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30 anos do Hizbollah: o falso consenso em torno à sua origem na ‘radicalização’ (2) Imprimir E-mail
Escrito por Ramez Philippe Maalouf   
Terça, 02 de Junho de 2015
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Um xadrez no território libanês

 

Precisando se adaptar à perversa lógica sectária imposta à guerra no Líbano, os sírios se apoiariam na milícia “xiita” Amal, cada vez mais “desidratada” pelas constantes dissidências nos seus quadros. O Amal atuaria no Líbano como um braço armado da Síria, praticamente eliminando o carácter religioso da milícia e se identificando com a nova burguesia “xiita” liberal que emergia na sociedade libanesa. O maior reflexo desta mudança no interior da milícia foi a ascensão do advogado e empresário ianque-líbano-marfinense Nabih Berri à chefia do partido e, mais tarde, à chefia do parlamento, cargo que exerce de 1984 até os dias atuais.

 

Com a mudança na liderança da milícia e sua associação com a Síria, o Amal, apoiado pelo PSP, obteria importantes vitórias contra o esquálido exército libanês em Souk al-Garb, em fevereiro de 1984, e contra a milícia laica nasserista Mourabitoun (majoritariamente sunita), apoiada pela OLP, no mesmo ano. Este último ataque decorreu do fato de a OLP estar retornando ao Líbano com a ajuda dos mourabitouns, o que foi visto como um desafio a Assad.

 

Com a derrota dos mourabitouns, a comunidade sunita perdia sua principal milícia progressista, abrindo o caminho para a ascensão de grupos salafistas no seio desta comunidade no decorrer da guerra. Assim, a guerra entre o Mourabitoun e o Amal gerou ressentimentos dos “sunitas” contra os “xiitas” e a Síria no Líbano. Este ressentimento favoreceria o abandono paulatino, pelos “sunitas”, dos ideais pan-arabistas e pró-sírios, que se desdobraria, após o surgimento do Hizbollah, num ódio sectário e na adesão ao nacionalismo libanês ao estilo maronita, isto é, ultraliberal, sectário, e ferozmente antissírio.

 

Dentro da ótica sectária libanesa, amplificada como dogma absoluto pela mídia ocidental e o “eurocomunismo” (sic), a Síria, em aliança com o Amal, ao combater a OLP, estava promovendo o massacre os “sunitas” pelos “xiitas”, uma vez que o presidente sírio Hafez al-Assad era de origem muçulmana alauíta (os alauítas são adeptos de um ramo do xiismo, embora o líder sírio fosse laico), o Amal era xiita, enquanto que os palestinos, majoritariamente, sunitas.

 

Nascimento do Hizbollah

 

Após a derrota dos nasseristas libaneses, o grupo xiita libanês entraria em guerra diretamente contra a OLP na tétrica Guerra dos Campos (1985-87). Foi neste ínterim, chocando-se com a política síria no Líbano, que o Irã unificou os inúmeros grupos armados xiitas dissidentes do Amal para fundar o Hizbollah (Hizb Allah, “partido de Deus” em árabe), com a finalidade de apoiar os palestinos na resistência contra a ocupação militar israelense, libertar Jerusalém e implantar uma república islâmica no Líbano.

 

Deixando de lado, pragmaticamente, este último objetivo, o Hizbollah se aliou aos palestinos, atraindo, assim, o apoio de inúmeras milícias libanesas e palestinas da resistência anti-ocupação, dos quais destacamos o Partido Social-Nacionalista Sírio (PSNS – a primeira milícia antissionista criada por árabes não palestinos, ainda nos anos 1930), o Partido Comunista Libanês (PCL) e a própria OLP.

 

Um mês após a fundação oficial do Hizbollah, quando Israel aumentava o seu recuo militar ao sul do Líbano, os serviços secretos dos EUA e da Arábia Saudita explodiram um carro-bomba no edifício onde se localizava a sede da milícia islâmico-xiita, que assassinou mais de 80 pessoas, tendo sobrevivido o então líder espiritual do grupo islâmico, o aiatolá Mohammad Hussein Fladallah. Era o seu batismo de fogo.

