O leite derramado

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“Mais água, mais leite e menos água no leite”. Com tal slogan bem humorado, o Barão de Itararé foi eleito vereador no Rio de Janeiro em meados do século passado. O Barão, que era republicano e comunista, sabia das coisas. Queria para o povo, em quantidade farta e mantidos na sua qualidade integral, os dois preciosos líquidos. E , por isso, dirigia a flexas do seu humor ferino contra os fraudadores da época.

 

Bons tempos aqueles, quando a ganância dos capitalistas ainda se valia de recursos naturais para assaltar a bolsa do povo. De lá para cá, a coisa piorou muito. Para espanto de todos, deu nos jornais que estão colocando soda cáustica e água oxigenada no leite das crianças. Um absurdo que só foi descoberto quando um trabalhador, demitido das usinas do crime, resolveu denunciar a falcatrua. Não fora isso, jamais ficaríamos sabendo do veneno nosso de cada dia.

 

As autoridades responsáveis pela fiscalização, para variar, não sabiam de nada. Foram acordadas pela revolta geral diante da notícia terrível e agora anunciam que tomarão providências. Dentro, é claro, das limitações estruturais que o poder público se coloca no modelo vigente. Faltam fiscais para vigilar a qualidade dos alimentos. A política do estado mínimo, tão decantada nos grandes meios de comunicação de massa, reserva a parte do leão do arrecadado para a saúde das instituições financeiras.  

 

Oura faceta revelada pela crise do leite envenenado. Descobriu-se, por conta do espanto suscitado, que o Ministério da Agricultura gastou apenas 2% da verba prevista, no orçamento do ano em curso, para o controle dos resíduos e contaminantes em produtos de origem vegetal e animal. De uma dotação autorizada de R$ 22.575.000,00, foram emitidos empenhos de R$ 839.460,31 e pagos apenas R$ 255.800,13.  São as contingências do modelo.

 

Nada escapa do famoso contigenciamento, aquele que já gerou crises em quase tudo quanto é lugar. Nos portos, aeroportos, estradas esburacadas, segurança, saúde e educação públicas em petição de miséria. No entanto, há uma parte do aparato burocrático que funciona de maneira maravilhosa para seus beneficiários. Até o presidente se orgulha. Os juros estão sendo pagos em dia e a moeda ostenta uma saúde de vaca premiada.  No modelo que eles inventaram, a saúde da moeda tem primazia sobre a saúde das pessoas.

 

“É a economia, estúpido!”. A  frase célebre do marqueteiro do Clinton, James Carville, virou símbolo de uma época. Não por acaso. Afinal, ela sumariza com perfeição a hegemonia da agenda neoliberal.  Uma agenda de desastres, marcada pela primazia da economia sobre a política, pela tutela do privado sobre o público e pela supremacia absoluta do mercado sobre a sociedade. O chamado “espírito animal” dos capitalistas (definição do especialista Delfin Neto), sem os freios do controle social, não livra a cara sequer do leite das crianças.

 

Um porta-voz dos produtores do leite envenenado chegou a declarar, para tranqüilizar a população, que não há razão para tanta celeuma, afinal os refrigerantes também usam soda cáustica. Barão de Itararé, valei-nos. Estamos no interior do labirinto, onde o minotauro do lucro a qualquer custo exige sacrifícios crescentes. Enquanto perdurar tal modelo, a estupidez agressiva do capitalismo puro e duro, só nos resta chorar sobre o leite derramado.

 

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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