Modernidade

 

 

Qual seria o significado de “moderno”? Como seria um “país moderno”? Depois de ler a edição especial de 40 anos da revista Exame de outubro, cuja capa gritava “1967-2007, a construção de um país moderno” - mas que para mim apresenta idéias ultrapassadas - , resolvi recorrer ao dicionário. Na minha busca, o sentido que mais se aproxima do que imagino o editor da revista tenha tentado transmitir é o que traz a idéia de contemporaneidade, de atualidade.

 

A capa é ilustrada com uma montagem de fotografias daqueles prédios de vidro escurecido, de arquitetura futurista, edifícios normalmente pouco eficientes energeticamente, com pouco aproveitamento da luz solar e lacrados de forma a tornar essencial o uso constante de aparelhos de ar condicionado e luzes artificiais. Modernos?

 

Com as informações das quais dispomos hoje sobre a crise ambiental, em especial do clima, “moderno”, no meu entender, é pensar um novo mundo, onde o ser humano consiga reconstruir suas idéias e sua forma de vida para alcançar uma nova relação, mais benigna, com o planeta. Reduzir a demanda por energia e o consumo são essenciais para atingir essa meta.

 

Mas o pessoal que fez a revista não parece pensar assim. A palavra “moderno” é repetida incontáveis vezes nas reportagens, sempre associada à proliferação de automóveis e shopping-centers, à explosão do consumo e ao inchaço das cidades. Monstruosidades como a Grande São Paulo, um aglomerado insustentável de 18 milhões de seres humanos, são colocadas como prova de que o Brasil está indo no caminho certo. De que o país saiu de uma economia “agrária, atrasada e fechada (...) para transformar-se numa economia moderna e relevante para o mundo”.

 

No final da matéria principal (e só ali), em um breve parágrafo, são espremidas as dívidas sociais do país. Detalhes como a fome, a violência, a vexaminosa concentração de renda e uma taxa de analfabetismo superior à média da América Latina não podem atrapalhar uma festa tão bonita e luxuosa do Brasil “moderno”. Por falar nisso, a Daslu, claro, é citada como prova do sucesso do nosso modelo de país.

 

Toda a lógica das reportagens especiais pode ser resumida na idéia de que a felicidade humana mora no consumo, no crescimento do poder de compra e em quanto um povo é capaz de comprar bens supérfluos (aliás, a palavra “supérfluo”, que fazia muito sucesso antigamente, parece agora ter saído de moda. Sinal dos tempos). Os Estados Unidos, “a sociedade de consumo por definição”, são colocados como objetivo a ser alcançado por nós brasileiros.

 

A esta altura você pode estar se perguntando com eu poderia esperar algo diferente de uma revista de direita. Tem razão, e eu não espero. O que quero, voltando à questão colocada no início do texto, é questionar o conceito de “moderno”, usado pela revista para defender o aumento da produção e do consumo e a transferência das pessoas do campo, para que se acumulem nas cidades e sejam substituídas por máquinas.

 

Como podem os responsáveis pelos textos daquela revista ignorar a realidade que nos cerca a todos, eles incluídos? Como podem propor como ideal para o futuro que todos os povos atinjam o padrão de consumo dos norte-americanos, quando se sabe que isto é impossível? É de conhecimento de todos que não dispomos de recursos naturais para tanto.

 

A Exame, assim como a revista Veja, transformou-se, já há alguns anos, numa revista editorialista. Não existem mais reportagens, apenas textos editoriais reafirmando a forma de pensar do Grupo Abril. Uma reportagem recente da Veja também comemora, ignorando a questão ambiental, o recorde em 2007 na venda de carros (2,5 milhões) e de celulares (50 milhões).

 

O que seria do mundo se todo habitante adulto dirigisse seu próprio carro? Que seria do Brasil e de outros países marginalizados se chegássemos às taxas americanas, de quase um carro por habitante? Do ar? Do trânsito?

 

Fico em dúvida se este pessoal realmente ainda não entendeu a gravidade da situação ecológica “moderna” ou se estamos lidando com hipocrisia pura. Chego à conclusão, ao ler, na mesma edição, uma reportagem orientando os empresários sobre as formas de aplicação mais eficientes de seus programas sócio-ambientais, que a ficha não caiu. A responsabilidade ambiental é vista apenas na sua casca, apenas como forma de melhorar a imagem da empresa, sem reflexão sobre seu real sentido e sem aprofundamento no tema.

 

Existe um abismo, em textos de um mesmo veículo de comunicação, entre a defesa do ambientalismo como ideal, de um lado, e a defesa de atitudes que vão contra os princípios que mostram ser realmente efetivos na batalha contra o descontrole climático, de outro. Isso é comum não apenas nas páginas de revistas reacionárias, mas dentro de nós mesmos.

 

Também não é fácil lidar com a situação para aqueles entre nós para os quais a ficha já caiu, para quem já entendeu a gravidade da situação e sabe que não há outro caminho a seguir que não o de uma mudança radical nos hábitos, costumes e formas de nos relacionarmos com tudo o que nos rodeia no planeta. Como resolver este enigma vivendo dentro de um sistema ainda baseado nas formas ultrapassadas – para alguns, modernas – de lidar com a realidade que nos cerca é um enigma cuja resposta deve ser encontrada por cada um, numa busca dentro de si mesmo.

 


Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.

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