 

Guerra no Líbano, quarta fase: Israel, Palestina, Síria, Iraque, Líbano

 

A quarta fase da Guerra do Líbano, entre 1984 e 1990, foi marcada pela guerra entre o Amal e a OLP, na qual a milícia libanesa atacaria os campos de refugiados palestinos, inclusive Sabra e Chatila, sendo por isto chamada de “Guerra dos Campos” (1985-88), provocando a morte de milhares de pessoas. Ao mesmo tempo, Israel criava no sul do Líbano a política de “punhos de aço”, sequestrando, torturando e assassinando os sul-libaneses (principalmente os xiitas) e os refugiados palestinos, visando vergar a resistência anti-ocupação. Os israelenses criariam campos de concentração, para onde eram levados os libaneses e palestinos sequestrados (crianças, adultos e idosos), onde eram torturados e eventualmente assassinados. O Hizbollah reagiu aos ataques do Amal à OLP, dando origem a uma miniguerra civil na comunidade xiita libanesa, entre 1986 e 1990, na qual mais de duas mil pessoas morreram.

 

Por sua política antissíria, as Forças Libanesas (FL) também passaram a combater o Amal, permitindo o contrabando de armas para a OLP em seus territórios. Uma verdadeira “alergia antissíria” se disseminou entre as maiores milícias no Líbano, inclusive o Hizbollah, todas combatendo o Amal, mesmo sem estarem formalmente aliadas. Este apoio à OLP se fortaleceria quando o general “cristão maronita” Michel Aoun, inimigo da Síria, tomou o poder no momento em que o mandato presidencial de Amin Gemayel expirou sem que houvesse um sucessor eleito, no final de 1988. Uma vez tendo se autoproclamado primeiro-ministro do Líbano, sem o apoio da grande maioria da comunidade muçulmana, o general Aoun se voltaria para a OLP, recebendo a ajuda financeira e militar do Iraque, já desembaraçado da guerra Irã-Iraque.

 

Sendo assim, o presidente iraquiano Saddam Hussein patrocinava os aliados tácitos e táticos do Hizbollah (OLP, Aoun e as FL) na guerra contra o Amal, para diminuir a influência síria sobre o Líbano. Por este motivo, em 1989, a oposição à Síria, incluindo o grupo islâmico xiita, pode rechaçar o acordo assinado em Taëf (cidade saudita), que era patrocinado pelos sauditas, ianques e sírios, fazendo a guerra se prolongar por mais tempo.

 

Foi somente com a Primeira Guerra do Iraque (1991) que os EUA deram sinal verde para a Síria dar um término à longa guerra no Líbano, em troca da participação de Damasco na coalizão pró-Ocidental contra o Iraque. Os sírios intervieram, implementando o Acordo de Taëf, que havia sido ignorado em 1989, no qual se estipulava, entre várias medidas, o desarme das milícias libanesas, excetuando os grupos armados palestinos e da resistência armada à ocupação israelense.

O fim da Guerra no Líbano: o destino de Israel, Síria e do Hizbollah

 

O fim da Guerra do Líbano, por intervenção síria, em outubro de 1990, não significou o fim da ocupação israelense do sul do Líbano, que massacrava a população local. Por este motivo, a Síria permitiu que o Hizbollah, vitorioso na guerra contra o Amal e com prestígio aumentado pela proteção aos refugiados palestinos, continuasse a dar prosseguimento à resistência a Israel. Desta forma, houve a reconciliação entre Hafez el-Assad e o grupo islâmico xiita.

 

Em 1992, o Hizbollah passaria a atuar oficialmente como um partido político no Líbano, participando das eleições parlamentares, além das ações armadas na resistência. Em resposta, Israel assassinou, num ataque de helicóptero, o então líder do grupo, Abbas al-Moussawi, junto com sua esposa e a filha de apenas quatro anos de idade. Nas mesmas eleições parlamentares de 1992, o magnata saudita-libanês Rafic Hariri foi eleito primeiro-ministro do Líbano, apoiado pela Síria, EUA e Arábia Saudita, defendendo uma plataforma política econômica ultraliberal, inclusive na reconstrução da capital Beirute, principal palco da longa guerra “civil”.

 

Hariri, embora fosse um muçulmano sunita, defendeu a resistência armada à ocupação israelense liderada pelo Hizbollah. Um outro reflexo do fortalecimento político da comunidade xiita foi a eleição de Nabih Berri, líder do Amal, antigo inimigo do Hizbollah e inimigo da OLP, ao cargo de presidente do parlamento libanês.

 

Quanto à OLP, capitulou frente a Israel, dado o seu isolamento político no mundo árabe, e internacionalmente, por causa do apoio a Saddam Hussein na Guerra do Iraque (1991), ao assinar os Acordos de Oslo - o Irã se opôs a estes acordos, que legitimavam a ocupação militar israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Como resposta, Israel, apoiado pelos EUA, atacaram duas vezes o Líbano, em 1993 e em 1996, exterminando centenas de árabes (libaneses e palestinos), chegando a assassinar centenas de crianças num abrigo da ONU na cidade de Qana, sul do Líbano, em abril de 1996.

