Brasil, modelo esgotado

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A crise brasileira traduz o esgotamento de um modelo neodesenvolvimentista que sacramentou, no macro, o capitalismo neoliberal e, no micro, o paternalismo populista de benefícios aos mais pobres.

 

O capitalismo neoliberal favorece o consumo, e não a produção, o que explica, nos últimos 12 anos, a facilidade de crédito, as desonerações tributárias, o aumento anual do salário mínimo corrigido pela inflação, o maior acesso dos brasileiros ao mercado. No entanto, não se criaram as bases de sustentabilidade para assegurar o acesso, a longo prazo, aos bens de consumo.

 

O paternalismo populista teve início quando se trocou o Fome Zero, um programa emancipatório, pelo Bolsa Família, meramente compensatório. Passou-se a dar o peixe sem ensinar a pescar.

 

Embora 36 milhões de pessoas tenham saído da miséria, nada indica que, com o atual ajuste fiscal, número igual de brasileiros não resvalará para a carência extrema, sobretudo impelidos pelo desemprego.

 

O governo facilitou o acidental, não o essencial. O acesso aos bens pessoais, como produtos da linha branca (geladeira, máquina de lavar, fogão, micro-ondas etc.), não foi complementado com o acesso aos bens sociais: educação, saúde, transporte público, segurança e moradia.

 

Por paradoxal que possa parecer, o PT despolitizou a nação. E a oposição, que tanto ecoa protestos, carece de propostas.

 

O debate político desceu do racional para o emocional. Sabe-se o que repudiar, não o que almejar. Como se o sentimento de ódio e desprezo tivesse consistência política.

 

Os anos de prisão, sob a ditadura militar, me ensinaram que o ódio destrói, primeiro, quem odeia, e não quem é odiado. Shakespeare bem definiu: “Odiar é tomar veneno esperando que o outro morra”.

 

Ainda que Dilma sofresse impeachment, quem a substituiria? Michel Temer? Trocar o PT pelo PMDB na presidência da República seria um avanço? E se viesse o PSDB, o que só seria possível com nova eleição, evitaria essa política econômica recessiva e lesiva aos direitos dos mais pobres?

 

A luz no fim do túnel está na face mais democrática do Brasil: as ruas. Este o palco da soberania nacional, se estamos de acordo que democracia é governo do povo para o povo e com o povo.

 

Somos nós, cidadãos e cidadãs, que escolhemos os políticos que ocupam a estrutura do Estado. Em nosso nome eles governam. Somos nós que, via impostos, financiamos toda a administração estatal, das obras do PAC às passagens aéreas de deputados e senadores. Nós somos a autoridade. Eles, nossos servidores.

 

Portanto, cabe ao povo brasileiro se manifestar, mobilizar, organizar, criar uma ampla frente de propostas para as mudanças que o nosso país tanto necessita, como o fim do financiamento de campanhas eleitorais por empresas e bancos; a reforma política; a reforma tributária onerando mais quem ganha mais; a reforma agrária nesse território de dimensões continentais.

 

Governo é como feijão, só funciona na panela de pressão.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

Website: http://www.freibetto.org/

Twitter: @freibetto.

Comentários   

0 #1 RE: Brasil, modelo esgotadoDagmar Zibas 07-05-2015 18:40
Ouso não concordar. Dentro do capitalismo (tout court) não é possível assegurar completa "sustentabilidade" para ganhos econômicos e sociais. As crises e os ciclos são inerentes ao sistema. Acontece nos EUA e na Europa. Há avanços e recuos . Nem o Welfare State se sustentou na Europa. (Sei, estou sendo óbvia demais, mas parece que precisa). E, dentro das regras do jogo do capitalismo (que é o único que pode ser jogado, ou alguém duvida disso?), o aumento do consumo deve ter reflexo no aumento da produção. O que Frei Beto propõe é um outro modelo econômico que não tinha e não tem a mínima condição política de ser adotado. E mais, opor a inclusão na sociedade de consumo ao acesso aos bens da cidadania (educação, saúde, etc). é "basista" demais. (Frei Beto estaria pensando no modelo cubano?). A oportunidade de consumir (não o consumismo) também é educativo. Quando não se tem mais que lutar pelo "comer", outras necessidades emergem e são reivindicadas (dentro do capitalismo, claro, porque não há outra perspectiva por enquanto. Ou há e não enxergo?). Também estranho muito Frei Beto abraçar a tese da direita pitbull e dizer que o Bolsa Família é populista e que não ensina a pescar. Não é o que dizem as pesquisas. Programa recomendado pela ONU precisamente porque não é paternalista. Mais de 3 milhões de famílias deixaram espontaneamente o programa, ou seja, aprenderam a pescar. Quanto à "voz das ruas", os movimentos de "esquerda independentes", como o Passe Livre, foram usados e, em seguida, absolutamente soterrados e canIbalizados pela direita. A voz das ruas agora é da direita mais retrógrada, amplificada pela mídia conservadora e partidária. O que quero dizer é, se está ruim com o PT, muito pior sem ele. Ou acham que toda essa mobilização e panelaços da classe média tradicional e da burguesia, esse ódio ao partido, não têm a ver com alguma distribuição de renda que foi feita e com a certeza de que continuaria após a crise cíclica? Por isso a crise política, criada precisamente para impedir a recuperação e a continuação do projeto distributivista. A conclusão é óbvia: se a direita odeia, quer derrubar, quer dar o golpe, é porque os governos petistas (ao contrário do que diz Frei Beto) não são continuação tranquila dos governos anteriores. Houve uma pequena trinca no sistema (não ruptura, claro, essa impossível). E essa pequena trinca não é tolerada pelo establishment. Algo de bom foi feito e teria condições de continuar a ser feito. Daí a tentativa de golpe.
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