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Geni e Jaci: as dores do progresso ou o progresso da dor? Imprimir E-mail
Escrito por Lou-Ann Kleppa e Luis Fernando Novoa Garzon   
Quarta, 27 de Maio de 2015
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O documentário Jaci: sete pecados de uma obra amazônica (2015, 102 min.), dirigido por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, foi realizado pela Repórter Brasil. A maneira de apresentar a dura realidade neste filme é paralela com Carne, Osso (2011), documentário vencedor do Prêmio Vladimir Herzog, dos mesmos diretores. No filme de 2011, o universo do trabalho em frigoríficos é apresentado em depoimentos de diferentes perspectivas e através de histórias de trabalhadores transformados em narradores-personagens. Em Jaci: sete pecados de uma obra amazônica, os próprios trabalhadores contribuíram para a realização do filme – filmando. Aproximadamente, 30 câmeras foram usadas ao longo de quatro anos para captar as imagens, sendo algumas imagens de entrevistas, outras de registro da vida no canteiro de obras. Grande parte das imagens foi capturada por celulares de trabalhadores que construíram Jirau e Santo Antônio.

 

As imagens que abrem o filme são da Revolta dos Trabalhadores de Jirau em 2011. Fica claro, logo de início, que o filme não é sobre Jaci, mas que Jaci, assim como Geni, atravessa o filme. Na canção de Chico Buarque, Geni e o zepelim, Geni é a pessoa que encarna em seu corpo toda exploração e opressão circundantes, e que por isso se torna objeto de transferência dos mesmos que as promovem, que segue de programa em programa, até chegar o zepelim.

 

Quando se recusa a deitar-se com o comandante do zepelim, que incorpora o sedento capitalismo, que “tudo desmancha no ar”, é, por um momento, elevada ao status de heroína na canção. Depois de salvar seus próximos, também por “um momento”, até o próximo ciclo, Geni volta a ser moralmente condenada e oprimida. Não à toa as imagens que encerram o filme Jaci: sete pecados de uma obra amazônica são as lágrimas de uma jovem, não mais bendita, de Jaci. Amazônia usada, violentada e descartada, até a fronteira seguinte, até o fim da fronteira, até o fim. A construção das Usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau reitera e amplifica o método de extermínio da diversidade socioambiental amazônica. Tudo em nome da expansão de cadeias produtivas concentradoras e insustentáveis, eis o pecado (do) capital.

 

O cotidiano dos trabalhadores engajados na construção da hidrelétrica é retratado de maneira direta e próxima: a jornada de trabalho que inclui os longos deslocamentos, as filas para tudo, o trabalho pesado, a hierarquia e pressão a que são submetidos os trabalhadores para atingirem metas estabelecidas pela empresa. Os barrageiros são apresentados como garimpeiros que migram de obra em obra. Nesse sentido, os operários são comparáveis à Geni: suportam o ritmo frenético de produção, submetem-se ao confinamento e têm seus direitos constantemente violados; daí partem de Jirau para Belo Monte e assim sucessivamente.

 

Fica claro que, especialmente na hora de o trabalhador reivindicar seus direitos perante a corporação – juridicamente aparelhada –, o domínio da língua está ligado a poder. Poder de argumentação é igual a poder de decisão. E a decisão é sempre pela maior produtividade. Em Trem-fantasma, de Francisco Foot Hardmann, é relatado que os medicamentos ministrados aos trabalhadores da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré fechavam uma equação que garantia meramente a sobrevivência – e, portanto, a produtividade – dos trabalhadores. Produtividade para nos salvar? Para nos redimir?

 

Os relacionamentos de trabalhadores de Jirau com as prostitutas de Jaci-Paraná são explicitados no brega (cabaré). Curiosamente, esse mesmo brega, quando filmado em 2014 para o documentário Entre a cheia e o vazio, havia sido transformado em abrigo para os desalojados pela cheia histórica do rio Madeira. O número de bregas em Jaci em 2014 era maior que o número de escolas e igrejas, por isso os bregas serviram de abrigo.

 

A cena dos trabalhadores decidindo pela manutenção da greve em 2011 – contra a determinação do sindicato (CUT), que no passado era quem puxava as greves de massa – é um registro precioso. O discurso dos representantes da empresa de que os custos da obra são repassados para o país e para o consumidor, justificando que “não tem como ser diferente”, reforça a falta de planejamento e responsabilidade dos consórcios, pois “um dia surgiu, brilhante/ entre as nuvens, flutuante/ um enorme zepelim”. E quando a imensa maioria de trabalhadores decidiu ignorar o sindicato adestrado, um deputado (sócio particular do Consórcio ESBR) fez da defesa da usina uma “defesa nacional” e acusou os trabalhadores de sabotagem e terrorismo, mobilizando a Força Nacional para reprimi-los.

 

Depois que várias polícias (COE, Militar e Força Nacional) atuaram no canteiro de obras, muitos trabalhadores foram presos, outros seguem desaparecidos. Segundo os relatos dos operários, a Revolta dos Trabalhadores de Jirau foi intensificada como resposta à intervenção policial. Logo após a repressão, os trabalhadores famintos e desorientados se puseram em marcha com destino a Porto Velho (a 120 km de Jirau). A mídia local narrou o episódio como se a cidade estivesse sob ataque iminente de fugitivos de um presídio. Pedra na Geni!/ Bosta na Geni!/ Maldita Geni!

 

A cheia histórica do rio Madeira em 2014, potencializada pela operação irregular dos reservatórios das Usinas, e suas consequências desdobradas, são flagradas pelas câmeras: os desalojados pela água e pela imprevidência e a truculência da Defesa Civil que criminaliza os ribeirinhos que se recusam a deixar suas casas.

 

Cena final, brega vazio: muitos seguiram para Belo Monte, outros voltaram para suas famílias; e lá permanece a jovem, nem mais tão jovem, em Jaci. Suas lágrimas percorrem seu rosto e todo o filme contando a sua história particular no mosaico de vidas que a obra reúne. E nem bem amanhecia/ Partiu numa nuvem fria/ Com seu zepelim prateado. É o “ônus do progresso”, justifica o vil deputado. É a forma de naturalizar a transformação irreversível da paisagem, do meio ambiente e das histórias de milhares de pessoas – para o benefício exclusivo de grandes grupos econômicos.

 

O processo desse sofrimento ocultado das lentes oficiais está registrado limpidamente em Jaci: sete pecados de uma obra amazônica.


Trailer disponível em: https://vimeo.com/121632702

 

Lou-Ann Kleppa é doutora em Linguística e professora da Universidade Federal de Rondônia (UNIR);  Luis Fernando Novoa Garzon é doutor em Planejamento Urbano e Regional e professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR)

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Última atualização em Segunda, 01 de Junho de 2015
 

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