 

Sem poder vergar a resistência sul-libanesa, o líder trabalhista israelense, o general Ehud Barak, foi eleito primeiro-ministro com a promessa de retirar o exército sionista do Líbano no ano de 2000. O recrudescimento da resistência armada anti-ocupação, contando com amplo apoio popular libanês, forçaria a retirada antecipada das tropas israelenses da quase totalidade do sul do Líbano, mantendo um pequeno território libanês sob seu controle até os dias atuais, as Fazendas de Shebaa. Com a morte do presidente sírio Hafez al-Assad, em junho de 2000, seu filho, Bashar al-Assad, toma posse como presidente e dá início à retirada do grosso das tropas sírias do Líbano.

 

Pós-11 de setembro de 2001: Afeganistão e Iraque, Irã e Síria, na mira dos EUA

 

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos EUA, mudariam, porém, todo o cenário geopolítico do Oriente Médio, como não se via desde a assinatura dos Acordos de Sykes-Picot-Sazanov, em 1916, que dividia a região entre as potências europeias, Inglaterra, França e Rússia. O presidente George W. Bush assumiu poderes ditatoriais, ao estilo romano, com o Ato Patriótico, e declarou “guerra ao terror”, iniciando a segunda invasão ianque do Afeganistão em outubro de 2001 (a primeira foi por intermédio de mercenários “islâmicos”, em 1978, para derrubar o governo afegão pró-soviético), visando atacar o governo dos Talibãs (grupo remanescente dos mercenários contratados pelos EUA em 1978), que dava abrigo a al-Qaeda, grupo terrorista supostamente autor dos ataques de 11 de setembro.

 

No entanto, o plano original dos neoconservadores, grupo político ianque que dava suporte político e ideológico à ditadura de W. Bush, era começar a guerra no Iraque para abrir o caminho para atacar a Síria, que havia se recusado a apoiar a segunda invasão ianque do Iraque, e o Irã. Este plano foi parcialmente realizado com a segunda grande invasão ianque do Iraque, em 2003, na qual o Estado iraquiano foi implodido e mais de 1,5 milhão de iraquianos foram exterminados. Porém, a dura resistência iraquiana à invasão alterou o plano original e os EUA não tiveram meios para atacar a Síria e o Irã.

 

Sendo assim, os ianques adotaram uma geoestratégia de desestabilização da Síria, primeiro, por intermédio de uma resolução da ONU que exigia a retirada dos militares sírios do Líbano e o desarme de “todas as milícias libanesas”, isto é, da resistência libanesa. Porém, o atentado terrorista que assassinou o primeiro-ministro Rafic Hariri, em fevereiro de 2005, cuja autoria é desconhecida, foi atribuída, sem provas, pelos governos ianque e israelense, ao presidente sírio Bashar al-Assad. Acusação que foi repetida pela mídia pró-ocidental no mundo árabe e no resto do mundo.

 

O Hizbollah, aliado de Damasco, respondeu às acusações sem provas, conclamando uma grande manifestação popular em favor da Síria, em 8 de março de 2005. Em resposta, novas manifestações populares contra a presença do exército sírio em território libanês foram mobilizadas, em 14 de março de 2005, por organizações não-governamentais patrocinadas pelos EUA, forçando a retirada das tropas sírias que já estava em curso desde a posse de Bashar al-Assad.

 

Com a saída da Síria, por pressão ianque e israelense, abriu-se o caminho para que Israel promovesse a sua quinta grande invasão do Líbano em 2006, que também se aproveitou da divisão política entre os pró-Damasco (a coalizão “8 de março”, liderada pelo Hizbollah) e os pró-EUA (a coalizão “14 de março”, composta por simpatizantes de Israel e da Arábia Saudita). Esta divisão foi traduzida e fomentada pela mídia ocidental de forma reducionista e preconceituosa, como um conflito entre “xiitas” e “sunitas”.

 

Saída da Síria e a invasão israelense do Líbano em 2006

 

A invasão israelense do Líbano no verão 2006 foi resultado imediato da segunda invasão ianque do Iraque, de 2003. A derrubada do governo de Saddam Hussein, líder do Ba’ath iraquiano, abriu caminho para os EUA, em conluio tático com o Irã, instaurarem um governo liberal, isto é, sectário e profundamente corrupto, uma fonte a mais permanente de desestabilização doméstica e regional. O Estado nacional iraquiano foi implodido, por meio de um genocídio promovido pelos EUA, sem paralelos até então na região, que exterminou cerca de 1,5 milhão de iraquianos. O governo sectário iraquiano favorecia o fomento pelos EUA de uma “guerra civil”, cujo propósito era evitar a unidade da resistência armada, que derrotou em inúmeras batalhas os invasores e o retorno do Estado nacional iraquiano.

