo velado, em decorrência da oposição comum ao comunismo. Extinta a bipolaridade, tornar-se-iam os ditadores dispensáveis, como ocorreria no Iraque.

 

Com o desmantelamento dos regimes autoritários no Leste da Europa, a retórica da liberdade reduzir-se-ia, até para não constranger o parceiro comercial mais almejado: a China. No 21, a prosperidade, via abertura econômica, ganharia maior presença no discurso, haja vista estar ao alcance de todos.

 

Até certa medida, seria a renovação da pregação do século passado, momento em que os democratas se dirigiam aos homens comuns, independentemente da etnia, religião, naturalidade etc. para comunicar-lhes que o desejo de ascensão social seria possível na América ou nos locais em que os valores norte-americanos fossem subscritos. Naquela altura, a oposição era ao comunismo; hoje, ao terrorismo.

 

No entanto, a crítica dos republicanos aos democratas esbarra no fato de que o neoliberalismo não proporcionou a melhora social às populações a ele aderentes, de sorte que o excepcionalismo continuará a ecoar nos discursos presidenciais, mas sem repercutir de fato no dia a dia dos povos ouvintes.

 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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