Política de Segurança Pública no Brasil ou o aborto dos que nasceram

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“Rimo pelo sangue derramado dos Heróis”.

Zinho Trindade

 

O dia 30 de maio de 2015 vai ficar marcado na história da zona sul da cidade de São Paulo. Foi quando se realizou, no cemitério do Jardim São Luiz – símbolo da morte de nossos jovens assassinados pela violência de Estado (que segue até hoje) nos tenebrosos anos da década de 90 – uma audiência pública contra o genocídio da juventude pobre, preta e periférica, levado a cabo há 500 anos e hoje continuado pelas nossas polícias, que mantêm a estrutura de funcionamento da época de nossos lamentáveis anos de ditadura militar.

 

Neste sentido, a marca que o dia 30 deixa é, por um lado uma vitória e, por outro, da desgraça.

 

É uma vitória no sentido da capacidade de organização dos oprimidos e explorados em sua luta pela sobrevivência; uma vitória no sentido daquilo que nós, a juventude que só recebeu humilhação, terceirização, balas e opressão, tem conseguido fazer, arrancando forças do ódio, da revolta e da indignação.

 

É uma vitória porque avança na transformação do luto em luta.

 

É uma vitória porque, queiram ou não os ricos, os governos, os patrões, a burguesia e a elite branca, nós estamos vivos.

 

É uma vitória porque nascemos sem perspectiva de futuro, mas aprendemos a fazer de nosso presente uma trincheira da guerra sem trégua pela liberdade e pela emancipação humana.

 

A marca da desgraça se dá numa outra dimensão do problema. O primeiro traço – e este ganha contornos históricos – é o de perceber a falência completa do Partido dos Trabalhadores.

 

Infelizmente, no final da audiência, o prefeito Fernando Haddad perdeu a linha. Disse que os índices de homicídios são menores na Vila Mariana (bairro de classe média da cidade de São Paulo) porque lá “a população se organiza”, enquanto seriam maiores nos bairros pobres da zona sul por falta de organização.

 

Um discurso triste. Triste porque demonstra o nível em que chegou um partido que nasceu das esperanças da classe trabalhadora e hoje atravessa as fronteiras do respeito ao reproduzir uma fala digna do mais preconceituoso político de direita, que culpabiliza os pobres pela sua pobreza ou, no caso, culpabiliza o assassinado pelo seu próprio assassinato. Pior para o PT.

 

O que ocorre, em meio a uma série de injustiças, revoltas e ataques virulentos aos trabalhadores e ao povo pobre no mundo inteiro é, no entanto, um levante daqueles que lutam e sonham.

 

Novas coisas estão nascendo da poeira dos cemitérios, da lama dos becos e vielas, dos guetos, da linha de produção das fábricas, dos terceirizados nas maquilas do México ou dos que ainda choram a falta dos jovens assassinados na chacina do Cabula, na Bahia.

 

O passo que precisa ser dado é o da luta, é de construir da revolta o movimento, o de fazer do limão a limonada. Nisso somos bons, nós os periféricos, os negros e negras, os explorados; nós os latinos, os imigrantes, os trabalhadores, nós, que somos os que mudarão o mundo.

 

Na mesma semana, desembarcou nesta mesma zona sul de São Paulo a luta dos 43 jovens desaparecidos em Ayotzinapa, no México.

 

A união da juventude pobre que luta contra o sistema está se construindo. É uma união internacional que junta favelas e quebradas, de ponta a ponta neste mundo para um combate de onde só podemos sair vencedores. Caso contrário, é a própria possibilidade da alegria e do futuro que sucumbirão.

 

Não tenho dúvidas de que seremos vencedores até porque, do Cabula à Ayotzinapa, do Jd. São Luis à El Alto na Bolívia, do Santa Marta à Cuartel Quinto na Argentina, escorre pelo chão o mesmo sangue que vibra resistência nas veias abertas de nossa América Latina.

 

Leia também:

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‘Os poderes jurídicos brasileiros não dão relevância à vida do negro’ – entrevista com o ativista negro Hamilton Borges, sobre a chacina do Cabula, em Salvador.

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Helena Silvestre é militante do Luta Popular.

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