 

Com a implosão do Iraque, a mídia ocidental, sempre reproduzindo o pensamento do establishment ianque, passou a denunciar o surgimento de um “eixo xiita”, formado pelo Irã, Iraque, Síria, Hizbollah no Líbano e o Hamas na Faixa de Gaza, que se contrapunha ao “eixo sunita”, liderado, sobretudo, pelas petromonarquias árabes do Golfo Árabe-Pérsico. A despeito da linguagem sectária, na verdade, a coalizão liderada pelo Irã era de resistência ao poder dos EUA, enquanto a coalizão monárquica árabe era pró-ocidental. Esta divisão regional estava presente no Líbano, como já dito antes, desde o assassinato do primeiro-ministro Rafic Hariri.

 

Disto se aproveitou Israel, que desferiu o ataque ao Líbano ao longo de 34 dias, no verão de 2006, exterminando mais 1,2 mil árabes, destruindo a infraestrutura do Líbano. A justificativa de Israel para a guerra foi eliminar o Hizbollah, que desafiava a ocupação israelense das Fazendas de Shebaa e apoiava a resistência palestina nos territórios ocupados.

 

Ao implodir a infraestrutura do Líbano, Israel visava a radicalização política no pequeno “país dos cedros”, buscando atingir a sobrevivência das populações mais pobres do país, ou seja, dos refugiados palestinos e os xiitas, levando aos confrontos étnico-confessionais, incitando a guerra civil, a única maneira de destruir a guerrilha do Hizbollah. Novamente, utilizou-se a velha geoestratégia de hegemonia, por via indireta, mediante a desestabilização interna dos países árabes e a balcanização dos mesmos.

 

Investida externa no sectarismo interno

 

Foi exatamente isto o que ocorrera em 2007, quando o exército libanês, com novos equipamentos norte-americanos, atacou os campos de refugiados palestinos de Nahr el-Bared, próximos a Trípoli, numa perseguição a milicianos extremistas wahhabitas, assassinando centenas de palestinos. Segundo o jornalista investigativo ianque Seymour Hersh (1), estes milicianos eram armados e financiados pela Arábia Saudita e o clã dos Hariri. O objetivo do ataque ao campo de refugiados era fazer os grupos armados palestinos atacarem o grupo islâmico xiita, fomentando, desta forma, a guerra sectária entre “sunitas” e “xiitas”.

 

Como se não bastasse a “miniguerra civil” no norte do Líbano, EUA e Israel assassinaram um dos comandantes militares do Hizbollah em Damasco, Imad Mughniyeh, como revelou o jornal ianque neoconservador Washington Post recentemente (2), demonstrando que a guerra dos EUA contra o Hizbollah iniciada em 1985 continuava. A esta altura, o Iraque já estava devastado tanto pela invasão e ocupação militares quanto pela “guerra civil” sectária instilada pela ocupação para arrefecer a resistência.

 

Quando os EUA retiraram a maior parte de suas tropas do devastado Iraque, em 2011, deram início à Guerra da Síria, por intermédio de mercenários recrutados em países asiáticos, europeus e africanos, sob a bandeira do “islamismo”, que formaram esquadrões da morte para levar terror às populações locais. Enquanto a mídia ocidental, sempre a serviço da propaganda do Pentágono, denunciava a “brutal repressão do regime ditatorial contra manifestações populares”, os ianques despacharam, por intermédio da Jordânia, Iraque e Turquia, mais de 100 mil mercenários terroristas para destruírem o Estado sírio.

 

No início da invasão, os principais grupos terroristas eram o Exército de Libertação (sic) da Síria e a Frente al-Nusra (seção síria da al-Qaeda), que cederam lugar em ferocidade para o ISIS, no segundo semestre de 2014. Ainda em 2011, mais de 40% do território sírio havia caído sob o controle terrorista, subindo para 60% em maio de 2014, com a queda da cidade de Palmira, capital do antigo reino homônimo, de esplendorosa civilização, nas mãos do ISIS, um grupo de extermínio fundado no Iraque, em 2006, por integrantes da seção iraquiana da al-Qaeda.

 

Os territórios conquistados pelo ISIS abriram uma “ponte”, por intermédio da Jordânia, ligando o norte da Arábia Saudita, perpassando o oeste do Iraque e o leste e norte da Síria, à fronteira com a Turquia. Este vasto território cortava a ligação, por intermédio do Iraque, entre a Síria e o Irã, que não têm fronteiras em comum. Isto impedia que o Irã continuasse a apoiar seus aliados na Síria, Palestina e Líbano.

 

O Hizbollah, como um grupo de resistência, passou a atuar apenas na fronteira entre Líbano e Síria para impedir a invasão terrorista em território libanês, desde 2012. Porém, uma vez que o governo do Ba’ath sírio era um antigo aliado, entendeu que deveria aprofundar seu envolvimento na resistência síria. Nunca é demais lembrar que palestinos, sírios e libaneses são uma única nação, os árabes sírios.

 

Hoje, a sobrevivência dos povos do Crescente Fértil

 

Ao defender a integridade territorial da Síria de uma invasão estrangeira, o grupo islâmico xiita libanês está defendendo também a integridade territorial do Líbano e impedindo que Israel obtenha mãos livres para exterminar e expulsar a totalidade dos palestinos que vivem na Palestina histórica sob a ocupação militar israelense. Outro motivo mais imediato é a penetração dos afiliados aos esquadrões da morte wahhabitas no Líbano, patrocinados pela Arábia Saudita, inimiga declarada do Hizbollah. Estes extremistas têm organizado milícias armadas que estão assediando todas as comunidades religiosas libanesas que não seguem os preceitos impostos pela heresia wahhabita.

 

Num cenário apocalíptico, caso haja a derrubada do governo ba’athista na Síria, é altamente provável que os milicianos wahhabitas libaneses se juntem aos terroristas que atuam em territórios sírio e iraquiano e promovam uma limpeza étnica especialmente contra as comunidades xiita e alauíta, com o apoio até mesmo de Israel, uma vez que o “Estado judeu” ataca sistematicamente os comboios de ajuda militar síria ao Hizbollah. Os libaneses xiitas se concentram no sul e no leste do Líbano, tendo uma grande presença na capital libanesa, enquanto que os alauítas se localizam, sobretudo, no norte do Líbano, próximos à fronteira com a Síria. Portanto, a sobrevivência da convivência e coexistência multimilenares das comunidades religiosas do Líbano, assim como a de todos os libaneses, está sob a ameaça concreta de genocídio por parte dos esquadrões da morte patrocinados pelo Ocidente e aliados locais.

 

A grave questão é que a invasão mercenária, pelo ISIS, do Iraque e da Síria é patrocinada pelos EUA nos mesmos moldes das invasões ianques, por meio de terroristas, do Afeganistão e da América Central, quase simultaneamente, entre o final dos anos 1970 até a metade dos anos 1990. Embora o governo ianque de Barack Obama tenha retirado o Irã e o Hizbollah da lista dos “patrocinadores do terrorismo”, visando colocar o governo de Teerã como aliado tático na “guerra pela baixa do preço do petróleo” contra a Rússia, tal medida “conciliatória” da Casa Branca em nada altera a realidade no terreno, uma vez que a aprovação de financiamento aos terroristas (chamados de “oposição moderada” da Síria) no Congresso dos EUA impede a derrota definitiva destes esquadrões da morte e faz aumentar o fluxo de pessoas degeneradas oriundas de toda parte do mundo que desejam se juntar a grupos de extermínio como a al-Qaeda e o ISIS.

 

Como o Crescente Fértil (Iraque, Síria, Líbano, Palestina) está sob ameaça real de extinção pelos EUA, holocausto só comparável às invasões mongólicas do século XIII, o Hizbollah não tem como comemorar o trigésimo ano de sua existência e o décimo quinto ano como líder da resistência de sua vitoriosa campanha de libertação do Líbano. Segue sua resistência lutando não mais pela libertação de uma nação, mas pela sobrevivência dos povos do Crescente Fértil.

 

Notas:

(1) http://www.newyorker.com/magazine/2007/03/05/the-redirection

(2) http://www.washingtonpost.com/world/national-security/cia-and-mossad-killed-senior-hezbollah-figure-in-car-bombing/2015/01/30/ebb88682-968a-11e4-8005-1924ede3e54a_story.html


Leia também:

30 anos do Hizbollah: o falso consenso em torno à sua origem na ‘radicalização’ – Parte 1

 

 

Ramez Philippe Maalouf é mestre e doutorando em Geografia Humana pela USP.

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Última atualização em Quarta, 10 de Junho de 2015
 

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